UM GRAMA DE SABOR
UM GRAMA DE SABOR
Não há unidade? Usar o grama!
Não há unidades formais, objetivas, legítimas, para as sensações: só opiniões, com adjetivos, advérbios e expressões quejandas (subjetivos).
Todavia, por vezes, fala‑se de perceções quantificadas como, por exemplo, a perceção de uma temperatura de 17 °C quando a temperatura atmosférica indicada pelo termómetro é 18 °C. Esta perceção, ou “sensação térmica, ou temperatura aparente, é a forma como os nossos sentidos percebem a temperatura do ar, e que pode diferir da temperatura real.”
Sensação quantificada?; independentemente de quem sente, ou percebe?!
Às vezes, abusivamente, sensações e processos idênticos são quantificados com unidades de medida como, por exemplo, o grama, o litro e o milímetro.
O grama, nas conversas comuns, é usado por vezes como unidade para o que (ainda) não tem, ou tem outra unidade: tirar o açúcar de um produto, mas, alegadamente, sem perda do sabor do novo produto relativamente ao antigo: – sem perda de um grama de sabor*, anunciava o publicitário.
Segundo outro publicitário, poderia ser feita a interposição de um dispositivo, por exemplo, num sistema de alimentação de energia elétrica, “sem perda sequer de um grama de energia” **. (A unidade de energia do SI é o joule, símbolo, J; a unidade de energia usada para quantificar os consumos caseiros de eletricidade é correntemente o quilowatt‑hora, aliás, kilowatt‑hora, símbolo, kWh, ou kW∙h, equivalente a 3 600 000 J, ou 3,6 MJ.)
Quando não se sabe qual a unidade de medida da grandeza de que se fala, recorre‑se frequentemente … à unha*** e ao milímetro****, por exemplo. Ou até quando não há unidade (nem mensuranda).
Uma figura pública explicava que, num determinado processo, uma segunda personalidade não teria tido nem um milímetro de intervenção! (O segundo, s, unidade de tempo, não seria a unidade apropriada?!)
E que dizer da sentença, ou opinião de alguém, acerca de um determinado jogador de futebol?: – Tem mais inteligência (do) que força. (Inteligência e força são grandezas comparáveis?)
E aquela regra em que se presume equivalência entre (parte da) altura, h, e peso, p, de uma pessoa?. O número de centímetros acima de cem (a altura de uma pessoa em centímetros diminuída de 100 cm) e o respetivo peso em quilogramas: p=h–100, com p expresso em quilogramas e h expresso em centímetros. Quem tem 172 cm de altura deveria pesar, indicativamente, 72 kg.
* O sabor é uma sensação (subjetiva) e (ainda) não é medido (na aceção metrológica). Não havendo medição nem medidas, fica o campo aberto à subjetividade, à ficção e à arbitrariedade. (E à manipulação.)
** Esta expressão permite pressupor (pelo menos) a ignorância do anunciante e duvidar da bondade dos seus propósitos. (Publicidade: informação, sedução e manipulação.)
*** Neste afã das medidas usa‑se bitolas e unidades de recurso: – De resto, entre verdade e fanatismo não cabe a espessura de uma unha. (Agustina Bessa-Luís)
**** Alguém que “não se afastou um milímetro dos seus temas”.
2020-11-19