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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

SENTIR AS MEDIDAS (I)

SENTIR AS MEDIDAS (I)

Dez milhões de graus Celsius?

 

O que são dez milhões de graus Celsius (10 M°C=10x106 °C=107 °C)?

Sabemos o que são cem graus Celsius (100 °C): a temperatura de referência de ebulição da água pura à pressão normal.

Temos noção do que são 600 °C: a temperatura indicativa a que um corpo aquecido começa a emitir radiação visível (se o corpo não for destruído antes de atingir essa temperatura!).

Pensamos saber o que são 1500 °C: a temperatura indicativa, ou aproximada, da fusão do ferro.

Mas, dez milhões de graus Celsius?!, é o quê? Parece-se com que fenómeno? Que corpo conhecido pode atingir uma temperatura comparável à temperatura do interior do Sol?

A nossa sensibilidade não nos ajuda com os grandes números e com as medidas grandes.

Um pobrezinho não saberia o que fazer com 100 M€ que lhe saíssem no (jogo do) Euromilhões.

Os jornalistas enganam‑se frequentemente na leitura das notícias com números e medidas muito grandes. Por exemplo, em vez de 4 milhões de toneladas, leem, por vezes, 4 mil toneladas; em vez de 6 mil milhões de euros, uma vez por outra, leem 6 milhões de euros. Outro – imagine-se! – disse que a transferência de um jogador de futebol português seria feita por … 400 M€.

São quantidades que geralmente estão para além dos números do quotidiano, da sensibilidade e da vivência rotineira das pessoas comuns.

O milhar de milhões (1000x106=109) é designado, em geral, nos textos vindos do outro lado do Atlântico, por bilião. Nos países europeus, naqueles onde é usada, corrente e corretamente a terminologia do SI (Sistema Internacional de Unidades), o bilião vale 1012. Eis o critério: na expressão 106n, se n=1 (106x1=106), milhão; se n=2 (106x2=1012), bilião; se n=3 (106x3=1018), trilião, e por aí adiante.

Quem, por exemplo, diz biliões, diz bilionésimos: basta trocar o sinal do expoente: 10−6x2=10−12.

O Universo teria nascido há cerca de catorze mil milhões de anos: 14 000 000 000 de anos (1,4x1010 anos=14x109 anos), menos do que um bilião de anos, na terminologia do SI.

O número de todas as partículas do Universo é inferior a um googol (10100), palavra inventada por uma criança – lê-se gugol – e foi posteriormente escolhida para criar o nome de um motor de busca na internet que toda a gente conhece: google.

O número de átomos do Universo será inferior a 1080.

Hoje, na narrativa científica, não há nada mais velho do que o Universo (cerca de 14x109 anos); não há velocidade superior à da luz no vazio (cerca de 3x108 m/s, ou 300 000 km/s), e não há temperatura inferior a 0 K (zero kelvin(s)).

Considere uma folha de papel comum: a espessura é de cerca de um décimo de milímetro (0,1 mm); dez folhas juntas perfazem cerca de um milímetro (1 mm).

Dobre uma folha destas: obterá uma espessura de dois décimos de milímetro: 0,2 mm (2x0,1 mm=0,2 mm). Redobre: ficará com o dobro da espessura anterior: 0,4 mm (2x2x0,1 mm=22x0,1 mm=0,4 mm). Redobre de novo: a espessura do conjunto será 0,8 mm (2x22x0,1 mm=23x0,1 mm=0,8 mm). Repita até à quinquagésima vez, se isso fosse fisicamente possível. A espessura final do conjunto será de 0,1x250 mm. Consegue imaginar a distância correspondente a esta expressão? É mais do que a distância da Terra à Lua!

 

2016-09-01

 

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