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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

QUARENTA LITROS DESIGUAIS

QUARENTA LITROS DESIGUAIS

Não há duas medidas iguais

 

Os quarenta litros (40 L*, preferível a 40 l) de combustível que comprei hoje não são iguais aos quarenta litros que comprei na quinzena passada. Também não são iguais aos do cliente que se abasteceu na bomba ao lado. E não é por deixar, ou não deixar correr o combustível até à última gota, levantar, ou não levantar a parte média da mangueira, sacudir, ou não sacudir a agulheta!

Há alguma semelhança entre as várias medidas de uma mensuranda (mensurando, em brasileiro) e os impactos dos tiros apontados à muche (mouche) num alvo: não coincidem; não há, em geral, dois impactos completamente sobrepostos! Além disso, nas medições, não vemos a mouche.

Não há que desesperar: a incerteza metrológica é uma propriedade das medidas! Podemos controlar a incerteza, circunscrevê-la (com probabilidade quantificada), mitigá-la, mas não podemos evitá-la, eliminá-la, erradicá-la.

Uma medição é um processo com contingências, embora as técnicas, os métodos e os procedimentos estabelecidos por autoridades técnicas e instituições legais permitam tratar a variabilidade decorrente das contingências segundo convenções normalizadas.

É quase nula a probabilidade de abastecer exatamente quarenta litros de combustível e, se o fizéssemos, não saberíamos tê-lo feito! Todos os que, nas bombas de combustível, marcam, ou programam quarenta litros, pagarão quarenta litros, mas abastecerão um pouco menos, ou um pouco mais**. Há quem diga que será mais vezes um pouco menos do que um pouco mais. É provável que seja tantas vezes um pouco menos como as vezes em que realmente se leva um pouco mais.

Se formos muitas vezes à bomba, o que trazemos a menos em algumas vezes seria compensado pelo que trazemos a mais nas restantes vezes.

Todavia, os que levam um pouco menos, se o soubessem, não deixariam de protestar. Não parece ser razoável ter de esperar pela compensação das próximas vezes. Poderá não haver próximas vezes!

Aquelas medidas, não sendo coincidentes, seguem geralmente um padrão e uma distribuição determinada, no sentido probabilístico, e afinar as bombas para que sejam poucos os prejudicados (os que levam menos do que 40 L) e mais os beneficiados (os que levam mais do que 40 L) tem custos para o vendedor, em geral não desprezáveis.

Marcando e pagando quarenta litros de combustível na próxima vez em que abastecer, não levarei exatamente a mesma quantidade que levo hoje. Abastecendo muitas vezes, as faltas e as demasias (as perdas e os ganhos) compensar-se-iam se as afinações das bombas fossem as mais convenientes.

Isto, provavelmente, é uma banalidade para o leitor, mas talvez convenha lembrar que não há dois instrumentos iguais, nem procedimentos perfeitos, nem dois processos exatamente coincidentes, embora sintamos algum conforto por sabermos e podermos verificar que as bombas de combustíveis são calibradas (aferidas) anualmente.

Quem diz combustível, diz outro produto, outras grandezas e outras medições e medidas.

 

*A unidade “litro” (símbolo, L, ou l) não pertence ao SI, mas é aceite (aceita, em brasileiro) neste sistema. “L” – /éle/ maiúsculo – é preferível a “l” – /éle/ minúsculo – por este último poder confundir-se com o símbolo do número um (1). Correntemente, 1 L≡1 dm3.

 

**Também pagamos a gasolina que se evapora na trasfega, seguramente mais intensa no verão do que no inverno.

 

2017-11-09

 

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