NÃO PODE SER MEDIDO?
NÃO PODE SER MEDIDO?
Propriedades nominais
Às vezes os números são nomes.
A rua 16, em Espinho (poderia ser a rua 56, em Nova Iorque), não tem nada a mais do que a rua 14. Nem a habitação ou porta 420, na Rua dos Heróis Improváveis, será mais comprida, mais larga ou superior à 322. Já a porta 527, entre nós, está do outro lado da rua relativamente à porta 532.
O aluno (número) 23 da turma 6 não tem, pelo número de ordem, qualquer superioridade relativamente ao aluno (número) 18; nem a turma 6 é melhor do que a 4, só por ter uma designação numérica, por acaso superior a outras da mesma escola.
O nosso número de cidadão, constante do “cartão de cidadão”, não serve de comparativo, nem de nível hierárquico, nem de indicador de altura, peso, ou outra caraterística, com outros números de outros cidadãos. O número fiscal, ou número de contribuinte, não serve para hierarquizar os contribuintes pelo nível de rendimentos, ou dimensão da riqueza. São designações, “nomes”, caraterísticas nominais*. São números mecanográficos.
Não é costume atribuir tamanho, dimensão ou magnitude a muitas caraterísticas.
Por exemplo, a cidadania não admite comparabilidade: um cidadão português e um cidadão inglês não são suscetíveis de comparação quantitativa, de hierarquização, ou medição, do ponto de vista desta caraterística. Não há uma métrica consensual, objetiva, associada a esta caraterística.
Caraterísticas nominais não têm medida, não são mensuráveis. Algumas, por agora.
Todavia, pode-se eleger a mais bela do mundo!
Algumas caraterísticas, aparentemente nominais, por exemplo, a cor da pele, seriam mensuráveis. A branquidão e a negritude, por exemplo, são suscetíveis de gradação, de medição, de intensidade. Quem é que está mais bronzeada, quem é? Quem é que é mais preto, ou mais branco?
E “gordo” terá gradação? Os “gordos” não vão à balança? Pese embora a inconveniência, correção ou incorreção sociopolítica de algumas expressões. Há até um limiar de carater técnico-científico para determinar quem é ou não obeso.
O preconceito, velho, novo e assim-assim, também poderá meter-se na ciência e na tecnologia? O preconceito é o éter da cultura, da ideologia e da civilização, como há muitos anos o famigerado éter‑suporte‑da‑luz.
Por vezes, muda-se a palavra, ou termo, e acaba o preconceito. Acaba?!
Parece haver uns mistérios maiores do que outros mistérios, e transcendências mais transcendentes do que outras!
Em regime(s) de “meritocracia(s)”, como se avalia, quantifica e mede o(s) mérito(s)?
O mérito serviria para comparar, hierarquizar e ordenar os méritos de cada entidade: pessoa, profissional, ou instituição. Todavia, o segredo, ou dificuldade estariam em como e quem estabelece a definição, referência e padrão do mérito. Frequentemente, os fautores da escala, aferição e tabela do(s) mérito(s) são, direta ou indiretamente, parte interessada no processo.
*Propriedade nominal – propriedade de um fenómeno, corpo ou substância a que não pode ser atribuída expressão quantitativa (VIM 2008). O VIM 2012, mais recente, chama-lhe propriedade qualitativa.
2017-04-13