METROLOGIA SEM NÚMEROS?
METROLOGIA SEM NÚMEROS?
Medir com olhómetro
Com alguma frequência as avaliações e estimativas (quantificadas) são feitas com olhómetro, a olho; com olhos e cabeça; um exemplo: a perceção da temperatura atmosférica.
Um árbitro, por exemplo, no futebol, qual juiz (de direito), decide de acordo com a perceção de factos; todavia, cada vez mais frequentemente com ajudas tecnológicas, embora as Decisões Ajudadas por Tecnologia nem sempre sejam incontestadas.
O jogador de futebol é com frequência penalizado pelo árbitro, pela intensidade do contacto com o adversário em algumas disputas de bola.
– Qual intensidade? – O futebol não é um jogo viril?! (Apesar da modalidade do “futebol feminino”?!; virilidade poderá ter pouco a ver com agressividade!?)
– Quem avalia a intensidade do contacto? – Quem determina a intensidade do contacto? – O árbitro! – Ele mede? – Não! – Ele decide a olho, com olhómetro, em geral com a reprovação exteriorizada e ruidosa dos adeptos do clube do jogador penalizado, e as palmas dos adeptos do clube adversário (quando havia adeptos nas bancadas dos estádios.)
Medindo, o que seria a “intensidade de contacto”?: a força?!; a quantidade de movimento (momentum, momento linear), ou impulso?!; a energia cinética?!; a “força viva”?!; o choque?!; “outra coisa”?!; uma combinação de várias destas grandezas (e da coisa) físicas?!
Poderá haver Metrologia credível, comparável, contraditável, sem medição?; sem medidas, sem quantificação objetiva, sem informação experimental?!
Frequentemente somos brindados com o dado referente à velocidade da bola que entrou na baliza; e também com o número de quilómetros (aliás, kilometros) percorridos pelo jogador X durante um determinado jogo.
Com medições e medidas talvez o futebol deixasse de ser o epifenómeno catártico que parece preparar as pessoas para a monotonia da semana de trabalho seguinte e, simultaneamente, permite descarregar tensões acumuladas na semana anterior. Sem ambiguidade, sem fantasia e sem expectativa não há margem nem grande estímulo para a dilatação e prolongamento das discussões (futebolísticas) fora do estádio.
E, já agora, o amor clubístico – a “intensidade do amor clubístico” – é quantificável, graduável, mensurável? Não?! Todavia, está sujeito a gradações e variações – há os adeptos muito ferrenhos, ferrenhos, assim‑assim e pouco ferrenhos, entre outras gradações –; não parece ser fenómeno de tudo‑ou‑nada.
E estar adoentado, doente, muito doente – será mensurável?
Os médicos – em geral um coletivo de médicos – já atribuem “grau de incapacidade” às pessoas com deficiência (quer congénita, quer adquirida): a deficiência (um fenómeno complexo) seria mensurável, ou, pelo menos, quantificável! (Sem grande reprodutibilidade, presume‑se!)
E quando os médicos dão baixa de três dias aos doentes, e não, por exemplo, de dez dias, medem? É tudo a olho, com “olhómetro”?
Fica-se doido, ou vai-se ficando doido? O processo é gradativo (do idiota ao doido varrido), ou é um fenómeno de tudo‑ou‑nada?
A experiência, por exemplo, a experiência profissional, é quantificável?; mensurável?, para além do número de anos de prática profissional?!
O que não se pode exprimir por números é naturalmente mais ambíguo.
2021-02-04