MEDIR O TEMPO SEM RELÓGIO
MEDIR O TEMPO SEM RELÓGIO
Quantos tempos há?
Os cosmólogos dizem que o tempo – melhor, o espaço‑tempo –, nasceu com o Big Bang. E, até ver, parece ser uma boa narrativa.
E o tempo poderá ser retardado e acelerado? O tempo tem velocidade?
Ou são os fenómenos que podem ser acelerados e retardados?! Ou, nem isso!?
O tempo é relativo? Aparentemente – tanto quanto se sabe – seria, por exemplo, no sentido psicológico, e no sentido da conceção da Física Relativista (segundo Einstein, o tempo seria uma ilusão!).
E o calendário?, conta, ou mede* o tempo?!
Podemos medir o tempo sem relógio?!
Como se mede o intervalo “daqui a três semanas”? Com o calendário?!
Medimos o tempo contando oscilações, alternâncias regulares, batimentos de órgãos de algumas máquinas; contando repetições de fenómenos periódicos; contando vibrações de alguns corpos; contando saltos de algumas partículas subatómicas. E a idade do Universo mede-se pelo tamanho que este teria adquirido a partir do Big Bang.
Aparentemente, quando se mede o tempo, poder-se-á ter a sensação de que não há nada para medir, pelo menos com idêntica natureza fenomenológica, caráter sensível e identidade que apresentam, por exemplo, a temperatura, a pressão ou o comprimento. Em primeira instância, contamos voltas da Terra.
Aparentemente, (quase) todas as grandezas podem ser aumentadas, diminuídas e até mantidas constantes. Com o tempo (e a entropia, com que o tempo estaria relacionado), parece que não.
Efetivamente, ao contrário, por exemplo, da intensidade da corrente elétrica, da massa, e da velocidade, não é necessário apontar, encostar, ou circunscrever um corpo, ou uma região, para medir o tempo.
O que estará a medir, autisticamente, um relógio?
Em geral, contamos o tempo em minutos, horas, dias, anos, décadas, séculos e milénios (unidades que não pertencem ao SI), entre outras unidades, e medimo-lo em segundos (unidade de tempo do SI), décimos de segundo, centésimos de segundo, milésimos de segundo, e por aí fora.
A Terra é um relógio; a Lua é um relógio; os átomos são relógios; alguns elementos (químicos), por exemplo, os que se decompõem espontaneamente, são relógios.
Há fenómenos, entidades e processos que são usados para medir o tempo.
Há elementos químicos que não são estáveis e dos quais conhecemos o ”ritmo”, a “regularidade” e a “periodicidade” de alteração, de mudança. Tudo o que tiver “ritmo” poderá, com algum controlo, ser elegível para relógio.
Ninguém chama relógio à ampulheta, ou à clepsidra, mas estes dispositivos (também) servem para medir o tempo (cronológico)!
Sentimos a temperatura quando percebemos que há calor a atravessar‑nos a pele, ou ao contrário, calor a abandoná‑la – linguagem figurada! Porém, possuir esta sensibilidade não permite (à generalidade das pessoas) medir a temperatura.
E sentimos o tempo (cronológico), embora de modo diferente com que sentimos a temperatura: digamos que ele (o tempo, uma ilusão, segundo Einstein) é relativo e, aparentemente, com legitimidade científica.
Parece que o tempo, ao contrário do que a linguagem comum e sentimento geral fazem crer, não flui, como um fluido que se escoasse: é (só mais) uma coordenada de localização no espaço‑tempo.
*”Medir” – coisa complexa – é contar; “contar” – coisa simples – não é medir.
2019‑03‑14