MEDIR COM SOMBRAS
MEDIR COM SOMBRAS
E medir com luz
Também medimos com sombras, ou com a ajuda de sombras, quer com o espetro visível, quer com o invisível.
Os relógios de sol mediam/medem (o tempo)* com a ajuda da sombra de um ponteiro sobre um mostrador. (Com os relógios de sol não há contagens de impulsos, ou tic‑tacs, mas a observação da posição da sombra de um ponteiro, no seu movimento que acompanha o movimento do Sol, aliás, da Terra, embora o movimento seja relativo. Com os relógios comuns, os ponteiros movem‑se saltando; com os “relógios de sol” a sombra do ponteiro desloca‑se em movimento contínuo; o “relógio de sol” é analógico.)
Na verdade, quando medimos com sombras fazemos medições com luz **. Aparentemente, sem luz não há sombra(s). Sombra – zona de superfície não iluminada – é a superfície contrastada com a superfície iluminada. A escuridão do céu em que o Universo parece estar mergulhado, não beneficia da luz do Sol, conquanto haja incontáveis estrelas iluminando por todo o lado.
Eratóstenes, o primeiro – como é narrado frequentemente – a medir (com sucesso e com exatidão notável) o perímetro terrestre, isto é o perímetro (e o diâmetro) da Terra***, fê‑lo com a ajuda de sombras (e sua ausência) no fundo de poços, em Alexandria e em Siena (atual Assuão), no Egito.
Ainda hoje, em laboratórios avançados, se mede com sombras. Os espetros eletromagnéticos apresentam sombras e zonas iluminadas; e a ausência de certas riscas (frequentemente, sombras) e a presença de outras, como é o caso das franjas de Fraunhofer, revelam fenómenos, factos e grandezas muito importantes.
* Anaximandro [610 a.C–547 (?) a.C.] teria sido o primeiro – diz‑se – a medir o tempo, pela observação do movimento da sombra de uma estaca espetada no chão, e, concomitantemente, transformando o tempo, de entidade mística (governada por Cronos, deus do tempo) em grandeza física; isto, naquele tempo, era coisa parecida com heresia!
** A luz é onda e, simultaneamente, por postulado recente, um fluxo de partículas – fotões, um termo mais tardio do que o conceito – sem massa em repouso (não há fotões parados), por necessidade física, mas, com momento linear, ou momentum (daí a pressão das radiações sobre superfícies materiais), ensina a Ciência vigente. (Todavia, a sua natureza, onda ou chuva de fotões, dependeria do que estamos preparados para observar e, consequentemente, dos equipamentos com que nos provemos para fazer a observação! Um resultado à la carte?!)
Porém, nunca alguém viu um fotão apesar de, alegadamente, eles nos entrarem a rodos olhos adentro.
De resto, não vemos muitas coisas que a Ciência parece “tratar por tu”.
Hoje, quase não se fala do éter que já preencheu todo o Universo; o éter foi substituído pelo campo, e, depois, pelo tecido espaço‑tempo, mas continuamos com a mesma incontornável e desconfortável ignorância com que vivíamos; aparentemente poucas mais mudanças houve do que as dos termos, palavras e expressões, pesem embora as implicações dos novos modelos descritivos e explicativos.
*** Quando a Terra era plana, parece não ter havido alguém (ninguém) que – espantosamente! – sentisse o desejo, a necessidade e a curiosidade de a medir!! (Aliás, a superfície da Terra seria um quadrilátero; daí a expressão ainda frequente: “os quatro cantos do mundo”.)
2022-03-10