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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

MEDIR A REALIDADE

MEDIR A REALIDADE

Qual realidade?

 

Medimos coisas reais, apesar de não sabermos definir com rigor o que é real e o que é a realidade*. Por exemplo, medimos forças, mas nunca alguém viu alguma!

Postulemos que o real existe** e que o nosso conhecimento do real é, primeiramente, uma construção pessoal, e que algumas destas construções são agregadas e transformadas em construções sociais***.

Aparentemente, podemos medir o comprimento de um barco numa miragem! (As imagens, em geral, são mensuráveis. Todavia, a medição do barco da miragem não poderia ser repetida – as miragens alteram‑se rapidamente – e a medida não poderia ser verificada.)

O conhecimento da realidade vai-se alargando (as ondas eletromagnéticas são conhecidas só desde há poucas centenas de anos, e as que víamos – a luz – não sabíamos que eram ondas eletromagnéticas!), ou vai‑se contraindo (já não há o éter, o suporte da luz e de outras ondas eletromagnéticas); melhor, as narrativas da realidade (sempre em atualização!) estão em mudança constante.

A Metrologia dá frequentemente uma contribuição relevante para a compreensão da realidade. Contudo, não há duas medidas iguais da mesma mensuranda. (A mensuranda – a entidade real – parece ser inatingível, ou assim convém que seja concebida.)

Geralmente, as medidas não são polémicas; comummente, as medidas são consensuais, embora os consensos não sejam garantia de coisa alguma.

 

* Em particular, por exemplo, na perspetiva da Mecânica Quântica (uma ciência exata), a realidade é incerta, indeterminada e com estados alternativos entrelaçados (embaraçados); ou, pelo menos, assim são interpretadas algumas subtilezas matemáticas dos seus modelos instrumentais.

(Provenham os argumentos de sumidades filosóficas, de génios da Física, ou de sábios supremos, aparentemente, a “realidade” será sempre uma questão de semântica. Com algum cinismo, poderíamos dizer que “real” é aquilo que decidimos que o é.)

 

** Por exemplo, os fotões seriam reais (e até valeram um prémio Nobel a Einstein, embora ele não tenha dado esta designação aos pacotes elementares de energia), mas, à luz da ciência vigente, terão dimensões? (Parados, os fotões não têm existência: não há fotões estacionados! Em trânsito, os fotões têm momentum, ou momento linear, e por isso, por exemplo, pressionam mecanicamente as superfícies sobre que incidem.)

O metro, agora definido a partir da (velocidade da) luz, não poderá ser caraterizado a partir de um determinado número de fotões justapostos, como pareceria poder sê‑lo com esferas metálicas de, por exemplo, 1 mm de diâmetro, ou outro diâmetro mais conveniente.

(Entre muitas entidades, grandezas e fenómenos, a dor é real, dirão alguns, contudo ainda não tem dimensões físicas; parece perceção pura.)

 

*** Não há razão para o leitor presumir que se trata de metafísica: algumas instituições públicas medem, por exemplo, a estabilidade dos preços, o desenvolvimento da economia e o nível da corrupção, embora alguns destes indicadores sejam só perceções e dependam de critérios variáveis no tempo e no espaço.

 

2023-12-28

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