MEDIDAS E PUBLICIDADE
MEDIDAS E PUBLICIDADE
Exageros e ambiguidades
Só raramente há medidas nos anúncios publicitários*.
E quando há medidas, geralmente são omitidos o contexto e algumas circunstâncias da medição**; e quem as observa, escuta, ou lê (e compreende) toma‑as frequentemente por não confiáveis em termos do mundo real de utilização.
Uma das principais características da publicidade (que opera na fronteira larga entre a verdade e a mentira) é a sedução (além da informação – pouca –, e da manipulação – muita). E as medidas (resultados de medições), em geral, não são sedutoras, exceto, para algumas grandezas, como, por exemplo, a potência, nos automóveis (grande, enorme!), e nas lâmpadas (pequena, pequenina!). Quando o objetivo é seduzir e manipular, as medidas – os resultados das medições – poderão ser instrumentos importantes da publicidade.
Também os média (media, em latim; mídia, em brasileiro e português estrangeirado), por onde é corrente passar muita publicidade, em geral, não costumam primar pelo rigor metrológico: são frequentes os erros e incorreções quando se trata de medidas, ou até a simples leitura de (grandes) números.
Muitos alimentos publicitados têm mais disto e daquilo (quanto?, em relação a quê?); outros têm menos daqueloutro, principalmente alguma substância já suficientemente diabolizada para o anúncio poder ter alguma vantagem no mercado dos ouvintes e dos videntes puros que se caracterizam pela sua (muito provável) ignorância e manipulabilidade.
As medidas (resultados das medições) na publicidade poderiam diminuir o “efeito manipulação” e desencorajar o destinatário; por isso, as medidas, em geral, não são uma mais‑valia, melhor, um “valor acrescentado”, num anúncio; ao invés, poderão ser uma menos‑valia (para quem faz publicidade).
A política, a publicidade e a religião, em geral, não recorrem a medidas (aceção metrológica): as medições, em geral, promovem o rigor, a transparência e a inambiguidade. Na verdade, as medidas, com todo o seu rigor, são geralmente incompreendidas pelo grande público; são mais úteis e preferidos os advérbios (por exemplo, “muito”, advérbio de intensidade) e os adjetivos e os seus respetivos graus (entre muitos outros, “grande”).
* Por exemplo, na publicidade de automóveis, mesmo automóveis caseiros, poderá aparecer a indicação da potência! Todavia, poucos serão os que, para um valor específico da (grandeza) potência de um carro, saberão compará-la com um valor de referência, ou relacioná-la com outras grandezas relevantes para a condução.
Sendo os valores de algumas grandezas (automobilísticas) dependentes da potência, mas limitados legalmente (como a velocidade), ou indesejáveis (como consumo de combustível e poluição) por que é que a potência recebe tanta atenção?
Todavia, na condução automóvel, a potência está direta ou indiretamente ligada a grandezas tais como: “velocidade máxima”, “aceleração máxima”, “tempos de ultrapassagem”, “coisas” muito apreciadas, ainda que geralmente mal geridas.
** Contava‑se, nos media, que os investigadores (do desempenho dos motores de alguns carros de determinadas marcas) ficaram “chocados” quando constataram a discrepância entre as medidas alegadamente obtidas em laboratório (e publicitadas pelas marcas) e as verdadeiras, as que foram registadas em estrada.
2021-09-02