INÉRCIA CULTURAL METROLÓGICA
INÉRCIA CULTURAL METROLÓGICA
Custos, tradição e impertinência
“O mercúrio subiu aos 17º ”; “o grau Kelvin”; “temperatura máxima para hoje: 25º centígrados”, são expressões metrológicas semelhantes a outras muito correntes e da mesma qualidade.
A racionalização, cientificação e a uniformização da Metrologia, a par da legitimação, responsabilização e controlo metrológicos por parte das autoridades dos países aderentes ao SI, e dos seus órgãos dedicados à Metrologia, constituem as bases da aceitação, globalização e confiança no mesmo SI.
Nenhum sistema – mesmo os sistemas da Natureza – é estático, fixo e invariante; e, por maioria de razão, os sistemas humanos – como os sistemas metrológicos – são dinâmicos, variáveis e mutáveis, ora contínua e lentamente, ora por impulsos, ou saltos.
Sobretudo no passado, muitos países legislavam sobre unidades, padrões e responsabilidades metrológicas, mas, frequentemente, por deficiente e incipiente organização, incompletude e inconsistência sistémica, e por falta de meios administrativos, de meios técnicos e de controlo (humanos, metodológicos e tecnológicos), não havia mudanças reais, evolução e progressos bastantes na comunidade fazendo com que as leis (sobre Metrologia, entre outras) permanecessem “letra‑morta”.
Nesses tempos, não era fácil dimensionar os organismos de controlo e supervisão, por impreparação, pela baixa prioridade da temática relativamente a outros problemas existentes, e pela oposição dos interessados, através da incúria, distorção e sabotagem de leis, regras e procedimentos (metrológicos) e, evidentemente, das capturas corporativas do sistema metrológico nacional pelos interessados.
Hoje, na maioria dos países, as leis – incluindo as do âmbito da Metrologia – são de cumprimento obrigatório, incontornável e universal, para além da perceção generalizada de que, na sua maioria, são justas, necessárias e tendem a melhorar as relações entre pessoas, empresas e organismos públicos.
Um detalhe não despiciendo é o da existência de órgãos (nacionais e internacionais) capazes de fazerem cumprir as disposições normativas.
Todavia, as alterações metrológicas não são simples, nem rápidas, nem isentas de custos, embora a evolução e a tendência tenham sido sempre no sentido da simplificação, transparência, menor risco e maior segurança do freguês, do destinatário, geralmente o comprador, já que as necessidades científicas, técnicas e legais parecem mais autónomas.
O litro (L) – uma unidade de capacidade –, definido originalmente como o volume de um quilograma de água a (cerca de) quatro graus Celsius (4 °C), desde há algumas dezenas de anos, passou a ser equivalente ao decímetro cúbico (dm3), uma unidade SI de volume. Com esta equivalência, o litro sofreu uma contração de intensidade, ou tamanho! Por que não banir o termo “litro” *? (O “litro” é uma tradição!)
Em muitas embalagens de líquidos, a capacidade é expressa, umas vezes em unidades de capacidade (por exemplo, litro e seus submúltiplos), outras em unidades de volume, por exemplo, centímetros cúbicos, ou milímetros cúbicos, e não em centilitros, ou mililitros**.
* Apesar da substituição – há algumas dezenas de anos! – da designação “grau centígrado” pela designação “grau Celsius”, ela continua a ser usada.
Coisa idêntica ocorre com o “kelvin” (com k minúsculo), símbolo, K (K maiúsculo), que, frequentemente, é designado por “grau Kelvin”.
** Recentemente, algumas entidades revelaram que as faturas da água passariam a indicar o consumo diário em litros (L) para que os consumidores sintam e percebam os valores faturados e, eventualmente, os consumos excessivos. Todavia, os preçários e os consumos mensais são feitos na base do metro cúbico SI (m3), uma unidade mil vezes maior do que o litro.
2024-10-10