DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS
DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS
Isto é Metrologia?
(Repetição, ligeiramente alterada, da crónica de 2015-12-24)
Quando fazemos várias medições, os resultados, em geral, não são coincidentes. Sobretudo, com diferentes instrumentos, métodos e metrologistas, não haverá sempre um só valor e um só número para as várias medidas da mesma mensuranda (mensurando, em brasileiro).
Seria desejável que assim fosse, que houvesse um só valor, contudo, as medições apresentam sempre incerteza, variações e, frequentemente, erros.
Quando medimos, por exemplo, o diâmetro de um cilindro, poderemos encontrar diferentes valores das medidas porque, por exemplo, o que nos parece um cilindro poderá ser um barril, um tronco de cone, ou outra forma que, à vista, passa por cilindro.
As medidas variam e através (do cálculo) da sua repetibilidade e (do cálculo) da sua reprodutibilidade podemos tirar conclusões sobre o grau de confiabilidade das mesmas medidas.
Correto seria apresentar os resultados das medições por um intervalo de valores, o intervalo onde admitimos que a putativa medida verdadeira se encontraria. Todavia, isto seria bizarro se fosse prática corrente do supermercado, apesar de, por vezes, lá encontrarmos embalagens com a indicação “±500 g”, por exemplo.
Nada disto tem a ver com o que com frequência ouvimos sobre “dois pesos e duas medidas”. Esta expressão – dois pesos e duas medidas – exprime desapontamento, crítica e denúncia por algum processo que, afinal, não tem relação com medições.
A expressão refere-se, comummente, à utilização de critérios discordantes, eventualmente opostos, inconsistentes, variáveis, na apreciação, avaliação, ou decisão acerca de problemas, disputas e situações em que não há medições nem medidas, e nada tem a ver com a Metrologia.
A expressão aplica-se, idiomaticamente, à dualidade de critérios, na política, na gestão e em qualquer área onde haja lugar a decisões. Decisões inconsistentes.
Contudo, esta expressão tem uma origem bastante prosaica, metrológica, ligada à fraude e ao dolo, no comércio, quando os instrumentos não estavam tão disseminados, vulgarizados e banalizados como hoje, e quando poucas “coisas” eram medidas. Na expressão “dois pesos e duas medidas”, o peso era/é um artefacto metrológico (massa‑padrão), e a medida era/é, igualmente, um artefacto de capacidade, de volume (capacidade‑padrão).
Houve tempos em que alguns comerciantes tinham instrumentos com que pesavam ou mediam o que compravam, e outros instrumentos – ou os mesmos, afinados de modo diferente – para medir o que vendiam.
Os instrumentos que alguns comerciantes usavam como compradores mediam por defeito, isto é, mediam menos do que o valor real; os instrumentos que os mesmos comerciantes usavam como vendedores, mediam por excesso, isto é, mediam mais do que o valor real. Seria um modo irregular de estar no comércio, já que tais comerciantes pagavam e recebiam de acordo com as medições que os mesmos faziam.
Hoje, as fraudes com medições serão mais sofisticadas e menos comuns.
Hoje, os instrumentos usados no comércio legal são calibrados (aferidos), verificados e eventualmente certificados por uma entidade independente dos vendedores e dos compradores.
“Dois pesos e duas medidas” não é expressão da área da Metrologia, embora a reprodutibilidade de algumas mensurandas e a complexidade dos métodos de medir e as especificidades dos metrologistas conduzam, por vezes, a resultados e medidas ligeiramente discordantes.
(Publicada pela primeira vez em 2015-12-24) 2023-07-06