COMPLEXIDADE E MEDIÇÃO
COMPLEXIDADE E MEDIÇÃO
Subdividir e medir
Às vezes, declaramos – nem todos com o mesmo grau de conhecimento, consciência e perceção – que algo é complexo quando não o compreendemos, embora tenhamos intuição e crença da sua realidade. Contudo, frequentemente, nem sequer sabemos do que trata aquilo de que falamos* – ou de que ouvimos falar!
Um motor não é uma entidade complexa, embora, frequentemente, comporte muitas partes com diferentes funções bem determinadas e, no todo – como conjunto, holisticamente – tenha um comportamento e desempenho que não são compartilhados pelas partes constitutivas: por exemplo, o motor tem potência, mas nenhuma peça (do motor) tem potência.
Mais complicado e incompreensível para muitas pessoas parece ser, por exemplo, o comportamento de muitos sistemas informáticos, eletrónicos, mecânicos, entre outros sistemas, planeados, executados e geridos por nós, os humanos.
Complexos são, por exemplo, os sistemas biológicos (as suas partes, ligações e extensões), e outros sistemas (individualizados por nós), como, por exemplo, o Clima, a Economia (Sistema Económico) e o Cosmo/Cosmos.
Connosco – os humanos – e à nossa volta, a complexidade é a norma, e a simplicidade – complexidade simplificada (dividir para estudar**) e ficcionada por cientistas – é a exceção, pese embora ser muito comum, em ciência e artes narrativas, a ficção, o simplismo e o reducionismo.
A “Qualidade”, a designação de uma realidade (?!) criada pelos humanos e que abrange muitos conceitos, parece ser complexa – mais pela ambiguidade conce(p)tual –, embora possamos fazer dela o que quisermos, incluindo uma designação de um conjunto determinado de grandezas conhecidas, ou só presumidas, e que aparentamos compreender, quantificar e controlar.
Não há uma lista exaustiva do que (a cada momento) se pode medir, mas, de entre as declaradas medidas, não têm todas a mesma legitimidade (reprodutibilidade).
E a saúde – outro fenómeno complexo – será uma questão de tudo ou nada, 1 ou 0, sim ou não, ou terá vertentes gradativas e, mais ainda, mensuráveis?
A luz ainda é um fenómeno complexo, por via das limitações dos nossos sentidos, embora com a confiança, a fé e a capacidade de previsão meçamos, sem polémica, constrangimento, e com simplicidade, algumas das suas grandezas. (De Maxwell a Einstein, a luz é uma inspiração e uma incógnita.)
Inventámos uma grandeza – a velocidade – extremamente útil. Nós, animados de velocidade (dentro do comboio, ou do avião), não a sentimos. Não sentimos a velocidade de rotação da Terra (apesar de, à superfície, por exemplo, no equador, ser supersónica!), nem a da sua translação e, muito menos, a da sua precessão. Mas sentimos a variação de velocidade, isto é, a (des)aceleração. Mas não sentiríamos a variação de velocidade se não tivéssemos massa.
Não inventámos só a velocidade, mas uma parafernália de grandezas – na verdade, todas as grandezas –, físicas e outras, com as quais descrevemos e controlamos relações, fenómenos, mundos!
Inventamos, e se a coisa inventada é útil, mantemo-la e desenvolvemo-la e medimo‑la: é o nosso método de conhecer, de fazer ciência, de controlar e atuar sobre a Natureza.
* Criar e dispor de uma palavra para nomear o que não percebemos já parece ser um grande começo, princípio e avanço! (“No princípio era o verbo”?!)
** Um método já generalizado, universalizado e banalizado desde que (René) Descartes [1596–1650] o propôs, descreveu e formalizou.
2021-09-23