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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

METROLOGIA E CULTURA LITERÁRIA

METROLOGIA E CULTURA LITERÁRIA

Sem medidas só há “literatura”

 

Apesar do muito que se mede, as expressões de intensidade mais correntes e comuns são expressões literárias.

Adjetivos e advérbios são as expressões mais correntes para referir intensidade.

(Todavia, sem medidas só há “literatura” e artes afins.)

Há expressões metrológicas e expressões literárias de intensidade e, pelo meio, muitas expressões correntes e comuns, ricas em adjetivos* e advérbios usados, por exemplo, por profissionais das “Ciências Humanas”, entre muitas outras “ciências” narrativas, análises, artes e comentários.

Sem medidas (ou, no mínimo, sem quantificações), em geral, só há “literatura”, opinião e retórica, ficção, fantasia e adivinhação, especialmente no “senso comum” **.

A quantidade corrente de expressões literárias (mas, não só!) com métricas adverbiais ou adjetivais submerge a quantidade das expressões metrológicas!

Tem mais significado dizer que a “temperatura era atroz” do que dizer “50 °C à sombra”.

Contrariamente, parece difícil haver um relatório razoável sem medidas. Mas, há muitos relatórios sem medidas e sem contagens.

Com medidas, com resultados de medições, o transcendente (incomensurável) está‑nos vedado; com a literatura, sobretudo alguma literatura, e com o comentário e opinião, ainda que profissionais, o transcendente não nos está proibido.

Com o transcendente não poderá fazer‑se “ciência exata” (excetuando o caso particular dos infinitos matemáticos); mas pode fazer-se “ciência oculta” e outras “ciências”.

Com medidas e contagens, em geral, é mais difícil manipular ouvintes e leitores, embora com ambas (medidas e contagens) se possa enganar alguns. (Também se mente com números, e, aparentemente, melhor do que sem eles.)

“Muito grande”, “muito cedo”, “muito pesado”, “muito quente” são expressões que nos deixam sem informação, mas, aparentemente bem informados! Muito, ou pouco, relativamente a quê? Qual é a referência?: a sensibilidade do relator?!, a sensibilidade (presumida) do leitor?!

Para muitos portugueses, Pitões das Júnias é longe; para os astrónomos, Marte é já ali!

“Um velho caminhava a passos curtos e lentamente estrada tosca fora” é uma expressão literariamente mais interessante do que “um homem de oitenta e um anos deslocava-se a pé, a passos de não mais do que quarenta centímetros e aproximadamente a um quilómetro por hora pela estrada de paralelepípedos de cerca de quinze centímetros por quinze centímetros, irregulares e mal assentes”.

“Pequenino, difícil de observar” – disse o investigador (científico) – é a expressão de uma sensação, de uma perceção.

Com frequência, “religiosamente” significa pontualmente; “cirurgicamente” significaria com exatidão (precisão).

Quando a informação não é exata, abre-se um largo campo à ambiguidade, à ficção e à irresponsabilidade ou à manipulação: aumenta o campo e a probabilidade dos conflitos e da manipulação..

 

* Contudo, em português, não há gradações só nos adjetivos; os substantivos, ou nomes, também poderão veicular métricas: carrito, carro e carrão é um exemplo.

** Aparentemente, e contrariamente às crenças comuns, há mais erros, enganos e falhas nos hospitais do que, por exemplo, nas empresas de manufatura mecânica. (Um ser humano é mais complexo do que um carro. A IA e a tecnicização mais extensiva e mais intensiva da medicina e das artes clínicas poderão melhorar aquele handicap.)

 

2025-12-25

NÃO MEDIMOS QUADRADOS

NÃO MEDIMOS QUADRADOS

Só medimos quadriláteros

 

No conceito de quadrado cabem todos os quadrados do mundo, do passado, do presente e do futuro; aliás, nunca saberemos se já tivemos encontros imediatos com “o quadrado perfeito”. Todos sabemos o que são os quadrados, mas nunca os reconheceremos*!

Quando pensamos desenhar quadrados, (só) construímos quadriláteros.

Os quadrados perfeitos não são deste mundo: são uma ficção, um conceito, uma miragem, uma enteléquia (à Platão).

Medindo, e considerando (pelo menos) as incertezas de medição, como decidir que um quadrilátero é um quadrado e não um quadrângulo qualquer **?

Um quadrângulo é um quadrado quando assim o desejamos e declaramos, ainda que os lados sejam visivelmente desiguais e tortos***.

Quantas vezes, na aula, o professor diz – Seja o quadrado ABCD – e desenha, à vista e rapidamente, uma coisa que toda a gente percebe que não é um quadrado, mas que o ele deseja que seja um quadrado perfeito (em oposição a um quadrângulo qualquer): isto é, os lados rigorosamente iguais e ângulos rigorosamente iguais entre si. Um cínico, sem medir, poderia, com rigor, dizer de imediato – Isso não é um quadrado.

Um quadrado definido e descrito – mas não desenhado – pela dimensão do seu lado, por exemplo, 12,50 cm, é sempre um quadrado; contudo, definido por linhas traçadas, por exemplo, com uma régua e um esquadro, nunca o será, nunca será um quadrado perfeito.

(Parece existir a crença de que, se quiséssemos e nos esforçássemos muito, poderíamos conseguir o quadrado perfeito. Entretanto, e de acordo com Platão, o quadrado perfeito estaria inacessível, no Olimpo, isto é, em nenhures.)

 

* Todavia, um quadrado em movimento será visto (de fora do referencial em movimento) como retângulo: com o lado orientado na direção do movimento a encolher, e o lado na direção perpendicular ao primeiro, congelado, a manter o mesmo comprimento.

** Um dispositivo ou sistema metrológico nunca nos permitiria identificar um quadrado perfeito; já o pensamento parece dotado e inclinado para as coisas perfeitas, simples (e simplistas), simplificadas e até simplórias. (Também se pode perguntar: Qual o respetivo interesse, ou utilidade de termos, por exemplo, um quadrado perfeito?)

(Quem, por exemplo, compra um quadrado de terreno para construir uma casa, fica satisfeito quando, medindo, entre outros instrumentos, com fita métrica, se certifica e satisfaz com as indicações da mesma fita. Contudo, dois medidores, ou metrólogos, com diferentes fitas e diferentes tensões nas mesmas, poderão constatar pequenas variações nos resultados. [Não compliquemos com teodolitos e topógrafos!])

*** Na sala de aula, o professor diz – Eis um quadrado! – e desenha à mão, e à vista, um quase‑quadrângulo que toda a gente percebe ser um quadrado imperfeito, mas aceita sem contestação.

Todavia, poderá ter interesse saber quanto é que um quadrado real se afasta do quadrado perfeito desejado, procurado.

 

2025-12-18

MEDIDAS LIMPAS

MEDIDAS LIMPAS

Vasilhas sujas

 

A palavra “medida”, mesmo em contexto metrológico, nem sempre significa “resultado de medição”. Entre outros exemplos, quando se fala de “pesos e medidas” (uma expressão atual, mas muito antiga), o termo “medida” referir‑se‑ia, por exemplo, a uma vasilha padrão (pretensamente calibrada) que serviria de instrumento de medição. Ou, entre outros conceitos e “significados”, poderia referir‑se a um comprimento padrão, por exemplo, uma barra ou régua graduadas. (Ainda hoje, nos mercados públicos, com frequência, os vendedores medem, por exemplo, o feijão seco “ao litro”, e para isso usam uma vasilha ou recipiente (calibrado), uma “medida” chamada “litro”. Às vezes, a mesma vasilha, já deformada, é usada por mais do que um vendedor: – Oh Micas, passa‑me aí o “litro”!

Nas pesagens nas “balanças de Roberval”, as “medidas”, isto é, os “pesos”, eram/são as massas‑padrão, ou “massas marcadas”, ora em ferro fundido, ora em latão, estas com pega aparafusável que fechava um espaço oco onde eram colocados grãos de chumbo que serviam para o ajuste, ou ajustagens simultâneas com a calibração (antigamente dizia‑se aferição), quando necessárias.

Quando se mede, por exemplo, algum tipo de óleo, como o azeite, com o recipiente, instrumento ou vasilha “litro”, nunca se consegue vazar o óleo todo: algum fica aderente à vasilha e não é levado pelo cliente*, e voltar a medir com o mesmo instrumento (sujo) equivale a usar uma “medida” reduzida, de menor círculo interior**.

Um dos problemas com o peso-padrão (padrão primário) – quando a definição de quilograma (agora, kilograma) se baseava neste artefacto – é/era o pó que se depositaria sobre o mesmo (padrão), o cilindro de platina iridiada – apesar das campânulas e proteções para o mitigar. (A nova definição do quilograma, aliás, kilograma, kg, é independente de artefactos e das suas circunstâncias.)

Mais recentemente, testemunhamos discrepâncias com medições e medidas elétricas, aparentemente mais elusivas ou voláteis do que as tradicionais medidas mecânicas, seja pela meta‑estabilidade, histerese e outros fatores de volatilidade das grandezas.

 

* De modo idêntico, hoje, as botijas de gás são devolvidas ao fornecedor das mesmas com restos apreciáveis de gás.

Na peixaria, o valor do peso que consta do autocolante aposto no saco do peixe, em geral, não coincide com o peso de peixe que o mesmo saco contém: o peixe é pesado antes de o limparem (por exemplo, das vísceras) e arranjarem: quando no‑lo entregam, o peso real é bastante inferior ao que consta da etiqueta que acompanha o saco.

(O vendedor argumentará que o cliente é livre de levar o peixe, tal como foi pesado, para casa e aí proceder à limpeza. A limpeza e preparação do peixe seria assim um serviço gratuito prestado pelo supermercado ao cliente.)

** A “medida”, ou “instrumento de medida”, o “litro”, contem 1 L, mas quando se faz o vazamento para o cliente, ele não leva todo o conteúdo, parte fica aderente ao instrumento, ou medida!

 

2025-12-11

METROLOGIAS LEGAL E CIENTÍFICA

METROLOGIAS LEGAL E CIENTÍFICA

Reverência científica e obediência civil

 

Em algumas sociedades (e culturas) o termo “científico”, para o cidadão comum, parece merecer reverência idêntica à das grandes marcas do mercado, aos detentores de poder, e a outras “vacas sagradas”. (Pese embora a aparente e crescente descrença do cidadão comum na Ciência e respetivo prestígio.)

Um cientista* – o que será, legalmente, oficialmente, socialmente, um cientista? – não pode ser demandado e punido (judicialmente) por más medições em laboratório; mas um comerciante pode ser demandado e condenado por más medições na loja.

O que é consagradamente científico é geral, universal, inquestionável ** por qualquer polemista comum. O que é legal é local, obrigatório, consequente, mas questionável por todos e qualquer um. Neste sentido, o que é científico é improcedente e inconsequente nas perspetivas comunitária e legal. Os cientistas criam/descobrem(?) leis (científicas), embora só alguns o consigam. De outro modo, os comerciantes seguem regras, prescrições, normas (e leis jurídicas).

(Com frequência, poderá haver um problema com a utilização eventualmente abusiva, deslocada e inapropriada do termo “ciência” e de adjetivos e advérbios derivados desta palavra. Todavia, até nas “ciências ocultas” há cientistas.)

A “Metrologia Científica”, em geral, serve de base, de guia e de suporte à “Metrologia Legal”, mas não a condiciona determinantemente. O lado normativo, obrigatório, impositivo da Metrologia está na “Metrologia Legal”, não na Metrologia Científica.

Cientificamente, é frequente, banal e saudável (e quase necessário) haver desacordos – sem nada a ver com a chamada “ficção científica”, uma designação imprópria e contraditória nos próprios termos –; legalmente, os desacordos (por exemplo, de alguns cidadãos) são geralmente irrelevantes; em geral, não têm efeitos sobre eventuais alterações às leis, normas e regulamentos relativos às prescrições soberanas.

Legalmente, algumas vezes, as autoridades poderão cometer erros, irregularidades e negligências que poderão vigorar por muito tempo. Cientificamente, estas eventualidades são inaceitáveis, intoleráveis e inadmissíveis e as (in)consequências não se arrastam no tempo por vontade de alguma entidade poderosa.

 

* O termo “cientista”, usado para nomear os que, entre outras áreas, estudavam os fenómenos naturais, parece ter surgido no fim do século XVIII.

Em muitos países, “cientista” aparenta ser uma carreira na função pública. Ser cientista é para todos, mas não é para qualquer um. Em muitos casos está-se cientista por alguns períodos, em outros casos é‑se cientista. (Aparentemente, ser cientista é uma atitude, com ou sem sucesso social, com ou sem sucesso profissional.)

Ao contrário, por exemplo, do médico, do advogado e do engenheiro, não há carteira profissional de cientista.

Hoje, aparentemente, quem quer que seja se pode autointitular “cientista” sem que possa ser acusado de usurpação de funções.

** Os erros, dolos e enganos dos cientistas não são ciência, são descuidos, irregularidades e falhas de seres humanos no exercício das suas atividades. A Ciência é uma (re)construção contínua, mais ou menos lenta, que se funda na concordância, controlo e escrutínio dos seus “praticantes”, de interpares. Todavia, a Ciência está em constante mudança, sempre a tentar elaborar e construir verdades  pelo menos a “boa ciência”.

 

2025-12-04

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