“Medir” não é fácil, nem tradicional, nem banal em muitas áreas, mesmo áreas ditas científicas, como, por exemplo, a Psicologia, a Comunicação* e a Sociologia, embora nestas áreas haja esforços de elaboração de métricas que proporcionem consistência às doutrinas respetivas, pelo menos consistência interna.
Muitas medições são feitas em processos e áreas científicas com vertente experimental. Com as Ciências Humanas é difícil, ou impossível, fazer experiências, como abusivamente ocorre com, por exemplo, aquilo que se designa por “engenharia social”. O que seria lançar uma epidemia para observar e medir o que iria acontecer às pessoas, enquanto indivíduos e enquanto comunidades? (Em muitas sociedades – e não há democracia sem alguma distopia – ocorrem práticas distópicas, ainda que, por vezes, só com pequenos grupos.)
Mede-se e conta‑se muito, ultimamente, no futebol**; mede-se e conta‑se pouco na política; e, praticamente, não se mede na religião***.
Todavia, em todas estas áreas há, frequentemente, polémicas, animosidades e disputas, até físicas, isto é, disputas corporais.
E, falando de disputas e confrontos, parecem ser tanto mais intensas e sérias quanto menos medidas há. As disputas e confrontos religiosos, por um lado, e as disputas e confrontos políticos, por outro, têm até sido os mais sangrentos, trágicos e frequentes.
* Todavia, data já de há algumas dezenas de anos uma medida (quantificada) da informação proposta com sucesso por Shannon [1916 – 2001], engenheiro americano, em A Mathematical Theory of Communication.
A medida, expressa numa das suas fórmulas [C = W log2(1 + P/N), onde C é a capacidade do canal, W é a largura da banda do canal, P é a potência do canal de informação e N é a potência do ruído], é de uso generalizado, fundacional e universal.
Todavia, esta medição da informação – e o conceito –, criada pelo mesmo Shannon, é estritamente técnica – usada sobretudo por engenheiros – e não tem nada a ver com opiniões – muitas vezes mirabolantes – de comentadores, analistas, proto e pseudocientistas da comunicação, doutrinação, publicidade e propaganda carreadas pelos média (ou media).
(Entre outras ciências da comunicação, existe a “Cabala: ciência oculta que pretende estabelecer comunicação com os espíritos.”)
** Apesar de muitas expressões futebolísticas com a aparência de grandezas físicas, que nada têm a ver com medidas, com medições, ou com quantidades. Eis algumas expressões interessantes: “a bola morreu nas mãos do guarda‑redes (goleiro, em brasileiro)”; um “caudal ofensivo”; a “intensidade de contacto”, entre muitas outras expressões qualitativas, algumas com sonoridades quantitativas. Todavia, o “fora de jogo”, ou “offside”, já é medido, aparentemente, “ao centímetro”.
*** Pedreiros e carpinteiros medem muito; médicos medem pouco (embora, frequentemente, requisitem/prescrevam muitas medições); padres e catequistas não medem.
(Alguns técnicos de saúde – quais metrólogos, observadores e técnicos vários – parecem medir mais do que os médicos.)
A massa é uma característica – tirando os efeitos relativistas –, um invariante de um corpo; a temperatura desse mesmo corpo é um valor transitório dessa grandeza*, isto é, um valor circunstancial de uma propriedade desse mesmo corpo. (A temperatura de um corpo varia, muda, sobretudo com a temperatura do meio ambiente onde o corpo estiver mergulhado.)
Frequentemente, derivamos – matematicamente – em ordem ao tempo, à temperatura…, mas não é corrente, por exemplo, a derivação em ordem à massa.
A altura de cada um de nós, adultos, seria uma característica – por isso figura no cartão de cidadão, apesar de variar com o tempo! – que encontramos em todas as pessoas; mas, por exemplo, o peso e a alegria (?), só em algumas seria uma característica (eventualmente uma característica anormal, uma anomalia).
O tempo, estando tudo parado – incluindo os relógios –, não existiria (ainda que Newton dissesse o contrário: que sim, que teria existência per se– seria um absoluto. (Sem o tempo, não haveria observadores… do tempo, nem vida.)
A pressão de um gás – uma grandeza banal – emerge dos múltiplos choques sobrevindos do movimento caótico de um conjunto de moléculas, ou outras partículas mais ou menos primordiais, sobre uma superfície: é uma grandeza emergente.
Em princípio, uma molécula não tem temperatura; as moléculas, em conjunto, criam a temperatura. A temperatura é uma propriedade resultante da soma das ações das moléculas em conjunto, do coletivo molecular.
Sabemos todos que a temperatura é uma grandeza emergente**: é uma grandeza dependente do movimento (caótico), das oscilações e choques dos átomos e das moléculas no interior de cada corpo.
Tempo e temperatura, entre outras grandezas emergentes, são mensuráveis (decidimos nós!).
O vento e as suas propriedades emergem do movimento coletivo das moléculas do ar, embora, sem vento, cada molécula exiba movimento autónomo caótico; a velocidade do vento emerge do movimento dirigido, coletivo, direcionado.
Muitas grandezas são circunstancialmente emergentes, artificiais, potencialmente transitórias na narrativa científica atual.
* As grandezas físicas e outras que constam nas nossas “narrativas científicas” – como produtos do intelecto humano, algumas delas têm vida longa, outras têm vida curta –, radicam na natureza da sensibilidade humana, nos sentidos dos humanos. A eventual ciência feita, por exemplo, pelas abelhas, seria diferente, teria diferentes grandezas daquelas que intuímos e instituímos, daquelas que nos convêm.
Não há tempómetros – há relógios –, nem há massómetros – há balanças (que avaliam forças, embora feitas equivaler a massas, nas escalas, ou visores).
(Tempo e massa são, presentemente, grandezas – fenómenos? – muito debatidas.)
** Podemos armazenar água, carvão, energia…, mas não podemos armazenar felicidade, temperatura… Felicidade é um fenómeno emergente – não há felicidade sem pessoas – nem temperatura sem partículas, sem radiação (fotões) ou corpos em movimento.
Contudo, apesar de temperatura (grandeza emergente) e da felicidade (grandeza incomensurável) serem reais, são só grandezas relacionais.
“Medir é comparar uma grandeza com outra da mesma espécie tomada para unidade” *.
(Mas a unidade de medida poderá não ser universal, ou igual para todos: veja‑se, por exemplo, o “metro” e a “polegada”, unidades de comprimento; o grau Celsius e o grau Fahrenheit, unidades de temperatura; o joule e a caloria, unidades de energia.)
Medir comprimentos com régua é fazer medição (direta) por comparação direta** (compara-se comprimentos); medir a temperatura com termómetro de mercúrio é fazer medição (direta) por comparação indireta (compara-se comprimentos de colunas de mercúrio para concluir ou deduzir temperaturas).
Num e noutro casos (régua e termómetro), a medição é direta, instrumental; uma e outra medidas (comprimento e temperatura) são lidas nos instrumentos.
Mas quando calculamos, entre muitas outras grandezas, a área de um retângulo, depois de medir diretamente os seus lados (por exemplo, com régua), fazemos medição indireta. (Pese embora a existência de instrumentos para a medição direta da área do retângulo.)
Em geral, fazemos medições diretas por comparações indiretas.
Nas comparações indiretas (mas medições diretas), através dos instrumentos de medição, servimo-nos de princípios metrológicos, isto é, em geral, princípios (fenómenos) físicos. O instrumento de medição, ou o sistema metrológico, é o intermediário entre a grandeza medida (a mensuranda, ou mensurando, em brasileiro) e a indicação dada no visor, ou graduação. (A medida é como que um avatar da mensuranda).
Por exemplo, a intensidade de uma corrente elétrica torna‑se visível em alguns amperímetros (galvanómetros) depois de a mesma corrente atravessar e provocar alguns efeitos (detetados) em dispositivos elétricos básicos, elementares e essenciais de um circuito (elétrico) do instrumento.
* Uma definição é um enunciado (às vezes) adotado por convenção, e por essa via, tornado basilar no desenvolvimento e consistência de uma área do conhecimento. Contudo, geralmente, a definição é demasiado abrangente e inesperadamente aberta a situações não (previamente) vislumbradas. Por exemplo: alguém definiu “homem” como “bípede implume”, e logo outrem se apressou a depenar um galo e a reclamar que o mesmo cumpria aquela definição.
** O controlo metrológico, ou controlo de qualidade metrológica, muito comum na produção mecânica (incluindo a metalomecânica), pode ser feito por: 1 – medição; 2 – comparação; 3 – verificação. Todavia, neste domínio (do controlo metrológico), o termo “comparação” (controlo feito com “comparadores”, em vez de instrumentos) tem significado não coincidente com o do termo usado no texto principal da crónica.
E neste domínio (do controlo metrológico), correntemente, a “verificação” é feita com “calibres”.
Em síntese: 1 – medição faz‑se com instrumento, cujo resultado é uma medida; 2 – comparação faz‑se com comparador – um instrumento –, cujo resultado é a diferença (numérica) das medidas de uma grandeza em diferentes corpos idênticos; 3 – verificação faz‑se com calibre – um instrumento –, cujo resultado, sem informação numérica direta e imediata, é a concordância da dimensão e aceitação da grandeza como consistente com a especificação (apesar de não haver informação numérica concomitante).
A Arte será antimedição?! Isto é, os artistas serão “avessos” às medições e às medidas? Apesar de se dizer que, por exemplo, Leonardo da Vinci media tudo o que pintava?!
A ligeireza, menosprezo e aparente ignorância com que os média (entre outras áreas onde o rigor deveria e poderia ser uma condição necessária, ou, vá lá!, uma mais-valia, ou um valor acrescentado) tratam medidas e unidades de medida, serão um indicador da qualidade – ou falta de qualidade – de uma área profissional?, ou um indício de uma atividade com profissionais antimedição?
Haverá coisas intrinsecamente incomensuráveis e imensuráveis?, apesar de Deus ter criado tudo por número, peso e medida?!
A Ciência, em geral, não dispensa as medições.
(Até já semediria, por exemplo, a distância entre as várias línguas – entre outras, português e castelhano – e diferentes normas da mesma língua, por exemplo, “inglês britânico” e “inglês americano”.)
Muitas Ciências Humanas têm dificuldade em medir: nas Ciências Humanas quase nunca se pode promover e levar a cabo experiências – a pedra‑de‑toque, a quinta essência das Ciências Exatas – com comunidades e pessoas (singulares) para provocar e medir as respetivas reações e consequências, porque isso poderia provocar incidentes, dramas, ou tragédias. (Como reagiria uma comunidade posta a “pão e água” só para se conhecer o resultado? Ou produzir guerras, ou guerrinhas, com fatores controlados, para estudar as respetivas consequências, incluindo medições planeadas?!)
As crenças também não costumam contemplar medições, exceto, eventualmente, naquelas partes em que a religião estatui, por exemplo, alguns procedimentos sociais, sanitários e alimentares.
É corrente o argumento de que Ciência e Religião não seriam antagónicas*. Todavia, a Religião (ou alguns religiosos), parece, por vezes, querer explicar (religiosamente) o que a Ciência já analisou, desmistificou e desmitificou.
As religiões lidam com incomensuráveis e com imensuráveis; uns e outros estranhos à Ciência em geral, e às ciências experimentais** em particular.
* Galileu Galilei [1564‑1642] teria considerado, provavelmente como e com outros, que “à ciência cabe dizer como vai o céu, e à religião como se vai ao (para o) céu.” (Todavia, a Ciência e a Técnica têm já várias modalidades e vias de irmos ao céu – Céu?! – e mais além.)
Hoje, é à Ciência (e à Tecnologia) que cabem as duas coisas: como vai o céu e como se lá vai.
** René Descartes [1596‑1650] presumia, como outros, que a realidade compreendia dois mundos (que ele classificou segundo o que pensava conhecer) em duas categorias, ou grupos: um material, de caráter palpável, geométrico e mecânico, outro, o do pensamento, “sem extensão” (incomensurável).
Hoje, a informação, a comunicação e também o “pensamento” (quando definido objetiva e inambiguamente) são temas e “materiais” científicos.