Na indústria, hoje, mede-se com frequência e sofisticadamente; no domínio do artesanato, estima‑se.
Na indústria, frequentemente, mede-se com tecnologia(s) metrológica(s) avançada(s); no fabrico artesanal não se mede, ou mede‑se pouco, e quando se mede, mede‑se com tecnologias metrológicas e instrumentos de medição geralmente primitivos.
“A olho”, “a olhómetro”, “a sentimento”, são expressões correntes, populares, em que não estão subentendidas medições, nem medidas.
Em geral, os profissionais medem, os amadores estimam (avaliam).
Na indústria mede-se, mede-se muito, mede-se muitas vezes.
Quando um negócio cresce, os processos geralmente são tecnicizados; quando o negócio permanece local, pequeno, em geral os processos continuam amadorísticos, tentativos, ambíguos, subjetivos.
Entretanto, amadorística e intuitivamente, esperamos que o “grande” seja maior do que o “médio” e este maior do que o “pequeno” (sem que tenhamos padrões formais e explícitos destas categorias), não só, por exemplo, para pizas (?), mas também para um número indeterminado de produtos. Podem ser casas, carros, ou terrenos, por exemplo. Contudo, o que é dito “pequeno”, “hoje”, poderá não ser idêntico ao pequeno de “ontem”, ou em outro lugar.
Não fossem as medições, a medicina ainda seria uma arte onde os sentidos (do médico) teriam o papel relevante.
Todavia, a Arquitetura, aparentemente do grupo das Belas Artes, está cheia de medidas e de medições. (Antigamente, e, ainda hoje, em vários países, um arquiteto domina algumas áreas técnicas e científicas da Engenharia.)
A arte (que se preza) tem horror à medição, e é, tradicionalmente e em geral, antimedição*. A arte poderá usar os adjetivos “pequeno”, “médio”, “grande”, mas, se mede, já não é arte, diz-se, ou presume‑se. No mundo artístico não se deve medir, nem repetir! (Se se mede, a arte passa a indústria, a “arte industrial”. “Repetir” é um processo estrita e tipicamente “industrial”.)
Quantos sabem que 20 cL. é o volume de uma (cerveja) mini?, uma cerveja pequena?! E que uma imperial é um copo de cerveja pequeno? Que medida de capacidade tem uma imperial? (33 cL, segundo algumas fontes).
Por vezes, os tamanhos de alguns peixes são expressos em classes (de tamanhos): por exemplo: de 1 kg a 2 kg**; de 2 kg a 3 kg; mais do que 3 kg.
O bacalhau pode ser “pequeno”, “médio”, “crescido”, “grande”, entre outras designações comerciais de tamanhos de bacalhau, e tanto mais caro por quilograma quanto maior for o respetivo tamanho.
O carapau também poderá ser classificado com critérios idênticos, o que dá muita liberdade ao vendedor.
Contudo, ao contrário do que acontece com o bacalhau, o carapau mais “pequeno” é frequentemente (sempre?) mais caro do que o “grande”.
* Todavia, diz‑se que, por exemplo, Leonardo da Vinci media tudo o que pintava.
** Sem esclarecer se um peixe de (exatamente) 2 kg está na primeira ou na segunda classe. E até pode suceder que um peixe de 1,995 kg esteja na caixa dos peixes com mais peso do que 2 kg (porque secou, desde a data da classificação, ou porque alguém os misturou).
Até na peixaria, durante alguns períodos, há sardinhas grandes, sardinhas médias e sardinhas pequenas, apesar de não serem explícitos (objetivos, claros e rigorosos) os critérios para tal divisão, classificação e preço. Contudo, por exemplo, com o camarão, com frequência, estão indicados os limites de calibre respetivos de cada “tamanho”/preço.
O nascer do Sol ocorreu às 7 h 59 (min) e o pôr do Sol às 17 h 15 (min): quanto tempo durou o “dia”?; qual foi a duração do “dia”? Isto é, qual foi a duração da parte solar (luminosa) do dia? (Por curiosidade: os especialistas distinguem o “nascer do Sol” da “primeira luz”, e distinguem o “pôr do Sol” da “última luz”)
Qual é a área de um círculo de 3” 7/8 de diâmetro? Isto é, qual é a área de um círculo de três polegadas e sete oitavos da polegada de diâmetro?
Qual é o perímetro de um quadrado de 2 ft 4” 3/16 de lado? Isto é, qual é o perímetro de um quadrado com dois pés, quatro polegadas e três dezasseis avos da polegada de lado?
Num triângulo isósceles o ângulo oposto à base mede 72º 35’: quanto mede cada um dos ângulos adjacentes à base? (Note que o símbolo de minuto de tempo é “min” e o símbolo de minuto de ângulo, ou arco é “ ’ ”.)
Num epitáfio de um túmulo de um romano lê‑se que nasceu em CLXXIII e que morreu em CCII. Quantos anos viveu omorto? Isto é, quantos anos viveu o romano ali inumado, ou ali sepultado?
O carro de um inglês faz 37 milhas com cada galão de gasolina; o do leitor gasta “seis e meio aos cem”, (6,5 L aos 100 km, isto é, 6,5 cL/km). Qual é o carro que mais consome numa viagem de London a Oxford (isto é, de Londres a Passagem do Boi a Vau)?: o seu, ou o do inglês?!
Saindo de Heathrow, em Londres, o leitor reparou que a temperatura exterior era 85 °F; chegado a (o aeroporto) “Humberto Delgado”, em Lisboa, leu num painel que a temperatura exterior era 29 °C. Em qual dos sítios era mais elevada a temperatura? (Ou, como perguntaria um repórter apressado: – Onde é que a temperatura era mais quente?)
Arquimedes terá morrido em Siracusa, aos setenta e cinco anos de idade, no ano (hoje designado por) “duzentos e doze antes de Cristo”: em que ano terá ele nascido?
Quem está com pressão arterial máxima de 20 cmHg, tem pressão maior ou menor do que a de um pneu a 1,8 bar?
Embora os peixes possam, dentro de certos limites, controlar a sua densidade aparente, quais serão os que têm maior densidade aparente: os do mar, ou os do rio?
Uma receita médica prescrevia, aparentemente de modo pleonástico (?):1 gota 3x/d e, alguns espaços à frente, 1 gota de 4 em 4 h. Começando com a primeira gota às 14 h, qual o horário das restantes gotas?
Um carro é acelerado de zero a cem, isto é, do(s) 0 km/h aos 100 km/h, em sete segundos (7 s); outro é acelerado do(s) zero aos sessenta (60 km/h) em quatro segundos. Qual é o que tem melhor aceleração?
Mede‑se por muitas razões, necessidades e propósitos.
Por vezes, medimos sem nos darmos conta de/do que medimos.
Fazemos compras e vendas, conduzimos automóveis e entramos em outras relações com conta, peso e medida, todos os dias*.
Se o merceeiro vende as batatas, por exemplo, a 0,90 €/kg, é necessário pesar as batatas que metemos no saco para sabermos quanto é que ele vai cobrar e quanto é que nós vamos desembolsar.
No supermercado, no centro de saúde e em casa – mesmo que seja “uma colher de sopa”, “duas chávenas de chá”, “uma mão‑cheia” –, não se pensa em medidas, ou medições, contudo elas são incontornáveis, indispensáveis e banais. Poder‑se‑á questionar, por exemplo, os métodos e os resultados, mas a necessidade, em geral, não.
A medição está, corrente e frequentemente ligada a custos, desembolsos, ou valores das despesas.
Todavia, fora do quotidiano comum, frequentemente, colocam‑se as questões: medir o quê, para quê, porquê, quando, como?
Ter febre – ter, em geral, temperatura corporal superior a trinta e sete graus Celsius, ou trinta e sete celsius (37 °C)**, poderá ser indício, ou sintoma – em gíria, jargão ou calão médico – de muitas e variadas doenças.
A temperatura de incubação de, entre outros, alguns répteis poderá determinar o sexo – geralmente uma característica, ou qualidade com um de dois valores – dos nascituros. Se, por exemplo, em projetos científicos ou comerciais, temos responsabilidade ou interesse nos resultados da incubação destes animais, o controlo (e a medição) da temperatura será decisivo.
Temperatura corporal (nos humanos) superior a trinta e sete graus Celsius (37 °C), ainda que medida corretamente, poderá não ser indício de doença; é necessário dar atenção ao excesso de temperatura acima dos 37 °C e ao sexo (não ao género), entre outras várias circunstâncias, para, de seguida, se deduzir, ou presumir conclusões e fazer o diagnóstico relativamente à interpretação a dar ao excesso (de temperatura).
(Em geral, sabemos quando temos febre, mas, frequentemente, não sabemos interpretá‑la.)
A febre, só por si, não permite (mesmo aos profissionais da saúde) tirar conclusões definitivas.
As medidas devem ser interpretadas por especialistas, não em medições, mas nos fenómenos e grandezas medidas.
Há conjuntos de medidas que, codificados, só podem ser entendidos por especialistas. Por exemplo, num concurso de beleza, “90‑60‑90” significaria 90 cm (de perímetro) de busto, 60 cm de cintura e 90 cm de quadril. (A beleza – oficial – teria limiares e limites metrológicos!)
* Por via da pandemia da Covid–19 (melhor do que “do Covid”), em muitos locais, era medida a temperatura corporal dos cidadãos.
A nossa bagagem de avião – a de cabine e a de porão – costuma ser pesada.
Quase tudo o que trazemos de um supermercado vem contado, pesado, ou medido.
** Legalmente, para certificação oficial, é necessário ter‑se habilitação formal para se medir (e atestar/certificar) a temperatura corporal de alguém! O mesmo é válido para outras grandezas (e outras habilitações profissionais).