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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

MEDIR POSIÇÃO E LOCALIZAÇÃO

MEDIR POSIÇÃO E LOCALIZAÇÃO

Expressões de localização

 

São correntes expressões como as que seguem: “Ao km 8 da A3”; “Supermercado X, a 5 min”; “Santiago de Compostela fica a cinco dias de distância”.

Na escola, aprendemos a construir sistemas de coordenadas num plano – em geral, ortonormais –, que permitem localizar um ponto qualquer, P, nesse mesmo plano, do seguinte modo:

1 – Escolhemos, arbitrária mas convenientemente, no plano, um ponto de referência, O (o “zero”, “a origem” comum das coordenadas);

2 – Traçamos uma linha horizontal (esquerda‑direita) a passar pelo “zero” – o “eixo” X;

3 – Traçamos uma linha perpendicular à primeira, também a passar pelo “zero” – o eixo Y;

4 – Paralelamente ao eixo X, medimos a distância do ponto P ao eixo Y, e o resultado é a coordenada “x” deste ponto;

5 – Paralelamente ao eixo Y medimos a distância do ponto P ao eixo X, e o resultado é a coordenada “y” deste ponto *.

x” e “y” são as coordenadas cartesianas do ponto P naquele referencial OXY, permitindo a localização de P em relação ao ponto de referência O.

Todavia, há muitas expressões de localização, às vezes, ambíguas.

Entre outras, as medidas e critérios correntes seguintes:

1 – latitude e longitude (coordenadas angulares sobre uma superfície esférica**);

2 – direção e distância (de um lugar a outro (lugar);

3 – localização de um telemóvel a partir das suas chamadas;

4 – triangulações;

5 – zénite (para a posição do Sol, num lugar da Terra);

6 – o Norte e o Sul; e mais pontos cardeais, colaterais e outros;

7 – km X da An; por exemplo, km 12 da A3 (12º quilómetro da autoestrada 3;

8 – raio, latitude, longitude (sobre uma esfera);

9 – azimute (em geral, distância angular em relação à linha norte‑sul).

Para a operacionalização de alguns dos critérios anteriores há referências e convenções universais, ou locais, por exemplo:

1 – meridiano de Greenwich (referência/convenção para a longitude);

2 – equador (referência para a latitude);

3 – hora legal, local;

4 – fronteiras (“a 6 km da fronteira”);

5 – linha da costa (“a 7 km do mar”);

6 – linha norte‑sul (direção da estrela Polar).

 

* Em vez das distâncias medidas paralelamente aos eixos X e Y, poderíamos medir a distância, “r”, do ponto P ao “zero”, e o ângulo, “α”, que esta linha (ao longo da qual se mede a distância “r”) faz com o eixo X. A “r” e a “α” chamamos coordenadas polares do ponto.

** Localização, hoje, significa, quase sempre, coordenadas GPS. GPS é expressão que anda na boca de todos, embora só alguns saibam descodificar a sigla (contudo, já é mais do que uma sigla, está transformada numa palavra, num acrónimo).

 

2025-06-26

TECNOLOGIA E MEDIÇÃO

TECNOLOGIA E MEDIÇÃO

Tecnologias inteligentes

 

Se a coisa é tecnológica, é quase certo que implicará, por exemplo, medição, contagem, ou reconhecimento de padrões. Se não é tecnológica, poderá ser, por exemplo, artística: muito, muito mais nobre, dirão os artistas, os que vivem da arte e os que não sendo estritamente artistas conseguem granjear sustento e, às vezes, fortuna, com arte e com a Arte.

As “tecnologias de medição” ocupam-se de medições. Umas são novas, algumas são clássicas, outras, nem uma coisa nem outra, isto é, não medem o que dizem que medem, ou que pensamos que medem, ou que não medem do modo que sugerem.

A multiplicação, sofisticação e inteligência das tecnologias* – tecnologias metrológicas incluídas – melhoram os resultados e reduzem a intervenção dos utentes.

Há mais tecnologias novas do que “novas tecnologias”.

Há tecnologias novas na Tecnologia Metrológica.

Antigamente, depois de ultrapassadas a clepsidra e a ampulheta, (media‑se) contava‑se o tempo – com resolução fina – contando as oscilações de um órgão em sistemas mecânicos, por exemplo, o pêndulo de um relógio de sala, ou o volante de um relógio de pulso; hoje, com as tecnologias (também) disponíveis para o cidadão comum, mede‑se o tempo contando pulsações em sistemas eletromecatrónicos.

(Antes, porém, o “relógio de sol”, cujo “funcionamento” depende do posicionamento e orientação do mesmo, permitia medir o tempo, qual instrumento analógico, de modo contínuo, durante parte do dia, mas com variações da primavera ao inverno.)

Há cada vez mais inteligência** – capacidade do sistema dispensar parcial, ou totalmente a participação do metrólogo – integrada nos sistemas metrológicos (entre outros sistemas) e menos necessidade de educação e formação (profundas) dos medidores e dos utentes. As tecnologias novas integradas na Tecnologia Metrológica tornam os sistemas mais amigáveis.

E há cada vez mais tecnologia (tout court, geral, indiferenciada) com dispositivos metrológicos nela integrados, desde os esquentadores às chaves de aperto dinamométricas.

É difícil nomear uma tecnologia não metrológica que não recorra a medições e a medidas, direta, ou indiretamente.

 

* Uma das primeiras – se não a primeira – das observações (pelos humanos) de um fenómeno periódico de extraordinária regularidade terá sido o do movimento (aparente) do Sol à volta da Terra, isto é, o movimento de rotação diário da Terra. A periodicidade do movimento (real) da Lua à volta da Terra, menos marcante, também terá sido notada desde cedo.

** Se a inteligência, por definição, for () a “capacidade de adaptação”, até as pedras, as árvores e as amibas são inteligentes: todas elas reagem e se adaptam – quando não morrem, embora morrer, no âmbito, ou plano da Natureza, seja uma adaptação – às ações a que são submetidas. Todavia, geralmente, quando se fala de inteligência, referimo-nos, ou tomamos como referência, implícita ou explicitamente, a inteligência humana, sem sabermos com rigor (inambiguamente) o que isso é. E quando se fala de sistemas físicos inteligentes, estão a ser referidos os sistemas que já fazem coisas que, até aí, só (alguns) humanos faziam.

 

2025-06-19

MEDIR SEM MEDIR

MEDIR SEM MEDIR

Grandezas incomuns

 

Há grandezas, clara, objetiva e consistentemente definidas, por exemplo, na Física, que raramente, ou nunca são medidas diretamente.

(As medições indiretas também são medições; e é indeterminado o número de grandezas medidas indiretamente [por cálculo]).

Muitos instrumentos poderão dar a ideia de que fazem medições diretas, contudo, nos visores, apresentam indicações de resultados obtidos por cálculo – interno – de várias grandezas sentidas – através dos sensores – em simultâneo.)

Por exemplo, as grandezas “ação”, “impulso” e “entropia” *, entre outras grandezas pouco comuns, são (fisicamente) bem definidas** e, em geral, só acedemos aos seus valores (quantitativos) indiretamente.

Embora algumas áreas (de superfícies) possam ser medidas diretamente – com planímetro –, correntemente elas são calculadas (medição indireta) a partir de grandezas específicas: por exemplo, a área de um retângulo é medida (calculada) a partir dos comprimentos dos seus lados; a área de um círculo é medida (calculada) a partir do comprimento do diâmetro, embora abundem instrumentos que afixam diretamente o valor de áreas circunscritas por polígonos regulares, a partir da tomada apropriada de leituras instrumentais. O mesmo se pode dizer, por exemplo, acerca do(s) volume(s), em particular, alguns volumes de corpos específicos conhecidos, circunscritos por superfícies regulares, entre outros: um barril, um cone, uma esfera.

Também são medidas grandezas (ou fenómenos) designadas por termos correntes (que exigem clarificação técnica, ou científica) como, entre outros, “choque”, “atrito”, “calor”.

 

* “Ação: É o produto da energia (por exemplo, de uma partícula) pelo tempo do trajeto (da mesma partícula); a unidade SI aplicável é o joulesegundo, Js.

  “Impulso: É o produto de uma força pelo tempo da sua atuação; por exemplo, a força com que, durante um intervalo de tempo (geralmente muito curto), se pontapeia uma bola; a unidade SI aplicável é o newtonsegundo, Ns.

O “impulso” é igual à variação do momentum, isto é, do momento linear (de um corpo): F∆t=m∙∆v. (Esta expressão reflete e reflete‑se na segunda lei de Newton: F=m∆v/∆tF=mdv/dt=m∙a, isto é, massa vezes aceleração.)

Pelo que foi dito, o impulso pode ser medido indiretamente pela variação da quantidade de movimento sofrida pelo corpo a que foi aplicado o impulso.

  “Entropia”: É caracterizada pela razão da variação da energia de um sistema pela sua temperatura; a unidade SI aplicável é o joule (com “j” minúsculo) por kelvin (com “k” minúsculo), simbolicamente, J/K (com “J” e “K” maiúsculos).

 “Solavanco”, isto é, a derivada da aceleração – esta, uma grandeza familiar, e um termo comum – em ordem ao tempo, é coisa de que pouco se ouve falar nos curricula pedagógicos correntes no ensino superior, contudo, não é só uma curiosidade física teórica e abstrata, antes pelo contrário; expressa‑se em metros por segundo ao cubo (m/s3).

** Embora muitos termos, na linguagem corrente e comum, sejam ambíguos – por exemplo, “força”, “energia” e “atrito” – eles têm contudo, cientificamente, definições objetivas, claras e inambíguas.

 

2025-06-12

MEDIDAS E JUSTIÇA

MEDIDAS E JUSTIÇA

Fiscais e controladores

 

Nem sempre o cometimento de um “crime” resulta de um ato particularmente rocambolesco, escandaloso, ou condenável: pode resultar de uma simples medição*.

Frequentemente, a polícia transporta, por exemplo, balões (alcoolímetros; bafômetros, em brasileiro) e balanças, em regime ambulatório, para fiscalização de automobilistas, camionistas e viaturas; para controlo de, entre outros, cargas e velocidades das viaturas e taxa de alcoolemia no sangue dos condutores.

As autoridades rodoviárias munem‑se com estes recursos metrológicos para cumprirem um plano, para cumprirem os objetivos para um período de trabalho, ou para o que der e vier**.

Aquelas autoridades, frequentemente, também transportam fitas métricas e “rodas de agrimensor”, ou (h)odómetros de roda, entre outros instrumentos, para a medição de distâncias e comprimentos.

Viaturas de carga que circulem nas vias rodoviárias, sujeitas a valores de cargas legais, são controladas na estrada; o mesmo para a alcoolemia dos condutores, e para os portadores de alguns tipos de estupefacientes em quantidades eventualmente superiores a limites estabelecidos na legislação, poderão constituir transgressões e implicar detenção, penalização, ou condenação em tribunal.

As autoridades policiais estão frequentemente munidas com dispositivos para testes, como kits para identificação da natureza de alguma substância estupefaciente, ou instrumentos de medição, como instrumentos de pesagem***. A quantidade, o peso e o valor – valores de máximos ou mínimos quantificados e quantificáveis – poderão ser fatores de transgressão, ou de crime.

Medir e pesar – pesar é medir – são, por isso, em alguns casos, processos críticos de que depende a ilibação, a transgressão, ou o crime.

Ser multado, ou ser incriminado e levado a juízo depende, às vezes, de medições, não do cometimento de um determinado ato de certa natureza.

Por isso, medir bem poderá ser determinante de se ser ilibado, ou acusado de/por crime.

 

* Em Portugal não é proibido conduzir com álcool no sangue: é crime conduzir com taxa de alcoolemia acima de determinado valor. E, para conhecer o valor da alcoolemia é necessário fazer medições: sem medição não há crime. (O transgressor passa a ser criminoso sem dar conta; basta beber sem controlo metrológico, conduzir e ser apanhado pela polícia.). Além disso os valores legais poderão ser alterados (legalmente) a qualquer momento.

** Por vezes, surgem relatórios oficiais, e, entre outros, um “ relatório da Associação Europeia de Automobilistas (AEA) refere que cinco sentenças judiciais deram razão a motoristas que tinham sido multados por excesso de velocidade – os radares que emitiram as multas não tiveram em conta as margens de erro.” (Os termos técnicos na notícia são da responsabilidade do jornalista.)

*** A quantidade de substância estupefaciente encontrada na posse de uma pessoa poderá ser determinante da gravidade (intensidade) da pena aplicada pelo tribunal, e, por isso, é relevante a qualidade da pesagem, nomeadamente a incerteza e a fidedignidade da medição, por exemplo.

 

2025-06-05

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