(Repetição, com pequenas alterações, da crónica de 2019-07-11)
Mediu?, está medido! Por que medir outra vez?
Medir mais do que uma vez pode parecer um despropósito e trazer confusão, embaraço e incerteza!
Aliás, “um homem com um relógio sabe que horas são; um homem com dois relógios, nunca tem a certeza.”
Contudo, nas medições, além de incerteza e erros, há enganos!
Todavia, os mitos estão por todo o lado, tempos e setores. E são muito, muito mais numerosos do que frequentemente se presume.
(Há quem paute as suas vidas por princípios que são mitos.)
Os mitos – urbanos e outros – são incontáveis. Também há mitos metrológicos.
Mitologia, mitómano, ou mitificar, têm todos a mesma raiz: mito.
Mitómano é o mentiroso, porém, literariamente, socialmente, e em politiquês correto dir-se-á efabulador, às vezes, “criativo”, mas nunca mentiroso.
Há até uma expressão corrente e recente – mito urbano –, que enfileira nesta tendência das expressões simbólicas, mas “não mentirosas”:já não há mentiras, mas símbolos!
(Aliás, mentir – conscientemente – parece ter pleno cabimento no “direito à liberdade de expressão”!)
Em algumas áreas do conhecimento e da sabedoria, classes sociais e grupos etários, há mais mitos do que em outros.
Os mitos são estórias completas, com princípio, meio, fim e…lógica.
Quando não há dados, informação, ou conhecimento, preenchemos as lacunas com mitos, ou até inventamos estórias completas. O homo transcendentalis (uma subespécie biologicamente indistinguível da do homo sapiens sapiens) tem horror ao vazio – físico, ou cognitivo.
Antigamente, era o mesmo homo sapiens sapiens que dizia que a natureza tinha horror ao vazio, até se provar que a natureza não tem intuições, sentimentos, ou emoções.
Quem não sabe, inventa. Inventar é um processo de fornecer pormenores a uma história onde não há dados bastantes, dados confiáveis, dados com cabeça, tronco e membros. Exemplo: as teorias da conspiração.
Os mitos não ocorrem espontânea e instantaneamente: nascem, crescem, espalham-se, adaptam‑se, até quase à perfeição, à irreversibilidade e à irrevogabilidade.
É um mito (popular) presumir que as medições dão sempre a mesma medida.
É um mito a crença infundada de que os símbolos metrológicos são abreviaturas ou acrónimos do nome da unidade (mts, para metros;Kgs., para quilos;gigas, para gigabytes).
Os instrumentos dos laboratórios são perfeitos: é um mito.
As balanças (que funcionam bem) dão todas o mesmo peso: é um mito.
As medições feitas pelos laboratórios são inquestionáveis: é um mito.
As medições feitas no hospital, no laboratório e no centro de saúde são exatas: é mito.
Nem todos os mitos são antigos. A ignorância e a necessidade de dispormos de estórias completas geram mitos novos, frescos, contemporâneos (aliás, todos os dias morrem sábios, e todos os dias nascem analfabetos).
Os diferentes conceitos associados a uma palavra, e a ignorância do cidadão comum, que está em maioria na sociedade, são o motor das sociedades democráticas e geram mitos com facilidade. O que muitos desconhecem, mas repetem e propagam, é mais rapidamente percebido como relevante do que o que dizem poucos, ainda que talvez mais bem informados.
Pelos cânones católicos, ir a Roma conferiria – ainda confere? – alguns pontos (indulgências, perdões e remissões) na conquista do Céu. (O autor não sabe, mas é provável que preceito idêntico exista em outras religiões, seitas e crenças. Os fãs/prosélitos de algumas ideologias – ou de todas? – não dispensam visitas a túmulos e múmias expostos dos fundadores, promotores ou heróis das mesmas ideologias.)
Todavia, para os crentes católicos que não pudessem ir a Roma, havia (ainda há?) opções (mais acessíveis, mais em conta e mais à mão) para as quais estavam estabelecidas equivalências (quantificadas) ao padrão‑Roma. Por exemplo, cinco (5) visitas a determinados lugares do roteiro religioso valeriam tanto como uma (1) visita a Roma*. Entre outras, n visitas – o autor não sabe quantas – a Santiago de Compostela valeriam tanto como uma ida a Roma (ao Vaticano**).
Os jejuns e abstinências obrigatórios – compulsivos – também poderiam ser evitados (contornados) podendo ser comprados (trocados por equivalências regulamentares) segundo uma tabela que já não está (?) disponível e parece ter feito parte dos temas das polémicas, convulsões e revoluções que conduziram à(s) reforma(s), cismas e contrarreformas no Cristianismo. (Coisa idêntica ter‑se‑á passado em outras crenças.)
Tudo o que sabemos do Céu e de outros lugares inacessíveis (sobretudo os virtuais) são narrativas de terrestres que se apresentam, ou são apresentados como mensageiros, uns por educação formal, outros apresentados, ou apresentando‑se como ungidos por entidades do Além.
Na opacidade destes meios, há castas detentoras dos segredos, mistérios e conhecimentos que não transmitem aos demais, mas negoceiam/negociam com estes as salvações e condenações, pecados e indulgências, favores e castigos, segundo tabelas mais ou menos circunstanciais de equivalências, entre outras métricas.)
No campo estritamente civil, para alguns (pequenos) crimes (transgressões, contraordenações?) menos graves, há tribunais que estabelecem opções à prisão: por exemplo, trabalho comunitário, ou multas. (As punições para os crimes incógnitos – os que não são oficialmente transmitidos às instâncias e instituições judiciais – ficariam à conta e responsabilidade de Deus, e assim não haveria privilegiados, ou criminosos sem castigo: os que escapam à justiça humana não conseguirão furtar‑se à justiça divina***.
* Jesus Cristo, aparentemente, nunca teria estado em Roma. E Maomé nunca teria ido (corporalmente, fisicamente) a Jerusalém. Estes e outros locais de referência parecem ser enigmas que os impérios tecem. (Os impérios são realidades e conceitos humanos. Além disso, Deus só tem um Reino, e, “Imperador” parece ser título que não lhe convém, ou não se coadunaria com a sua natureza.)
** O Estado da Cidade do Vaticano (Cidade do Vaticano, Vaticano) é uma criação recente (1929), embora o termo “vaticano” seja antigo e ligado ao nome de um deus etrusco.
*** É interessante o enunciado conhecido por “Aposta de Pascal” que o leitor pode encontrar à distância de uma tecla no seu dispositivo informático.
Não medimos nada no futuro, embora possamos prever (com rigor, em alguns casos) onde vai embater a bala disparada para um alvo; onde vai cair a pedra largada do alto da torre; quantos metros quadrados vai ter a casa que mandámos construir. (Uma bala disparada, uma pedra largada do alto são presente e não futuro, dirão alguns; e uma casa no futuro poderá não ser construída, dirão os mesmos, ou outros. Contudo, parte do futuro é feita… por nós: a ponte, a barragem e a autoestrada em construção no presente, moldam o futuro.
Sabemos (?) como vai terminar um processo planeado, calculado, segundo um modelo matemático, ou outro modelo previsional. Os planos (incluindo os que integram medidas, cotas, ou especificações) antecipam o futuro. Afinal, podemos moldar o futuro. E outros agentes, nomeadamente outros seres vivos, poderão, de modo idêntico, determinar o futuro, principalmente o futuro mais próximo. (Somos tentados a admitir que, por exemplo, uma ave que se põe a construir um ninho, deve ter umanoção do objetivo;chamem-lhe instinto! Um castor que acumula ramos e troncos, e uma coruja que persegue um rato deverão ter um objetivo em vista.)
Contamos que o Sol nasça amanhã; que as nossas dez galinhas poedeiras, amanhã, nos deem pelo menos nove ovos; e esperamos que o banco nos credite os ganhos e o valor da aplicação financeira daqui a exatamente um ano.
Também podemos ter a perceção de voltar ao passado, por vielas curtas e estreitas, e caóticas, por exemplo, vendo documentários e outros registos que tenham a pretensão de o repassar, de o recordar, ou de o ressuscitar ou reconstruir.
(“O futuro é certo e o passado incerto”, dizia alguém, num jogo de ambiguidades. Fala‑se em viagens ao passado* quando se visita locais, povoados e comunidades onde se acredita que não houve evolução, progresso, ou desenvolvimento.)
Medir um fóssil não é medir a entidade que lhe deu origem (um fóssil de trilobite não é uma trilobite), mas datá-lo (com “certeza” significativa), podendo parecer uma visita ao passado, não é senão uma medição do/no presente da entidade estudada. Em muitos casos de materiais orgânicos, podemos conhecer algo do seu passado, seja pelo 6C14 ** (“carbono 14”) que eles ainda retêm, seja por outra grandeza física de que pensamos conhecer a evolução, por extrapolação ao passado, ou extrapolação retroativa.
* Alguém dizia: “Deus não pode alterar o passado, mas um historiador pode”. E também se diz que a História não é ciência, mas um género literário.
** Uma técnica de datação muito conhecida e comummente referida é realizada através do “carbono catorze” (6C14), um elemento instável, produzido naturalmente no céu a partir do “nitrogénio comum” (7N14).
A par do “carbono doze” comum (6C12), estável, acumulamos também no nosso organismo, através da respiração, o 6C14, em equilíbrio dinâmico e proporções conhecidas de um e outro. Porém, o 6C14 é instável, e, após a morte, o defunto conserva o 6C12 e vai perdendo o primeiro (6C14) – lentamente, a uma taxa conhecida, a denominada “semivida” –, que se vai transformando no “nitrogénio comum” (7N14) original, também conhecido por “azoto”. A quantidade relativa (percentagem) entre o6C14 e o 6C12, variável com o tempo a partir do dia da morte, permite datar o momento desta.
Para além dos máximos e mínimos que os instrumentos ou sistemas metrológicos podem medir*, as grandezas (propriedades) naturais parecem ter limites… naturais**.
Na escala de uma régua não há números ou valores negativos; contudo, por exemplo, em alguns termómetros, quer com escala Celsius, quer outros de escala Fahrenheit, há números ou valores negativos.
Pela ciência vigente, não haveria temperatura abaixo de 0 K; e, por agora, não haveria velocidade superior à velocidade da luz no vazio (cerca de 3∙108 m/s, ou 3∙105 km/s, ou 300 000 km/s).
E também não haveria nada com mais do que 14∙109 anos (a putativa idade arredondada do Universo); nem nada mais longo do que a maior dimensão*** do Universo. (Todavia, podemos imaginar qualquer comprimento superior ao do raio do Universo, qualquer temperatura inferior a 0 K e qualquer velocidade superior à da luz.)
Embora nos tenham ensinado que um “infinitésimo” – um conceito e uma ferramenta matemáticos – é uma variável que podemos supor tão pequena quanto desejarmos, parece não haver sentido ou significado físico em dimensões inferiores às do comprimento de Planck, isto é, 1,616 199(97)∙10−35 m ****. (Há quem diga que a Física não funciona abaixo deste valor. Por exemplo, este seria o menor comprimento de onda possível para alguma radiação do espetro eletromagnético.)
O menor intervalo de tempo “com sentido, ou significado” seria de 10–43 s, mas os infinitésimos matemáticos relativos ao tempo não seriam afetados por este limite porque a Matemática é virtual e autónoma e os tais infinitésimos podem ser mesmo tão pequenos quanto se queira.
Também não haveria cargas elétricas com valor inferior à do protão, ou ao valor (absoluto) da carga do eletrão: 1,6∙10–19 C (1,6∙10–19 coulomb, no singular). (Toda a realidade física – mas não só – seria granular e estaria quantizada.)
Por outro lado, alguns instrumentos estão graduados em percentagem, indicando, naturalmente, o valor (relativo) da grandeza entre o mínimo de 0% e o máximo de 100%. Isto é observado, por exemplo, na medição da humidade (relativa) e na carga das baterias de dispositivos elétricos e eletrónicos.
* Cada instrumento metrológico é concebido e construído para medir dentro de um determinado intervalo de medição (gama). Por exemplo, um termómetro clínico poderá medir entre 35 °C (mínimo) e 42 °C (máximo); um pirómetro poderá medir entre o mínimo de 0 °C e o máximo de 600 °C.
** Nós inventamos e criamos grandezas – entre outras, as grandezas físicas – e criamos os critérios para os seus limites (embora alguns pareçam impor‑se por si próprios).
*** O Universo é dinâmico: está em expansão, diz‑se, e as suas dimensões variam a cada segundo. (O leitor está agora em movimento à volta do Sol, com aceleração variável – a Terra acelera nas zonas do periélio e do afélio da órbitra terrestre. Segundo Kepler, sendo constante a velocidade areolar – áreas iguais varridas em tempos iguais –, o aumento da curvatura – o inverso do raio – da órbita faz aumentar a velocidade linear.)
**** Concomitantemente, a menor área “com sentido físico” seria 10–70 m2, e o menor volume “com sentido físico” seria 10–105 m3.