“Não há duas coisas iguais”, mas, frequentemente, não conseguimos medir as diferenças (entre duas grandezas aparentemente iguais*).
Contudo, acreditamos que, por exemplo, dois eletrões, entre outras partículas subatómicas, são iguais, enquanto não dispusermos de meios de verificação de que poderão ser diferentes! (Na verdade, há diferenças, por exemplo, podem ter spin – uma propriedade intrínseca – de +1/2, ou –1/2.)
Também acreditamos que duas esferas de um mesmo rolamento apresentarão diferenças, mas não as poderíamos detetar com instrumentos metrológicos correntes e comuns.
Por vezes, o dispositivo metrológico que usamos nas medições, não é adequado para medir as (pequenas**) diferenças entre duas grandezas idênticas: por exemplo, quando as diferenças são inferiores à resolução*** do dispositivo metrológico usado, é difícil dar conta de diferenças pequenas.
Entre muitos outros casos, se o leitor quisesse medir (diretamente) a distância entre dois píxeis (pixels) contíguos sobre a pantalha do dispositivo em que agora me lê, com uma régua de escritório de meios milímetros, não o conseguiria, por inapropriada resolução do instrumento metrológico.
(A propósito, a resolução de um instrumento, sistema, ou dispositivo metrológico, é a primeira aproximação à incerteza de medição.)
* É necessária alguma educação (formação), eventualmente técnica ou científica, para notar, sentir ou perceber algumas diferenças. Os cientistas – entre outros –, frequentemente, veem diferenças (ou semelhanças) onde elas escapam aos outros.
É frequente haver discussões por diferenças entre valores errados: Newton calculou o início do mundo em 3988 a.C.; o bispo Ussher calculou‑o como sendo 4004 a.C.. O segundo é hoje frequentemente ridicularizado pelo seu cálculo, mas Newton, não. (Newton foi um dos criadores d’OCálculo.)
Kelvin e Darwin, dois grandes cientistas e dois grandes egos, aparentemente não se admiravam mutuamente e, a certa altura, quando Darwin fez saber que a Terra teria cem milhões (100∙106=108) de anos, Kelvin terá pretendido contrariá‑lo afirmando que a Terra teria só noventa e sete milhões (97∙106=9,7∙107) de anos. (Pelas contas atuais, a Terra terá cerca de quatro milhares e meio de milhões de anos, 4,5 Ga, 4,5∙109 anos, 4 500 000 000 anos.)
** Um problema corrente e frequente com as diferenças ou variações das grandezas é se são muito grandes, ou muito pequenas, relevantes, ou desprezáveis. E o valor percentual da diferença poderá ser mais relevante do que o valor absoluto da mesma (diferença).
*** Resolução: Menor variação da grandeza medida que causa uma variação percetível na indicação correspondente.
NOTA – A resolução pode depender, por exemplo, de ruído (interno ou externo) ou de atrito. Pode depender também do valor da grandeza medida. (VIM 2012)
Contudo, correntemente, distinguem‑se duas resoluções: a do poder resolvente do “sistema instrumento”, e a do número de janelas de dígitos do visor, ou indicador do mesmo instrumento que condiciona o resultado disponibilizado ao metrólogo.
Entre os especialistas do controlo da qualidade (por medição) há uma regra (prática) frequentemente seguida: o instrumento (de medição) escolhido/usado deve ter uma resolução de cerca de um décimo do valor da tolerância permitida da cota ou dimensão da grandeza (a medir).
E se procurássemos dar sentido metrológico a algumas expressões adjetivas correntes?
Por exemplo, o que é “dar o litro”? O que é um crescimento negativo*? E o que será “pagar a luz”, isto é, pagar o consumo de eletricidade, ou energia elétrica: o som, a imagem, o aquecimento e a energia mecânica conseguidos com a energia elétrica, são gratuitos?! Só pagamos mesmo a luz?, a iluminação?!
Há algum tempo, num documentário, um aracnólogo – especialista em aracnídeos – explicava que “algumas aranhas medem alguns centímetros, outras medem menos”. O leitor, sem conhecimentos específicos e sem informação, poderá dizer o mesmo de um número incontável de pedras, plantas e animais! E não sendo especialista, poderia dizer que alguns medem mais e outros medem menos!
E outro especialista** contava: – “Era setenta e tal, agora é setenta e pouco.”
Um divulgador de coisas científicas, entre outras coisas, referia, a propósito de um asteroide, que “o seu diâmetro é menor do que poucas dezenas de metros.”
E poder‑se‑ia medir “a força das ideias”? (Não fique surpreendido se vir, numa manifestação de rua – uma arruada –, proclamações como “Assim se vê a força da PQP”)
“O que tem de ser tem muita força” é simultaneamente uma expressão profunda, engraçada, vazia, mas aparentemente indesmentível! (Alguns filósofos chamar‑lhe‑iam um figo.)
E quem sabe pôr fronteira entre uma “curva lenta” e uma “curva rápida”? (A fronteira entre uma e outra é completamente arbitrária, uma arbitrariedade pura, ou uma convenção, isto é, uma arbitrariedade formalizada.)
E quem poderá elucidar‑nos sobre o “ranking” de duas “vozes quentes”, por exemplo, no canto lírico, ou de dois “caudais ofensivos”, num jogo de futebol de uma equipa, no “primeiro tempo” diferente do do “segundo tempo”; ou das duas equipas durante o jogo?
“Excesso de pontaria” (?) diz‑se, no futebol, quando o rematador acerta com a bola na trave ou num poste.
E que dizer de quem se propõe e nos garante ir reduzir alguma coisa ao máximo? Não seria reduzir ao mínimo?!
Também não costumamos sobressaltar‑nos quando um repórter, narrando o mau tempo atmosférico, nos fala de “ventos com muita intensidade e muita força”. Aliás, brilharia se acrescentasse “com grande velocidade”, “enorme potência” e extraordinário “momentum”.
E entendemos de imediato o que nos dizem quando nos informam que “a temperatura está mais fresca”. E saberemos o que é “uma substância extremamente química”?
E quem poderá explicar-nos que tendo o papa saído de Itália às oito horas (8 h) e tendo chegado a Portugal às dez horas (10 h) tenha demorado três horas (3 h) na viagem***?
* Quase todos sabem que se trata de um… decrescimento.
** Os especialistas são assertivos e teriam sempre certezas; os cientistas, não.
*** Nada a ver com (Teoria da) Relatividade. As horas indicadas são as horas legais locais, num e noutro país – saída às 8 h, hora legal em Itália; chegada a Portugal às 10 h locais, hora legal em Portugal. Todavia as horas legais nestes países diferem de uma hora (1 h).
Por exemplo, saídos de Portugal com rumo a Itália, devemos acertar os nossos relógios quando lá chegamos: devemos adiantá‑los uma hora (1 h).
Quem não tem medidas … quantifica com métricas, se as houver.
Quando não há medidas, e faz falta um quantificador (de intensidade), usamos outras métricas; às vezes métricas avulsas*, locais e específicas; outras vezes usamos métricas generalizadas, ou até normalizadas, mais ou menos universais.
Quando se recorre a métricas, elas caracterizam-se, entre outras propriedades, em geral, por um mínimo e por um máximo – por exemplo, nas queimaduras corporais, é usada a escala de 1 a 3: grau 1 a grau 3. Contudo, só a algumas grandezas (físicas e outras) costumamos associar um mínimo e/ou um máximo.
Quando usamos métricas simples, os máximos e mínimos são geralmente estabelecidos de modo estritamente convencional (convencionalmente arbitrário).
(Alguns mínimos e máximos de caráter estritamente metrológico – como a velocidade da luz –, diz‑se e postula‑se que são constantes da Natureza).
Isto não é só relevante do ponto de vista científico, como pode sê-lo do ponto de vista legal.
Por exemplo, a perda de cor de um tecido, de uma porta, de uma parede, devida a lavagem, radiação e transformações metastáveis do tingimento, do revestimento superficial, poderá ser avaliada por um indicador, ou índice de desbotamento**. (Com frequência são elaborados padrões relativos a cada índice ou indicador para ajuda à avaliação do mesmo desbotamento através do sentido da visão; um exercício de pronunciada subjetividade.)
Outro exemplo é a escala de Mohs, para a dureza (dos minerais)***. E há mais exemplos em várias áreas, nomeadamente, nas áreas técnico‑científicas.
A classificação de filmes, de hotéis, e de tantos outros produtos, serviços e entidades, é feita com critérios geralmente qualitativos, traduzidos por números que não são mais do que indicadores ordinais (sem cardinalidade).
Todavia, grande parte de muitas “métricas” nem quantificada é: a “proporcionalidade”, na justiça; o cartão amarelo, ou vermelho, no futebol;… não são quantificados e dependem da apreciação subjetiva de juízes, árbitros e outras autoridades/entidades judicatórias.
* Uma medida tem valor facial objetivo: vale pela expressão numérica que a representa. Uma métrica tem, frequentemente, e, seguramente, subjetividades, arbitrariedades e ambiguidades incorporadas, e, em geral, não é repetível, nem reprodutível. (“Repetibilidade” e “Reprodutibilidade” são termos, cada um, com sua definição metrológica.)
** Desbotar – mudança natural, ou não propositadamente provocada, de tonalidade, ou de cor – poderá ter como principal fator, ou causa, a diminuição da camada de tinta, de corante, ou de outro agente sobreposto à superfície‑objeto.
*** A Escala de Mohs é elaborada de acordo com a dureza dos dez (10) minerais de referência seguintes (e por ordem crescente de dureza): talco, gesso, calcite, fluorite, apatite, feldspato, quartzo, topázio, coríndon e diamante.
Medir não é uma moda; medir é uma necessidade cada vez mais premente e mais apreciada. As medições também acabam com muitas opiniões. E discussões.
Medir é fundamental, basilar e incontornável em muitas ciências.
Cada vez se mede mais grandezas, mais objetos e em mais fenómenos.
Medir, agora, é inescapável, insubstituível, imprescindível.
Medir é irrecusável, irrevogável, inalienável.
A nossa civilização está pejada de e alicerçada em medições!
Os paradigmas científicos e tecnológicos – fundados em medições – impregnam e estão presentes em cada vez mais atividades humanas.
Medir já faz parte dos processos, da rotina, do subconsciente.
(Sintomaticamente, o tema do dia mundial da Metrologia – a 20 de maio –, em 2025, é Measurements for all times, for all people.)
Medir dá mais qualidade ao conhecimento.
O redutor que acabámos de comprar na loja de artigos de jardinagem aparafusa bem nos componentes da canalização de há anos da casa; adapta‑se na perfeição aos outros dispositivos que há muito tempo temos no jardim.
Não sabemos onde foi feito o redutor – na China?! –, nem onde foram fabricados os outros dispositivos – em Itália?! –, nem de onde veio outro redutor que guardávamos há anos, e usámos na canalização do jardim. Contudo, verificamos que são mecanicamente compatíveis, roscam ou atarraxam uns nos outros com se já se conhecessem, apesar da complexidade das superfícies roscadas, como as dos parafusos.
Cada um destes componentes foi medido várias vezes durante o fabrico, automaticamente, ou manualmente; terá sido medido – ainda que por “amostragem” – após o fabrico, na expedição e de novo no cliente. Na verdade, em algumas fases, o controlo metrológico é feito por amostragem e muitas peças não são medidas por se aceitar que não é necessário:cesteiro que faz (bem) um cestofaz (bem) um cento. (Um velho provérbio português que parece adaptar-se muito bem a um sistema de produção!). O cesteiro é o sistema de produção!
Parece simples, fácil e banal – sobretudo, banal –, mas foi um longo caminho para aqui chegarmos.
Medir é hoje um processo natural, faz parte da vida: é impensável viver sem medições, sem medidas.
Um diploma governamental (agosto, 2015) até previa que as botijas, ou garrafas de gás já utilizadas e trocadas por garrafas cheias, a pretexto do gás ainda presente na garrafa, passassem a ser pesadas – e o respetivo valor entregue ao cliente – para que o gás que resta na garrafa ou botija vazia não pudesse ser cobrado de novo.
A rejeição de muitos frutos é feita com base no seu calibre – uma medida – prefixado.
Não há tecnologia, da industrial à das comunicações, da eletrotécnica à das pescas, da agrícola à médica que não dependa de modo estrito e decisivo de medições.
Se não foi medido, é porque provavelmente é artesanato, prática religiosa, ou comida caseira, por exemplo.
O que é que não se mede, ou nunca foi medido? Uma planta silvestre que nasceu no seu quintal?!
Há normas – milhões de normas –, com medidas, para os mais variados produtos e serviços e é grande a universalidade de grande parte dessas normas.
O projeto, o estabelecimento e a aplicação de normas são processos demorados, complexos e frequentemente de adoção progressiva pelos diferentes países e dentro de cada país.