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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

METROLOGIA LEGAL (II)

METROLOGIA LEGAL (II)

Dois pesos e duas medidas, ou mais

 

As pesagens de batatas no supermercado não estão sob a alçada da Ciência, mas da Lei.

As medidas e as medições correntes são legitimadas legalmente, não cientificamente, pese embora a lei – sobre pesos e medidas – se fundar e fundamentar em critérios técnicos e científicos.

É frequente, embora à margem da Metrologia, falar‑se em “dois pesos e duas medidas”. (Mas, quem diz “duas medidas”, diz “três ou quatro”.) Todavia, esta expressão nasceu no mundo das medições, melhor, nas comunidades que se foram dando conta dos procedimentos de alguns medidores, nomeadamente, alguns comerciantes*.

Muitas medições (por exemplo, as que estão ligadas a transações dentro do sistema formal económico e fiscal) têm enquadramento legal.

Os legisladores, com a ajuda de técnicos e de especialistas, estabelecem métodos, procedimentos e instituições e obrigações na medição, através de leis e outros mecanismos que colocariam os consumidores a salvo de erros e dolo eventualmente cometidos pelos vendedores.

Todavia, tão importante como este corpo legislativo relativo a medições e medidas, são as autoridades instituídas, disponíveis e acessíveis, para que lhe seja dado cumprimento e penalizados os incumpridores.

Para a livre e lícita utilização pública de instrumentos de medição, é necessário que os mesmos sejam suportados por certificação apropriada sem a qual, mesmo que seguros e de bom desempenho, não podem (legalmente) ser usados**.

Frequentemente, também as medições feitas, por exemplo, por autoridades rodoviárias têm de obedecer a protocolos (legais) sem o cumprimento dos quais poderá haver contestação (legal) das medidas, principalmente, quando estas são usadas para contraordenações (multas) e outras penalizações.

No âmbito das medições legais, são tantas as implicações das medidas, que existe um ramo específico (da Metrologia) para este domínio: a Metrologia Legal.

 

* Com frequência, a explicação da expressão “dois pesos e duas medidas” é feita por especialistas e criativos em linguística e terminologia – artistas e diletantes quase sempre muito assertivos.

Algumas explicações/interpretações destes explicadores e pedagogos são até humorísticas.

Quando os normativos reguladores estatais (dos processos metrológicos) eram poucos, vagos e genéricos, e a supervisão metrológica oficial pouco mais do que inexistente, os comerciantes assumiam liberdades indevidas, capturando o sistema (metrológico): mediam (incluindo pesar) por defeito (abaixo do valor real) o que compravam (principalmente a produtores locais), e mediam por excesso o que vendiam; literalmente, tinham duas medidas – por exemplo, duas réguas e duas vasilhas‑padrão – e dois pesos – dois tipos de massas marcadas –, ou, segundo a linguagem corrente e popular, “dois pesos e duas medidas”. (“Um litro verdadeiro”, comentava, satisfeito, com os amigos, uma personagem de um romance antigo, referindo‑se a uma bebida adquirida numa casa de bebidas.)

 

** Frequentemente, tomamos conhecimento, através dos média (mídia), que determinado instrumento de medição de determinada marca e modelo foi retirado do mercado por não cumprir, entre outros preceitos administrativos (burocráticos), os protocolos de certificação.

 

2024-11-28

MEDIR O QUÊ?

MEDIR O QUÊ?

Como e para quê?

 

Adaptando o que alguém que não é metrólogo, nem cientista da Metrologia, comentava:

 

1 – Pode medir‑se qualquer coisa, mas só algumas coisas valem a pena a medição;

2 – Um conjunto de medidas poderá ter alguma utilidade, mas geralmente não dá uma imagem completa, global e total de uma realidade;

3 – Se não sabemos o que fazer com as medidas, não vale a pena incomodarmo-nos (perder tempo, consumir recursos e incorrer em custos) a fazer medições.

 

Em geral, não se polemiza acerca do peso de um saco de batatas; mas polemiza-se acerca do grau de competência* (talento/eficácia, ou capacidade/aptidão, conseguimento /eficiência) de um político, de um diretor de serviço, de um canalizador (profissionalizado).

O primeiro – o peso de um saco de batatas – resulta de medição, a segunda (competência profissional) é, em geral, uma questão de opinião, ainda que esta provenha de alguma corporação, instituição, ou entidade específica.

Muitas medições não o são no sentido metrológico, todavia, em geral, são grandes o esforço, a perseverança e o conseguimento em quantificar, estimar e comparar quase tudo.

As medidas não são nada sem um propósito, uma interpretação, uma finalidade**.

As medidas, como muitos outros dados numéricos, existem em quantidades astronómicas, mesmo em áreas específicas, a ponto de ser impossível a um ser humano comum tomá-las todas em conta, dar-lhes utilidade e dar‑lhes sentido. (A IA – Inteligência Artificial – pode, frequentemente, abarcar, relacionar e integrar quantidades muito grandes de dados, incluindo medidas.)

Mesmo em qualquer área específica, da Economia aos revestimentos para a “construção civil”, da Medicina à pecuária, da Etologia (de instituição recente) à pesca, em geral, há muitas medidas que passam ao lado dos especialistas.

 

* O termo competência é ambíguo e, frequentemente, fator e fautor de desentendimentos. Um político legitimamente eleito tem “competência democrática” para as funções que desempenha, mesmo que ignorante, ou pouco talentoso nas matérias relativamente às quais tem de tomar decisões.

Quem diz político, diz gestor nomeado por outrem, ou empresário por conta própria. Competência democrática, competência funcional não são o mesmo que competência técnica.

 

** Os nossos consumos domésticos, por exemplo, de água, repartem-se por muitas aplicações: cozinhar, banhos, lavatórios, sanitários, jardinagem, limpezas, lavagem de louça, lavagem de roupa, entre outros processos domésticos que consomem água.

A quem interessar reduzir consumos, ou tornar mais eficiente a utilização da água, conviria, primeiramente, medir – coisa difícil –, ou pelo menos estimar em que aplicações consome mais água. À partida, é nos processos em que se consome mais água que existe um maior potencial de redução (melhor do que poupança) e deveria ser por estes que se deveria começar.

(A redução do caudal de entrada da água na habitação, através da redução da pressão, poderá constituir, dentro de certos limites, uma opção aceitável.)

 

2024-11-21

MEDIDAS APARENTES

MEDIDAS APARENTES

Medições ambíguas

 

“Aparente” significa, em geral, o que é enganador; mas significa também “o que é evidente”.

“Sem causa aparente” significa “sem causa evidente, específica, determinada, ou conhecida”.

Todavia, quando, por exemplo, medimos o volume de uma porção de areia, medimos o volume dos grãos de areia e do ar (e/ou água) entre os grãos, logo, medimos o “volume aparente” da matéria sólida da areia*; e quando, com os valores do peso e do volume, determinamos a densidade** da areia, determinamos a “densidade aparente” da areia, isto é, medimos a densidade de uma mistura de dois corpos: areia e ar (e/ou água). (A percentagem de ar/água na areia depende do tamanho dos grãos e da mistura de tamanhos de grãos quando o tamanho dos mesmos não é uniforme.)

Não só com areia, mas com outros materiais – ou matérias –, como, por exemplo, entre outros, de natureza granular, ou descontínua: serrim, sal, cascalho – brita –, algodão e carvão temos esta modalidade, ou fatalidade da “aparência”.

Sabemos hoje que quando observamos, por exemplo, o Sol, percecionamos o seu movimento aparente em relação à Terra, apesar de, em Física, o movimento ser relativo ao observador. (A Terra move‑se em relação ao Sol e o Sol move‑se relativamente à Terra). Contudo, faz mais sentido – para explicar, ou descrever a mecânica celeste, isto é, a mecânica do(s) céu(s), e descrever os movimentos no sistema solar, dizer que é a Terra que se move à volta do Sol. Isto é, um observador no Sol vê a Terra mover‑se à volta do Sol, e um observador terrestre vê o Sol a mover‑se em relação à Terra. (A Mecânica do Sistema Solar fica mais simples e mais real quando a concebemos com os planetas solares a orbitar o Sol; à moda de Ptolomeu era deslumbrante, mas complicado.)

(Aliás, visto da Terra, parece também que é todo o Universo que gira à volta da Terra! E esta aparência serviu de base a narrativas fantásticas. Sem prejuízo de algumas em vigor também o serem.)

A temperatura sentida – informação que frequentemente acompanha alguns boletins meteorológicos – é uma temperatura aparente, uma temperatura calculada, uma medição indireta, não a temperatura sentida por alguém em especial, ou algum observador particular.

Se o tempo (físico) é uma ficção, como teria dito Einstein [1879 – 1955], os valores que usamos na sua medição seriam aparentes; e mais ainda, por a grandeza tempo ser variável, de acordo com a velocidade dos observadores em relação à velocidade da luz. (À velocidade da luz, o tempo pararia para o observador que assim se deslocasse. Quem se deslocasse à velocidade da luz – sendo possível – viveria fora do tempo, viveria eternamente, uma implicação da Relatividade, isto é, uma implicação da narrativa Relativista.)

As medidas usadas para comparar o brilho das estrelas são também medidas aparentes.

Aparentes poderão ser, por exemplo, as medidas da dilatação de um corpo com o calor, se não tomarmos as precauções necessárias para que o calor não afete os instrumentos usados na medição.

 

* Na areia, a proporção, em volume, entre matéria sólida e ar (ou outro gás, ou água, ou outro líquido) varia, quer com o tamanho dos grãos (sólidos), quer com a mistura de tamanhos de grãos.

 

** Para medir – determinar – a massa volúmica (densidade) de um corpo, pesa‑se o corpo, mede‑se o seu volume, e divide-se o primeiro (peso) pelo segundo (volume).

 

2024-11-14

UM CONCEITO QUASE METROLÓGICO

UM CONCEITO QUASE METROLÓGICO

Igual, um termo para vários conceitos

 

“Igual” é um termo, uma palavra, mas também um chapéu para vários conceitos. (Na verdade, quase todos os nomes, ou substantivos, são polissémicos.)

“Igual” tem sido um pilar ideológico, político e filosófico, em todas as Eras e em muitas partes do mundo, para pessoas, instituições e governos democráticos, ou governos distópicos. (A democracia tem muitas gradações e variantes – há até algumas ditaduras que ousam denominar‑se a si próprias “democracias”.)

Mas também na Matemática, a mãe e o pai de quase todas as ciências (mas só de algumas, poucas!), “igual” é termo basilar, inescapável e fundamental; e tem até um símbolo: “=”. E este símbolo parece valer por si próprio!

Todavia, “igual” (“=”) não é um conceito simples, apesar de o parecer.

Em “programas” e “códigos” de programação computacional, podemos deparar-nos com expressões como N=N+1* que significa: “ao valor de N acrescente‑se mais uma (1) unidade”.

(Num pacote de rolos de papel higiénico podia ler‑se: “24=48”. Publicidade comercial e propaganda – ideológica, política e social – parecem familiares próximos.)

Quando Einstein escreveu m=E/c2 (parece que ele nunca terá escrito E=mc2), sendo “E” a energia, “m” a massa (de um corpo) e “c” a velocidade da luz, estaria a sugerir uma equivalência. Por exemplo, o fotão, sem massa em repouso (não há fotões em repouso! **), pode, contudo, fazer pressão sobre uma superfície na qual incida***, e fá‑lo‑á como se tivesse massa igual a E/c2 (isto é, m=E/c2).

Já em expressões, como, por exemplo, v=dx/dt – uma definição –, o sinal ”=” serve para a criação de “v; a expressão não é uma igualdade de entidades pré-existentes: v será o que for dx/dt. (dx e dt são o pai e a mãe de v, ou os pais, ou as mães de v.)

2 kg de batatas a 0,5 €/kg custam 1 €, ou, em símbolos matemáticos: 2 kg0,5 €/kg=1 €); mas, no dia seguinte, a estória poderá ser diferente se o preço das batatas se alterar. A expressão significa “dois quilogramas de batatas a 0,5 €/kg custam um euro: o sinal “=”, um símbolo de conveniência, aqui, significa “custam”. Todavia, em vez de batatas, poderiam ser cebolas, ou outros géneros, ou produtos.

2 gatos + 3 gatos somam 5, ou, 2 gatos + 3 gatos=5 gatos, mesmo que os gatos sejam todos diferentes, incluindo gatas e gatos.

Entre os incontáveis produtos da manufatura metalomecânica, diz‑se que as esferas de um (mesmo) rolamento são todas iguais (contudo, não há duas coisas iguais, dizem, sobretudo, os médios, pequenos e grandes candidatos a filósofos). Na verdade, as esferas serão iguais só segundo critérios de toleranciamento (dimensional e geométrico) e critérios de incerteza metrológica: o que está no mesmo intervalo de incerteza metrológica é (metrologicamente) indecidível; e assim sendo, as esferas dizem‑se intermutáveis (iguais), porque podem ser usadas indistinta e indiscriminadamente para a mesma função.

 

* Tomada como expressão matemática, “N=N+1” significaria, por exemplo, que 0=1.

 

** Com o ar em repouso, não há vento; o vento deixa de existir, extingue‑se, quando a velocidade do ar é zero (m/s, unidade SI).

 

*** Não é necessário ter massa, basta que tenha “momento linear”, momentum, ou “quantidade de movimento”, para poder exibir impulso e, consequentemente, produzir pressão.

 

2024-11-07

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