Não só tudo é incerto, como, na medição, vai aumentando a incerteza com o crescimento do número de operações (metrológicas) encadeadas: instrumentais, metodológicas ou de cálculo nos processos metrológicos. Mudança e incerteza vão a par: quanto maior ou mais rápida é a mudança, mais aumenta a incerteza. Todavia, a incerteza de medição, convencionalmente, é quantificável!.
Contudo, até a incerteza é … incerta*. Na verdade, nas medições, o valor da incerteza deverá ser acompanhado da probabilidade da mesma. (Nas “sondagens”, chamam erro à incerteza, embora, em princípio, os erros sejam descartáveis e, em geral, coexistam com as incertezas.)
O progresso parece empenhado em “acabar com as certezas”. (Contudo, o povo parece clamar por mais certezas.) As certezas**, as diferentes certezas sobre um mesmo tema, assunto e crença, são potencialmente geradoras de conflito. Certezas, fundamentalismos e radicalismos, em geral, andam a par***.
Haverá incerteza na incerteza metrológica? A incerteza – o valor da incerteza –, está associada a uma probabilidade; a “incerteza” não é um valor aritmético “seguro”, “definitivo”, “exato”; o valor da incerteza, aliás, o do intervalo de incerteza, depende da probabilidade – isto é, a probabilidade de o valor da medida representar o valor verdadeiro (um valor convencional) da mensuranda – que se escolhe, se adota, ou é possível associar à determinação desses valores.
O valor da incerteza obedece, ou está sujeito, a critérios: necessitamos de defini-la (e convencioná-la) e, principalmente, operacionalizá-la para fixar o seu valor numérico.
Frequentemente, quando estabelecemos o intervalo de incerteza para conhecermos uma mensuranda, fixamos a probabilidade desse intervalo. Por exemplo, dizemos que o valor de uma mensuranda (depois de feitas as medições) está entre 10,472 mm e 10,483 mm com probabilidade de 95%; mas, para o mesmo conjunto de medidas (para a determinação do valor da mensuranda), talvez pudéssemos escrever (depois de análise apropriada) que o valor da mensuranda está entre 10,468 mm e 10,491 mm com 99% de probabilidade****.
* Eram cento e tal pessoas, mais coisa menos coisa – dizia alguém, acerca das pessoas presentes numa reunião.
(Trocadilhando: diz‑se que o futuro é certo e o passado incerto; mas toda a gente sabe que o futuro é … incerto.)
** Quase todos temos a certeza (axiomática) de que 4x4=16; 4x4 m=16 m e 4 mx4 m=4 m2; mas 4 vacasx4 vacas é o quê?
Quando chove, toda a gente estará de acordo “que chove”; a medição da quantidade de chuva durante um intervalo de tempo já é mais incerta.
(E o autor tem a certeza de que, no momento em que escreve, não está presente nenhum elefante na sala, como aqueles que muitos já viram no circo e noutros locais!)
*** As medições, geralmente ligadas à verdade – termo ambíguo, equívoco e impreciso –, apresentam sempre incerteza.
**** Naturalmente que, se for legítimo dizer que a incerteza de uma mensuranda cai no intervalo 10,472 mm a 10,483 mm com 95% de probabilidade, é ainda mais provável (por exemplo, com 99% de probabilidade) que esteja num intervalo maior, como [10,468 mm – 10,491 mm], que abrange, ou integra, o primeiro (intervalo).
Medir a poluição é fácil; difícil é saber (“aqui e agora”) o que é poluente*.
O termo “poluição” tem – social, científica e politicamente – aceção, conotação e carga negativas, e quem polui pode ser considerado – dependendo da natureza da poluição, da militância antipoluição, do denunciante e do país –, antissocial, indesejável ou criminoso.
Todavia, o que os humanos vivos expiram, no processo da respiração, é, em percentagem não despicienda (aproximadamente 5%), dióxido de carbono (CO2), um poluente. (Não referindo alguns outros poluentes expelidos pelos humanos que o decoro permite ocultar.)
“Poluição”, entre outros temas muito referidos e mais ou menos atuais, é só um termo a que correspondem vários conceitos e cada um com um número de fatores e variáveis nem sempre bem definido**.
(A quantidade e qualidade dos militantes antipoluição parece fazer da questão um assunto emergente, urgente e pungente.)
Não se mede a poluição – um fenómeno –, mas as suas grandezas, porém, não antes de estas serem bem definidas. Aliás, a poluição é um fenómeno – ou um conjunto de fenómenos – de fronteiras mal definidas, dependente de critérios variáveis, e que integra muitas grandezas***; tantas mais quantas mais definições de poluição houver. (Com o avançar do tempo e o conhecimento das interações dos processos humanos, nomeadamente, as tecnologias humanas com os processos naturais, maior é a lista de poluentes e poluidores.)
Da poluição sonora (ruído, ou bandas ruidosas) à poluição química (tóxica, ou antitóxica) e outras poluições palpáveis, poluições hard, atual ou potencialmente mensuráveis, até às imateriais poluições soft, como a poluição informativa de vários tipos, incluindo a publicidade, vai havendo atualizações e acrescentos frequentes. (Alguns profissionais referem a poluição luminosa!)
A poluição informativa também pode ser medida, embora a medida seja subjetiva porque uma mesma narrativa poderá ser informativa para uns e redundante (ou ruído) para outros.
* “Poluir” parece ser uma questão de convenção: quantidade, contexto e relevância. (Tudo polui!)
As fezes das vacas, em pequena quantidade, para os citadinos, são um toque de ruralidade (presentemente em alta); no campo são adubo e na estrada são um poluente perigoso, mais perigoso do que buracos e outros defeitos comuns e correntes nas estradas portuguesas.
** Ao que é ou não poluente não são estranhos os lobbies disto e daquilo, bem como as lutas pelos poderes de várias naturezas que poderão contar com militantes mais ou menos aguerridos, mais ou menos conscientes, mais ou menos motivados e apoiados por outros poderes com acesso a mais ou menos recursos relevantes, incluindo, sobretudo, os média (melhor do que mídia) e as respetivas “agendas”.
*** Desde alguns elementos (alumínio, chumbo, mercúrio, por exemplo) a muitas substâncias químicas (monóxido de carbono, óxidos de nitrogénio, anidrido sulfuroso, entre muitos, muitos outros) não faltam agentes poluidores!
(O estudo do chumbo como poluente conduziu à alteração da formulação das gasolinas e ajudou à contribuição para a determinação da idade da … Terra.)
E os pitagóricos pareciam mais sucintos e assertivos – Tudo é número.
Não se mede hoje, medir‑se‑á amanhã, se a medida for útil.
A saúde, aquilo que por agora se entende por saúde – por exemplo, a dos humanos –, poderá espelhar‑se num conjunto de medidas?
(A saúde integra o novel ramo das Ciências da Complexidade.)
Aparentemente, quanto à saúde, só haveria dois estados: “saudável” e “doente”; a “saúde” pareceria ser uma grandeza booleana:1 ou 0, tudo ou nada; temos, ou não temos (saúde). (Todavia, dizem alguns, que ter saúde não augura nada de bom.)
Há utentes do Sistema de Saúde que, não sendo doentes, procuram os seus serviços para a vigilância e controlo de alguns fatores e grandezas fisiológicas: entre outros, grávidas, hipertensos e diabéticos. São pacientes (com este termo na dupla função de substantivo e adjetivo!), mas, não doentes.
Contudo, o médico, querendo, poderá atestar que qualquer um de nós está doente e por períodos mais ou menos longos, por doenças eventualmente irrelevantes. Dos desequilíbrios (mais ou menos graves, mais ou menos duradouros) psicológicos, ou orgânicos, passando pelos psicossomáticos e outros, estamos (quase) sempre, e todos, doentes. E até poderíamos estar doentes de manhã e saudáveis à tarde. (A própria vida – brincando – seria “uma doença sexualmente transmissível e fatal”.)
Por isso, parecendo não ser a saúde uma grandeza booleana, daria muito jeito haver um indicador, uma métrica, ou índice de saúde (sobretudo da saúde coletiva, não da individual).
E a saúde poderá traduzir-se por conjunto de números?
Há uma grande quantidade de pessoas (com alguma relevância opinativa) que admite que sim, que é necessário (e seria suficiente?) fazer medições para determinar o índice de saúde de cada um (conforme com padrão coletivo).
Todavia, a informação de que as pessoas dispõem, e o seu grau de sabedoria, costumam conflituar: frequentemente, quanto menos informação (verdadeira) têm, mais sábias as pessoas parecem mostrar‑se. Quanto menos informados, mais assertivos, perentórios e seguros são os opinantes.
A saúde parece ser um conceito fluido, não sedimentado, e demasiado complexo para ser completamente caracterizado por um conjunto bem determinado de medidas. E também por incorporar fatores psíquicos, psicossociais e holísticos aparentemente (ainda) incomensuráveis (sem padrão de referência objetivo).
Além disso, o conceito de saúde parece variar com a época, com o lugar e com a sociedade*: um conceito com uma importante componente de arbitrariedade.
As doençasparecem conceitos simples, fenómenos compreensíveis e processos controláveis; os doentes, não.
Um médico estuda doenças, mas tem de resolver os problemas dos doentes.
Até o ruído – mensurável, ou discriminável em grandezas mensuráveis – pode afetar a nossa saúde: há limiares de deterioração do nosso bem‑estar e de dor causados pela intensidade sonora.
Mas também teores ou taxas de gases como, por exemplo, o CO e o CO2, e radiações como, entre outros, o rádon, que interferem com a saúde de cada um. E todos (estes fatores) podem ser – e frequentemente são – medidos e para todos é estabelecido um máximo admissível.
* Entidades tidas por autoridades da saúde, de vez em quando, alteram a lista das doenças, disfunções e anomalias.
Recentemente, foi acrescentada à lista de doenças a burnout. Pelo contrário, comportamentos outrora tidos por doentios e/ou desviantes são hoje instituídos como normais, sendo descartados das listas das anomalias à saúde.
Comunicar medidas é, frequentemente, quase tão importante como medir, ou fazer medições. (Comunicar mal, erradamente, uma medida, é errar a medida.)
Comunicar medidas é fácil porque as expressões (formais) que carreiam as medidas são simples e (devem ser) formatadas, inambiguamente, por normas e regras. É fácil aprendê‑las e … respeitá‑las. (Aprender e respeitar regras e normas de representação de medidas parece ser, contudo, pouco frequente.)
Comunicar com rigor é comunicar com …verdade e esta está dependente do rigor da comunicação. (Aparentemente, um imperativo democrático! Quem falha na comunicação de medidas, certamente, falha em outras áreas.)
Não deveríamos ser indulgentes com a falta de rigor na comunicação de medidas. Os atropelos à Metrologia, frequentemente, anulam, falsificam ou menorizam a informação (da medição, pelo menos!). (Se alguém, profissional e publicamente, fala, ou escreve, sobre medidas, deve conhecer a respetiva gramática.)
A má utilização da vírgula, na comunicação corrente de dados metrológicos, com frequência, é fonte de ambiguidades, algumas de graves consequências. A ambiguidade, os erros e a falta de rigor nas expressões metrológicas também poderão ter consequências muito graves.
Há muitos aparelhos que medem (sempre, e de qualquer maneira) mesmo nas mãos de amadores, ou analfabetos funcionais metrológicos. A compreensão, a análise e a crítica da indicação do aparelho de medição é que poderá ser o problema.
A Metrologia tem linguagem e gramática próprias que deviam ser conhecidas por quase todos, mas em particular por quem as manuseia, comunica ou utiliza. Expressões incorretas poderão conduzir (e frequentemente conduzem) a medidas erradas.
São correntes as ambiguidades, os erros e os prejuízos e dramas:21.2 e 21,2; 100,000 e 100 000; bilião e milhar de milhões;500 mM€ e 500 G€; 50 000 a.C. e há 50 000 anos, entre outras expressões, são só alguns exemplos da ambiguidade e falta de rigor nas expressões de medidas*.
A terminologia (os termos, ou palavras, e os conceitos), os símbolos e os significados de uns e outros são específicos e não integram a linguagem comum, de cafeteria.
Todavia, palavras, valores e unidades metrológicos constam diariamente de noticiários e outras comunicações dos media, ou média (melhor do que mídia): as temperaturas atmosféricas máximas e mínimas previstas para cada dia; a velocidade a que seguia um condutor em transgressão por excesso de velocidade (diferente de velocidade excessiva, embora uma não exclua a outra); e a taxa de alcoolemia de um condutor alcoolizado, entre outros exemplos recorrentes, comuns e habituais.
* Por exemplo:
21,2 é uma expressão correta; 21.2 é uma expressão tolerada (significando 21,2); (“tolerada” é sinónimo de prostituta).
100 000 (cem mil) é uma expressão correta; 100,000 é uma forma decimal de cem (100);
500 G€ é uma expressão correta; 500 kM€ é expressão errada, como 500 mM€ é igualmente errada;
Há 50 000 anos (50000), melhor do que 50 000 a.C.;