Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

INCERTEZA DAS INCERTEZAS

INCERTEZA DAS INCERTEZAS

Tudo é incerto

 

Não só tudo é incerto, como, na medição, vai aumentando a incerteza com o crescimento do número de operações (metrológicas) encadeadas: instrumentais, metodológicas ou de cálculo nos processos metrológicos. Mudança e incerteza vão a par: quanto maior ou mais rápida é a mudança, mais aumenta a incerteza. Todavia, a incerteza de medição, convencionalmente, é quantificável!.

Contudo, até a incerteza é … incerta*. Na verdade, nas medições, o valor da incerteza deverá ser acompanhado da probabilidade da mesma. (Nas “sondagens”, chamam erro à incerteza, embora, em princípio, os erros sejam descartáveis e, em geral, coexistam com as incertezas.)

O progresso parece empenhado em “acabar com as certezas”. (Contudo, o povo parece clamar por mais certezas.) As certezas**, as diferentes certezas sobre um mesmo tema, assunto e crença, são potencialmente geradoras de conflito. Certezas, fundamentalismos e radicalismos, em geral, andam a par***.

Haverá incerteza na incerteza metrológica? A incerteza – o valor da incerteza –, está associada a uma probabilidade; a “incerteza” não é um valor aritmético “seguro”, “definitivo”, “exato”; o valor da incerteza, aliás, o do intervalo de incerteza, depende da probabilidade – isto é, a probabilidade de o valor da medida representar o valor verdadeiro (um valor convencional) da mensuranda – que se escolhe, se adota, ou é possível associar à determinação desses valores.

O valor da incerteza obedece, ou está sujeito, a critérios: necessitamos de defini-la (e convencioná-la) e, principalmente, operacionalizá-la para fixar o seu valor numérico.

Frequentemente, quando estabelecemos o intervalo de incerteza para conhecermos uma mensuranda, fixamos a probabilidade desse intervalo. Por exemplo, dizemos que o valor de uma mensuranda (depois de feitas as medições) está entre 10,472 mm e 10,483 mm com probabilidade de 95%; mas, para o mesmo conjunto de medidas (para a determinação do valor da mensuranda), talvez pudéssemos escrever (depois de análise apropriada) que o valor da mensuranda está entre 10,468 mm e 10,491 mm com 99% de probabilidade****.

 

* Eram cento e tal pessoas, mais coisa menos coisa – dizia alguém, acerca das pessoas presentes numa reunião.

(Trocadilhando: diz‑se que o futuro é certo e o passado incerto; mas toda a gente sabe que o futuro é … incerto.)

 

** Quase todos temos a certeza (axiomática) de que 4x4=16; 4x4 m=16 m e 4 mx4 m=4 m2; mas 4 vacasx4 vacas é o quê?

Quando chove, toda a gente estará de acordo “que chove”; a medição da quantidade de chuva durante um intervalo de tempo já é mais incerta.

(E o autor tem a certeza de que, no momento em que escreve, não está presente nenhum elefante na sala, como aqueles que muitos já viram no circo e noutros locais!)

 

*** As medições, geralmente ligadas à verdade – termo ambíguo, equívoco e impreciso –, apresentam sempre incerteza.

 

**** Naturalmente que, se for legítimo dizer que a incerteza de uma mensuranda cai no intervalo 10,472 mm a 10,483 mm com 95% de probabilidade, é ainda mais provável (por exemplo, com 99% de probabilidade) que esteja num intervalo maior, como [10,468 mm – 10,491 mm], que abrange, ou integra, o primeiro (intervalo).

 

2023-02-23

MEDIR A POLUIÇÃO

MEDIR A POLUIÇÃO

Qual poluição?

 

Medir a poluição é fácil; difícil é saber (“aqui e agora”) o que é poluente*.

O termo “poluição” tem – social, científica e politicamente – aceção, conotação e carga negativas, e quem polui pode ser considerado – dependendo da natureza da poluição, da militância antipoluição, do denunciante e do país –, antissocial, indesejável ou criminoso.

Todavia, o que os humanos vivos expiram, no processo da respiração, é, em percentagem não despicienda (aproximadamente 5%), dióxido de carbono (CO2), um poluente. (Não referindo alguns outros poluentes expelidos pelos humanos que o decoro permite ocultar.)

“Poluição”, entre outros temas muito referidos e mais ou menos atuais, é só um termo a que correspondem vários conceitos e cada um com um número de fatores e variáveis nem sempre bem definido**.

(A quantidade e qualidade dos militantes antipoluição parece fazer da questão um assunto emergente, urgente e pungente.)

Não se mede a poluição – um fenómeno –, mas as suas grandezas, porém, não antes de estas serem bem definidas. Aliás, a poluição é um fenómeno – ou um conjunto de fenómenos – de fronteiras mal definidas, dependente de critérios variáveis, e que integra muitas grandezas***; tantas mais quantas mais definições de poluição houver. (Com o avançar do tempo e o conhecimento das interações dos processos humanos, nomeadamente, as tecnologias humanas com os processos naturais, maior é a lista de poluentes e poluidores.)

Da poluição sonora (ruído, ou bandas ruidosas) à poluição química (tóxica, ou antitóxica) e outras poluições palpáveis, poluições hard, atual ou potencialmente mensuráveis, até às imateriais poluições soft, como a poluição informativa de vários tipos, incluindo a publicidade, vai havendo atualizações e acrescentos frequentes. (Alguns profissionais referem a poluição luminosa!)

A poluição informativa também pode ser medida, embora a medida seja subjetiva porque uma mesma narrativa poderá ser informativa para uns e redundante (ou ruído) para outros.

 

* “Poluir” parece ser uma questão de convenção: quantidade, contexto e relevância. (Tudo polui!)

As fezes das vacas, em pequena quantidade, para os citadinos, são um toque de ruralidade (presentemente em alta); no campo são adubo e na estrada são um poluente perigoso, mais perigoso do que buracos e outros defeitos comuns e correntes nas estradas portuguesas.

 

** Ao que é ou não poluente não são estranhos os lobbies disto e daquilo, bem como as lutas pelos poderes de várias naturezas que poderão contar com militantes mais ou menos aguerridos, mais ou menos conscientes, mais ou menos motivados e apoiados por outros poderes com acesso a mais ou menos recursos relevantes, incluindo, sobretudo, os média (melhor do que mídia) e as respetivas “agendas”.

 

*** Desde alguns elementos (alumínio, chumbo, mercúrio, por exemplo) a muitas substâncias químicas (monóxido de carbono, óxidos de nitrogénio, anidrido sulfuroso, entre muitos, muitos outros) não faltam agentes poluidores!

(O estudo do chumbo como poluente conduziu à alteração da formulação das gasolinas e ajudou à contribuição para a determinação da idade da … Terra.)

 

2023-02-16

MEDIR A SAÚDE

MEDIR A SAÚDE

Ter saúde não augura nada de bom

 

"Deus criou tudo por número, peso e medida".

E os pitagóricos pareciam mais sucintos e assertivos – Tudo é número.

Não se mede hoje, medir‑se‑á amanhã, se a medida for útil.

A saúde, aquilo que por agora se entende por saúde – por exemplo, a dos humanos –, poderá espelhar‑se num conjunto de medidas?

(A saúde integra o novel ramo das Ciências da Complexidade.)

Aparentemente, quanto à saúde, só haveria dois estados: “saudável” e “doente”; a “saúde” pareceria ser uma grandeza booleana: 1 ou 0, tudo ou nada; temos, ou não temos (saúde). (Todavia, dizem alguns, que ter saúde não augura nada de bom.)

Há utentes do Sistema de Saúde que, não sendo doentes, procuram os seus serviços para a vigilância e controlo de alguns fatores e grandezas fisiológicas: entre outros, grávidas, hipertensos e diabéticos. São pacientes (com este termo na dupla função de substantivo e adjetivo!), mas, não doentes.

Contudo, o médico, querendo, poderá atestar que qualquer um de nós está doente e por períodos mais ou menos longos, por doenças eventualmente irrelevantes. Dos desequilíbrios (mais ou menos graves, mais ou menos duradouros) psicológicos, ou orgânicos, passando pelos psicossomáticos e outros, estamos (quase) sempre, e todos, doentes. E até poderíamos estar doentes de manhã e saudáveis à tarde. (A própria vida – brincando – seria “uma doença sexualmente transmissível e fatal”.)

Por isso, parecendo não ser a saúde uma grandeza booleana, daria muito jeito haver um indicador, uma métrica, ou índice de saúde (sobretudo da saúde coletiva, não da individual).

E a saúde poderá traduzir-se por conjunto de números?

Há uma grande quantidade de pessoas (com alguma relevância opinativa) que admite que sim, que é necessário (e seria suficiente?) fazer medições para determinar o índice de saúde de cada um (conforme com padrão coletivo).

Todavia, a informação de que as pessoas dispõem, e o seu grau de sabedoria, costumam conflituar: frequentemente, quanto menos informação (verdadeira) têm, mais sábias as pessoas parecem mostrar‑se. Quanto menos informados, mais assertivos, perentórios e seguros são os opinantes.

A saúde parece ser um conceito fluido, não sedimentado, e demasiado complexo para ser completamente caracterizado por um conjunto bem determinado de medidas. E também por incorporar fatores psíquicos, psicossociais e holísticos aparentemente (ainda) incomensuráveis (sem padrão de referência objetivo).

Além disso, o conceito de saúde parece variar com a época, com o lugar e com a sociedade*: um conceito com uma importante componente de arbitrariedade.

As doenças parecem conceitos simples, fenómenos compreensíveis e processos controláveis; os doentes, não.

Um médico estuda doenças, mas tem de resolver os problemas dos doentes.

Até o ruído – mensurável, ou discriminável em grandezas mensuráveis – pode afetar a nossa saúde: há limiares de deterioração do nosso bem‑estar e de dor causados pela intensidade sonora.

Mas também teores ou taxas de gases como, por exemplo, o CO e o CO2, e radiações como, entre outros, o rádon, que interferem com a saúde de cada um. E todos (estes fatores) podem ser – e frequentemente são – medidos e para todos é estabelecido um máximo admissível.

 

* Entidades tidas por autoridades da saúde, de vez em quando, alteram a lista das doenças, disfunções e anomalias.

Recentemente, foi acrescentada à lista de doenças a burnout. Pelo contrário, comportamentos outrora tidos por doentios e/ou desviantes são hoje instituídos como normais, sendo descartados das listas das anomalias à saúde.

 

2023-02-09

COMUNICAÇÃO DE MEDIDAS

COMUNICAÇÃO DE MEDIDAS

Comunicar com rigor

 

Comunicar medidas é, frequentemente, quase tão importante como medir, ou fazer medições. (Comunicar mal, erradamente, uma medida, é errar a medida.)

Comunicar medidas é fácil porque as expressões (formais) que carreiam as medidas são simples e (devem ser) formatadas, inambiguamente, por normas e regras. É fácil aprendê‑las e respeitá‑las. (Aprender e respeitar regras e normas de representação de medidas parece ser, contudo, pouco frequente.)

Comunicar com rigor é comunicar com verdade e esta está dependente do rigor da comunicação. (Aparentemente, um imperativo democrático! Quem falha na comunicação de medidas, certamente, falha em outras áreas.)

Não deveríamos ser indulgentes com a falta de rigor na comunicação de medidas. Os atropelos à Metrologia, frequentemente, anulam, falsificam ou menorizam a informação (da medição, pelo menos!). (Se alguém, profissional e publicamente, fala, ou escreve, sobre medidas, deve conhecer a respetiva gramática.)

A má utilização da vírgula, na comunicação corrente de dados metrológicos, com frequência, é fonte de ambiguidades, algumas de graves consequências. A ambiguidade, os erros e a falta de rigor nas expressões metrológicas também poderão ter consequências muito graves. 

Há muitos aparelhos que medem (sempre, e de qualquer maneira) mesmo nas mãos de amadores, ou analfabetos funcionais metrológicos. A compreensão, a análise e a crítica da indicação do aparelho de medição é que poderá ser o problema.

A Metrologia tem linguagem e gramática próprias que deviam ser conhecidas por quase todos, mas em particular por quem as manuseia, comunica ou utiliza. Expressões incorretas poderão conduzir (e frequentemente conduzem) a medidas erradas.

São correntes as ambiguidades, os erros e os prejuízos e dramas: 21.2 e 21,2; 100,000 e 100 000; bilião e milhar de milhões; 500 mM e 500 G€; 50 000 a.C. e há 50 000 anos, entre outras expressões, são só alguns exemplos da ambiguidade e falta de rigor nas expressões de medidas*.

A terminologia (os termos, ou palavras, e os conceitos), os símbolos e os significados de uns e outros são específicos e não integram a linguagem comum, de cafeteria.

Todavia, palavras, valores e unidades metrológicos constam diariamente de noticiários e outras comunicações dos media, ou média (melhor do que mídia): as temperaturas atmosféricas máximas e mínimas previstas para cada dia; a velocidade a que seguia um condutor em transgressão por excesso de velocidade (diferente de velocidade excessiva, embora uma não exclua a outra); e a taxa de alcoolemia de um condutor alcoolizado, entre outros exemplos recorrentes, comuns e habituais.

 

* Por exemplo:

 

  • 21,2 é uma expressão correta; 21.2 é uma expressão tolerada (significando 21,2); (“tolerada” é sinónimo de prostituta).
  • 100 000 (cem mil) é uma expressão correta; 100,000 é uma forma decimal de cem (100);
  • 500 G€ é uma expressão correta; 500 kM€ é expressão errada, como 500 mM€ é igualmente errada;
  • Há 50 000 anos (50000), melhor do que 50 000 a.C.;
  • 60 °C é correto, ao contrário de 60° C, ou 60°.

 

2023-02-02

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub