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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

FALSOS TERMOS METROLÓGICOS

FALSOS TERMOS METROLÓGICOS

Ponderar, aquilatar, medir

 

Há palavras e expressões (correntes) que parecem sugerir medidas, ou medições: ponderar, metragem (longa e curta, por exemplo) e sopesar, entre muitas outras. (Até há a expressão “medir as palavras”.)

Mas também expressões como: “igual ao litro”, “ao milímetro” e “é só um minuto”, entre outras, que, apesar dos termos metrológicos contidos, são expressões geralmente estranhas à Metrologia.

Ouvir dizer que alguém “não se afastou um milímetro” dos seus temas não é uma referência metrológica; só significa que esse alguém não se desviou do assunto, não se dispersou nem divagou na sua exposição, aula ou apresentação*.

“Igual ao litro”, quando significa “irrelevante”, nada tem a ver com a consabida unidade de capacidade (agora – afinal, desde 1964 –, por convenção, equivalente ao decímetro cúbico, uma unidade de volume).

Contrarrelógio significa, em linguagem corrente (não em linguagem específica, como, por exemplo, no ciclismo), fazer qualquer coisa em tempo curto, em tempo (muito) limitado; corrida contra o tempo.

Palavras que parecem nomear itens, ou processos metrológicos, mas não são geralmente usadas em Metrologia (quer científica, técnica, ou erudita): cubicar; certeza (mas incerteza, sim); ou exato (mas exatidão, sim).

Não há medidas exatas**: os valores exatos, em geral, são estabelecidos por convenção (velocidade exata da luz no vazio, por exemplo).

“Tomar medidas”, em geral, nada tem a ver com a Metrologia.

“Ponderar” é termo que frequentemente se associa ao pensamento e à fala; “ponderado”, uma vez por outra, é o que se chama a esta ou àquela pessoa sisuda que (na verdade), geralmente, pouco pondera.

Dirac [1902–1984], físico britânico nobelizado [1933], um dos (três ou quatro) pais da Mecânica Quântica, aparentemente parco de palavras quando falava*** (por ser ponderado?), levou alguns dos seus amigos a proporem, brincando, o dirac como unidade de medição do débito, fluxo, ou caudal (vazão, em brasileiro) de palavras saídas das bocas das pessoas: um dirac, segundo eles, os amigos de Dirac, seria uma palavra por minuto.

 

* Mas ao contrário, por exemplo, “uma colher de sopa de azeite”; “um golpe de vinho branco” e “uma mão cheia de sal” são expressões conhecidas, incontestadas e correntes de medidas em culinária.

 

** Exatidão de medição: Grau de concordância entre um valor medido e um valor verdadeiro duma mensuranda.

NOTA 1 A “exatidão de medição” não é uma grandeza e não lhe é atribuído um valor numérico. Uma medição é dita mais exata quando fornece um erro de medição menor. [VIM 2012]

 

*** Dirac parece ter sido – dizem alguns – uma pessoa (muito) especial. Certa vez, num congresso, ou evento científico idêntico, quando apresentava uma comunicação, a certo passo, alguém da assistência disse que não compreendia uma expressão acabada de escrever no quadro. Dirac terá olhado para a pessoa que havia intervindo e, de seguida, prosseguido a exposição. Perguntado pelo moderador se não queria responder, Dirac retrucou que o interveniente não tinha feito nenhuma pergunta, só tinha produzido um comentário!

 

2021-12-30

ZERO METRO; ZERO METROS

ZERO METRO; ZERO METROS

O nada tem dimensões?

 

O zero (0) é um número, como o dois (2), o trinta e quatro (34), ou qualquer outro número, como o complexo 5−7i, com parte real (5) e parte imaginária (−7). Mas, já não é consensual considerar o zero um “número natural”, embora seja um “número inteiro”. O zero também tem propriedades únicas: não pode ser usado como divisor e “anula” qualquer outro número que por ele (zero) seja multiplicado.

O expoente zero transforma todos os números x em “1”: x0=1; contudo, 00 (zero levantado a zero) é indeterminado!; pode ser qualquer coisa.

(Em português, dizer de alguém que “é um zero à esquerda”, é uma desqualificação, é chamar‑lhe insignificante. Já um carro “zero quilómetros” é um carro novo, embora possa realmente já contar com algumas dezenas de quilómetros.)

O zero (número), e o símbolo que o representa, é uma criação moderna: como número começou a mostrar-se útil e a “fazer carreira”, no Ocidente, na Idade Média. (Embora não tenha aparecido de repente e o conceito tenha feito um longo caminho desde há milénios.)

Quando não temos dinheiro não dizemos “tenho zero euros”, dizemos: –  não tenho dinheiro! Quando não há quadrados (embora possa haver círculos) numa folha de papel, não falamos em quadrados de 0 m2 de área; aliás, terá sentido falar de quadrados de 0 m2?

“Zero” parece representar o nada, o vazio, a não-existência: faz sentido atribuir unidades (físicas) ao zero?: 0 m; 0 kg; 0 s?! * (Contudo, 0 °C não é ausência, ou o início da temperatura: 0 °C são 273,15 K. O zero poderá ser um ponto de passagem; por exemplo, o início do Universo – o “Big Bang” – poderá ser só um ponto de referência, de “passagem”, não o início do mesmo Universo.)

“Zero” poderia significar que a mensuranda não existe**? Todavia, quando medimos, medimos de zero até um determinado valor diferente de zero. E quando nos deslocamos, podemos sempre retroceder e voltar ao ponto de partida – o ponto zero – e podemos até, recuando para além do ponto de partida (o ponto zero), percorrer distâncias negativas! (É interessante e útil, por exemplo, com um pêndulo oscilante, eleger um ponto, o ponto zero, como referência para a análise das oscilações do mesmo.)

Porém, ”zerar” *** é um termo corrente na indústria de manufatura, em particular a indústria de manufatura “de precisão”; e até no comércio, quando, por exemplo, uma balança, sem qualquer objeto sobre o prato, apresenta no visor um valor diferente de zero.

E com a (pandemia e doença) Covid-19 tornou‑se conhecida a expressão “paciente zero” para designar o primeiro paciente de uma população que alegadamente teria sido o introdutor e disseminador de uma doença transmissível. (Por que não “paciente um”?)

 

* A expressão “0 m” lê‑se “zero metro”, no Brasil e em concordância com o sistema metrológico SI; mas, em Portugal, diz‑se “zero metros”.

 

** Às soluções (ou raízes) de uma função (ou equação) é frequente chamar‑se‑lhes “os zeros da função”.

 

*** “Zerar” é termo correntemente usado na indústria, especialmente nas áreas onde são usados instrumentos metrológicos (digitais), e significa, em geral, fazer o “reset” do instrumento (na ausência de mensuranda), impondo‑se uma leitura “zero” nos visores

 

2021-12-23

EVOLUÇÃO METROLÓGICA

EVOLUÇÃO METROLÓGICA

Terminologia e instrumentos

 

A Metrologia ainda não está tão estabilizada como outros ramos do conhecimento, do saber e do fazer. (Contudo, hoje, nada parece estabilizado.)

Apesar da ancestralidade da metrologia prática, a Metrologia (teórica) é ainda relativamente recente, como recente é o seu diálogo com a Ciência, a Indústria, o Comércio e a Tecnologia tout court.

(Hoje em dia quase todos estão familiarizados com novidades metrológicas e sabem, entre muitas novidades, para que serve, por exemplo, o oxímetro.)

Um outro ramo da Metrologia não despiciendo e de relevância para o cidadão comum, sem que em geral ele se dê conta disso, é a Metrologia Legal.

Todavia, as novidades metrológicas mais frequentes são sobretudo e predominantemente tecnológicas, ainda que muitas delas de grande sofisticação.

Para o cidadão comum (e não só), é espantosa a sofisticação, por exemplo, dos sistemas de deteção e medição das ondas gravitacionais. Mas não deixa de ser também espantoso o progresso na multiplicidade de sistemas, ainda que quase domésticos, que medem por exemplo, a poluição, a composição de substâncias e as grandezas biofísicas.

Porém, o progresso (metrológico) materializado em algumas novidades são de âmbito local, regional e quase paroquial; outras são terminológicas, lexicais, quase irrelevantes.

Por exemplo, a recomendação (VIM 2012) de que se deve escrever (em português) kilograma*, em vez de quilograma, por que, segundo a nova ortografia, o “k” já integra o alfabeto português, não é seguramente um grande avanço, embora seja um progresso na uniformização e universalização da terminologia (metrológica). (O rigor elimina as ambiguidades, atropelos e conflitos.)

Mudou (em 20 de maio de 2019) a definição de kilograma (embora isso não tenha consequências nas pesagens correntes); e mudou o padrão desta unidade.

Mudaram também, na mesma data, as definições do ampere (unidade de base SI de intensidade de corrente elétrica, símbolo, A); da mole (do mol, em brasileiro, símbolo, mol; unidade de base de quantidade de matéria, também conhecida como a ”dúzia” dos químicos, aparentemente irrelevante em outras áreas, e candidata à despromoção como unidade de base do SI), e do kelvin (unidade de base SI de temperatura absoluta, símbolo, K) e os respetivos padrões metrológicos.

 

* De modo idêntico, dever‑se‑ia escrever kilometro – com duas alterações relativamente à forma antiga, quilómetro: k, em vez de qu, e o, em vez de ó.

A forma kilometro, em vez de kilómetro, justificar-se-ia pela regra do SI que diz que os nomes dos múltiplos e submúltiplos das unidades se formam apondo os prefixos (SI) às designações das unidades: o prefixo é kilo-, e não kiló-, e muito menos quiló-; e a utilização da letra “k”, agora que já integra o alfabeto português. (Todavia, as regras gramaticais de cada língua não são facilmente descartáveis.)

Assim, por exemplo, também deveríamos escrever “milimetro”, uma palavra grave, com acento tónico em /me/, e sem acento gráfico (antigamente, “milímetro”, uma palavra esdrúxula, com acentos tónico e gráfico em //); “centimetro” em vez de “centímetro” e decametro em vez de decâmetro, entre outras unidades.

 

2021‑12‑16

MEDIR A INTELIGÊNCIA

MEDIR A INTELIGÊNCIA

Medir, imperativo civilizacional?

                 

Aquilo que nós passámos não dá para medir com um metro nem pesar com uma balança (“O fim do homem soviético” – Svetlana Aleksievitch).

Não se pode medir uma grandeza que não está (bem) definida de modo objetivo (e universal) e da qual não se conhecem relações com outras grandezas mensuráveis.

Quando lemos que D. João II (o “Príncipe Perfeito”, rei de Portugal) era mais inteligente do que o Infante D. Henrique (o das Navegações, Caminhos Marítimos, Descobertas, Achamentos, Reconhecimentos), gostaríamos de saber quanto mais inteligente: 20%?!, 30%?!, 50%?!

(Ocorre dizer da inteligência o que alguém dizia da “qualidade”: não sei o que é, mas reconheço-a quando a vejo.)

Também não sabemos abaixo de que valores da inteligência começa a estupidez, já que, aparentemente, uma seria a antinomia da outra. (Mas sabemos, pelo pH, quando acaba a acidez e começa a alcalinidade.)

A inteligência pode variar episodicamente: quem beber muito (álcool) fica transitoriamente menos inteligente – pese embora, em geral, fique mais desinibido!, com mais inteligência emocional(?!) –, mas, não perde altura, nem peso, nem perímetro abdominal!

Mede-se a inteligência através do(s) QI – Quociente(s) de Inteligência! (Parece haver várias métricas e variedades de inteligência.)

Einstein atingiu 160, tal como Bill Gates, mas uma adolescente inglesa que mediu o seu QI em 2014 conseguiu um pouco mais do que eles.

(Há quem diga que “inteligência” é o que resulta da determinação do QI!)

O QI não tem unidades; o QI é adimensional, como um juro, ou um ratio. (Há gente com elevado QI e comportamento risível: nabos inteligentes?!)

Há vários critérios e escalas para medir a inteligência.

O valor da medida da inteligência depende das técnicas, dos métodos e dos procedimentos de medição: não tem – para já – grande reprodutibilidade, um conceito (técnico) metrológico.

E certamente, também a beleza, a fé e a felicidade, entre muitas outras virtudes, capacidades e talentos seriam (se quiséssemos) mensuráveis.

Também ousamos medir, por exemplo, o desenvolvimento económico, social e cultural de uma comunidade. Ou, entre outros, pesar um desastre, em euros, ou outra unidade monetária.

Dizem os especialistas que há inteligências e não a inteligência: há inteligência para o xadrez, inteligência para a matemática, inteligência para os negócios, entre muitas outras modalidades. São dezenas e dezenas de inteligências caracterizadas pelos estudiosos (da inteligência). (Há idiotas inteligentes?!)

Se a inteligência (um talento, não uma grandeza) é essencialmente a capacidade de adaptação, então, até as amibas são inteligentes! Sem esquecer os caracóis, as sardinhas e os crocodilos.

Não se mede o movimento (um fenómeno): mede-se distâncias, velocidades e acelerações, por exemplo. Não se mede a luz: mede-se a sua velocidade, a(s) sua(s) frequências e o(s) seu(s) comprimento(s) de onda, entre outras grandezas.

Em determinadas áreas, corporações e atividades, pretende-se medir o mérito; frequentemente, os proponentes de critérios e medidas do mérito costumam ficar bem classificados, ou medidos, de acordo com esses mesmos critérios e medidas. (O mérito será um fator que promove e desenvolve a desigualdade?!)

Medir não é só uma compulsão e um imperativo civilizacional: às vezes é também uma atitude e um processo oportunista.

 

2021-12-09

MÉTRICAS DA PERCEÇÃO

MÉTRICAS DA PERCEÇÃO

Perceção e realidade

 

Muitas opiniões e narrativas são suportadas (só) por perceções e, eventualmente, por métricas explícitas, ou implícitas de perceção; outras poderão ser suportadas por medidas, por resultados de medições.

As opiniões* são, em geral, baseadas em perceções.

(Aquilo a que chamamos “realidade” é sempre uma perceção – com instrumentos, ou sem instrumentos –; porém, menos discutível e discutida quando levada a cabo com instrumentos.)

Há muitas e variadas métricas (e barómetros) da perceção**.

Por exemplo, os indicadores (internacionais) da corrupção, entre outros, são indicadores da perceção das pessoas quanto à corrupção. Esta perceção vai mudando com a data e o local do inquérito, e com a amostra tomada para a determinação.

Entre outras, a métrica da dor só pode ser uma métrica da perceção (da dor), ainda que também uma métrica de manipulação (por parte do doente, ou paciente).

(Aparentemente, o que conhecemos é o resultado da perceção e das interpretações do nosso cérebro; tal como se não acedêssemos aos próprios objetos, mas só às suas sombras e aos seus avatares.)

Quando o leitor pesquisa o valor da temperatura instantânea, ou atual, na sua cidade, além de encontrar, por exemplo, 18 °C (uma medida instrumental), poderá encontrar ainda a indicação da perceção (ou sensação) da temperatura***: 17 °C, ou outro valor próximo de 18 °C. (Poderá também encontrar um terceiro valor, a temperatura prevista no mesmo lugar para daí a 2 h, por exemplo.)

Algumas técnicas e dispositivos poderão fazer com que o que ocorre no ecrã do cinema – um espaço 2D onde são projetadas imagens 2D – proporcionem, com alguns filmes, a perceção 3D.

Quando o balconista dos correios sopesa uma carta, ou outro item para expedição, geralmente acerta na avaliação do (intervalo provável do) peso.

O faroleiro, o pescador e o surfista, usualmente, são bons avaliadores da altura das ondas que observam.

É incontável o número de especialistas que, partindo de perceções nos domínios das suas vivências e experiências, fazem boas avaliações, avaliações consistentes com as medidas instrumentais.

 

* Por vezes descobrimos que as métricas que nos são apresentadas são criadas pelos opinantes, espontaneamente; principalmente as métricas percentuais.

É frequente os pais criarem métricas com que fundamentam as respetivas opiniões quanto, por exemplo, ao peso dos filhos.

Numa fase aguda da pandemia covid-19, um “cientista que liderava uma equipa britânica da Universidade de Oxford garantia que estava 80% confiante numa vacina eficaz e que podia estar pronta em seis meses.”

 

** Entre muitas, muitas outras, vai valendo, por exemplo, a “Escala de Scoville” que mede a intensidade dos picantes!

 

*** “Sensação térmica ou temperatura aparente é a forma como os nossos sentidos percebem a temperatura do ar, e que pode diferir da temperatura real.” [in Wikipédia]

 

2021-12-02

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