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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

METROLOGIA E GRAMÁTICA

METROLOGIA E GRAMÁTICA

Decibéis ou decibels? Pascais ou pascals?

 

É frequente haver dois ou mais termos ou variantes (eruditos, populares e técnicos) para um conceito.

Qualquer área técnica, científica, artística, entre outras, tem alguns conceitos e termos próprios, com frequência, pouco vulgarizados.

Frequentemente, muitos destes termos têm origem em diversas línguas (com prevalência na inglesa) sendo adotados por e adaptados a outras línguas, nomeadamente à portuguesa (aportuguesamentos)*.

Se, em português, se diz um nariz e dois narizes; uma vez e duas vezes; por que não um hertz (1 Hz) e dois hertzes (2 Hz), em vez de dois hertz, como querem as autoridades metrológicas?!

Se, em português, se diz um avental e dois aventais; um postal e dois postais; por que não um pascal (1 Pa) e dois pascais (2 Pa), em vez de dois pascals?!

De modo idêntico para o decibel: um decibel (1 dB), dois decibéis (2 dB), e não dois decibels**.

E também píxeis, e não pixels (plural inglês de pixel), para o plural de píxel.

Não se pode/deve dizer/escrever pascais?

Parece haver confusão entre Pascal (nome de pessoa, substantivo próprio) e pascal (nome, ou substantivo comum, como as palavras sal, quintal e pardal) criado em homenagem àquele filósofo, matemático e cientista.

Na Metrologia mandará o SI, na gramática e léxico (de cada língua) mandam os falantes da língua***, em princípio, respaldados, avalizados e certificados pelos seus linguistas.

“0,5 g” poderá ler‑se “meio grama” e, alternativamente, “zero vírgula cinco gramas”?

 

* Quem não conhece a expressão “por defeito” (do inglês by default) para os portuguesíssimos “por norma”, “por sistema”, “por omissão”!? Todavia, não faltam linguistas a abençoar aquela expressão (“por defeito”). Os linguistas, em geral rendidos à inércia dinâmica da fala de um povo, também servem para atestar, certificar e validar aquilo que alguns falantes e escreventes já usam. (Antigamente, os linguistas pareciam dirigir e iluminar o caminho da língua, hoje, a cada novidade, dizem amém, na hora!)

Todavia, entre outras, as expressões “por defeito” e “por excesso” têm significado específico e inambíguo nos arredondamentos de, por exemplo, resultados de medições.

 

** Contudo, não nos sentimos muito chocados com bar/bars (pressão e tensão); volt/volts (diferença de potencial elétrico, ou tensão elétrica).

Bar/bares refere-se a estabelecimentos de restauração; volt/voltes é uma forma verbal de voltar.

 

*** Frequentemente, comentadores, cronistas e jornalistas, entre outros, assinalam em rodapé dos seus escritos que não seguem o novo acordo ortográfico. Contudo, muitas vezes, julgando por algumas passagens dos escritos dos mesmos comentadores/pensadores/intelectuais, eles não parecem seguir acordo algum.

Estas atitudes (anti‑novo‑acordo) poderão dever-se – quem sabe? – a preguiça, falsa erudição e reacionarismo linguístico, entre outras justificações pessoais dos desalinhados do novo acordo ortográfico.

 

2020‑09‑24

MEDIR CONJUNTOS

MEDIR CONJUNTOS

Contar indivíduos

 

Contar pombos, raposas e pessoas poderá não ser só … contagem*.

Quem diz contar coelhos e pardais, diz pesar os peixes todos que há no mar.

Contar pessoas, por exemplo, numa manifestação, poderá ser um processo aberto a polémicas: sindicatos, governos e entidades patronais – e até diferentes entidades dos media, alegada e presuntivamente independentes – entram frequentemente em disputas e desencontros quanto ao número (verdadeiro, efetivo) de participantes em cada manifestação**.

Todavia, quando há uma grande quantidade de pessoas (ou outros animais), esta (quantidade) é geralmente muito dinâmica pelo facto (fato, em brasileiro), entre outros, de haver constantemente uns indivíduos a entrar e outros a sair.

Contar, por exemplo, os pombos de uma cidade poderá ser, e é forçosamente, um pouco mais do que uma estimativa, não uma contagem (exata) tout cours.

A partir de contagens, por exemplo, de subconjuntos de pombos, poderemos estimar, geralmente com ferramentas e processos estatísticos, a dimensão da população total local (de pombos)***.

Por um lado é impossível aprisioná-los todos (num determinado momento) para os contar, e por outro lado poderá haver a todo o momento uns pombos a entrar e outros a sair da zona.

O mesmo sucede com o número de pessoas numa cidade, numa manifestação, ou num jogo de futebol, embora, neste último caso, o número de entradas/ingressos vendidos seja uma boa aproximação, melhorada se adicionarmos os penetras e subtrairmos os que compraram ingresso e não compareceram.

podemos medir a granulometria de um conjunto (geralmente grande) de grãos de areia: o calibre de cada grão é, em geral, irrelevante, inútil e difícil de determinar.

 

* Por exemplo, os indicadores per capita, em geral, são medidas de conjuntos (de pessoas).

 

** Contar pessoas não pode ser como alguns humoristas sugerem: “contar o número de pernas e dividir por dois”.

Um critério comum consiste em estimar – com base em observação direta, fotográfica ou outras imagens – o número de pessoas por metro quadrado (pessoas/m2); determinar a área da mancha ocupada pelos manifestantes; e fazer o cálculo: “pessoas/m2” vezes “área da mancha da manifestação”.

 

*** Poderia adotar‑se o método seguinte: aprisionam‑se alguns pombos, uma amostra (P1) da população de pombos da cidade (Pc), que são marcados, por exemplo, com anilhas. Soltam‑se. Depois de um período razoável (?!) de homogeneização (de pombos anilhados por entre os não anilhados), aprisiona‑se uma nova amostra de pombos (P2); agora aparecerão nesta amostra uns com anilha (P2a) e outros sem anilha (P2b; sendo P2a+P2b=P2).

Em primeira aproximação – mas podem  ser feitas iterações do processo –, a percentagem de pombos anilhados presentes na segunda amostra (P2) será igual à de todos os pombos anilhados relativamente a toda a população de pombos, isto é, P2a/P≈ P1/Pc. Nesta equação é tudo conhecido, exceto Pc, a incógnita (o número de pombos da cidade), que fica assim determinada por esta relação.

(Os cínicos poderão argumentar que este método não é confiável por que só os pombos estúpidos se deixam apanhar.)

 

2020‑09‑17

MEDIR A IDADE DA TERRA

MEDIR A IDADE DA TERRA

Kelvin contra Darwin

 

(Repetição da crónica de 2017-11-02)

Pelo calendário juliano* e segundo um exegeta, a Terra foi criada no dia 23 de outubro de 4004 a.C., às nove horas da manhã, na Mesopotâmia.

Isto sim! Isto é assertividade! Isto é rigor! Isto é precisão! A Terra teria nascido às nove horas da manhã!!, na Mesopotâmia! E a Mesopotâmia estava onde?

Porém, acerca da Terra, e da idade da Terra, houve muitas disputas, discussões e polémicas; e ainda há! A Terra teria sido criada 4000 a.C.; ou 4004 a.C.; ou 3929 a.C., entre outras idades. É só pegar no calendário gregoriano (ou no juliano) e na Bíblia, e fazer (as) contas!

Contudo, hoje, imaginamos estas discussões só à mesa do “café” e afins, entre caturras e balhelhas, ou outros opinantes indiferenciados, contumazes e rebarbativos, com conhecimentos e sabedoria especiais, mas, sem dados, nem informação objetiva; talvez com alguns dados e com informação não autenticados, mas com cinismo, com , ou só com obstinação.

Todavia, à data a que algumas daquelas coisas foram escritas, ou ditas (e ainda aceites por muita gente), não havia a informação autêntica que há hoje.

Com os dados disponíveis na altura, não seria possível ir muito mais longe; descontando as posições provocatórias de alguns. Contudo, ainda hoje, com mais dados (para quem quiser usá-los), há pessoas que, por ignorância, arrogância discursiva, ou provocação militante, continuam a usar os dados primitivos, bíblicos, ou outros.

Com outros dados, diferentes dos dados primitivos que proporcionaram aquelas conclusões – agora risíveis –, parece que Darwin (descobridor da Evolução) e Kelvin (importante contribuinte da Termodinâmica) também se terão envolvido em polémica acerca do mesmo problema – o da idade da Terra – mas, com argumentos mais substanciais, mais sérios.

Kelvin e Darwin, dois grandes cientistas e dois grandes egos, aparentemente não se admiravam mutuamente e, a certa altura, quando Darwin terá feito saber que a Terra teria cem milhões (100∙106=108) de anos, Kelvin, terá pretendido contrariar aquele valor afirmando que a Terra teria noventa e sete milhões (97∙106=9,7∙107) de anos.

Kelvin teria feito os seus cálculos com base no gradiente radial da temperatura terrestre (variação da temperatura ao longo do raio terrestre) então conhecido.

Darwin teria fundamentado as suas conclusões na extensão temporal (necessária) para os períodos de “evolução das espécies”.

Kelvin parece ter referido que Darwin estava redondamente enganado! Na verdade, para a natureza das bases dos cálculos, e para a diferença entre ambos os resultados (100 contra 97), a diferença de 3% é abissal (?!). (A estimativa presente é de uma idade cerca de cinquenta vezes superior; as aproximações de Kelvin e de Darwin são só cerca de 2% do valor atual!)

Os cálculos de um e outro cientistas seriam consistentes com os dados e informação então disponíveis, mas seriam simplistas, como sucede frequentemente com os precursores de novas áreas do conhecimento.

Na narrativa científica hoje vigente, a idade da Terra é calculada com base nas quantidades de elementos químicos provenientes da decomposição de outros elementos tidos por primitivos e contemporâneos do nascimento da Terra que seria, indicativamente, de quatro mil e quinhentos milhões (4,5∙109) de anos.

 

* Hoje, entre nós, está em vigor o calendário gregoriano. Um (juliano) e outro (gregoriano) nasceram com cerca de mil e seiscentos anos de diferença, mas não há grande complexidade em pô-los em correspondência, mesmo regressivamente, para datas anteriores às suas criações. Ademais, não são muito diferentes as datas de um e outro para qualquer evento; as datas de um evento, num e noutro calendário, diferem apenas de alguns dias.

 

2020‑09‑10 (1ª publicação: 2017-11-02)

CONTAR OU MEDIR?

CONTAR OU MEDIR?

Contava-se; agora mede‑se

 

Umas coisas medem‑se (são medidas), outras coisas contam‑se (são contadas)*. Há coisas que às vezes são medidas, outras, contadas.

Algumas grandezas são medidas (comprimentos, massas e forças, entre muitas outras), outras entidades são contadas (oliveiras, tijolos e cabras, por exemplo); e outras, às vezes medem‑se, outras vezes contam‑se.

Umas coisas contam‑se umas vezes, e medem‑se em outras (vezes).

Afinal, medimos a nossa idade – uma consequência de o tempo ser uma grandeza contínua – ou contamo‑la (com números inteiros: 7, 8, 9, … anos)?

Contamos pessoas, mas, por vezes, parece que elas (os conjuntos delas) poderiam ser processadas como se fossem grandezas contínuas: um certo vírus, em certa altura, estava a transmitir‑se de 1 (uma pessoa) a 2,68 (duas pessoas e sessenta e oito centésimos de uma pessoa)!

O dinheiro conta-se, ou já se mede**?

Por outro lado, correntemente, contamos o tempo (contamos segundos, minutos e horas) apesar de o mesmo ser uma grandeza contínua e não (grandeza) discreta***.

E, apesar das “quantidades de pessoas” serem valores discretos, não faltam situações em que são processadas como grandezas contínuas: a taxa de natalidade dos humanos, num país, num certo período, foi de 9,2 (uma permilagem)!

Mede‑se a idade de uma árvore, contando os anéis.

De entre os que se debruçam sobre línguas e dialetos, em alguns casos, uns dizem que certos falares são línguas, outros opinam que os mesmos são dialetos; e há tantos e tantas – dialetos e línguas – que há quem considere tratar-se de um “continuum dialetal”.

 

* Na verdade, as medições são contagens; contamos o número de unidades em que expressamos a intensidade de cada grandeza; por exemplo, nos comprimentos, distâncias ou deslocamentos, usamos unidades de conta(gem) como quilómetros (kilometros, 1000 m) e ioctómetros (ioctometros, 10−24 m), entre outras. Nas medições, não há como fugir às unidades de conta(gem).

 

** Estamos habituados a “contar o dinheiro”: o euro tem “meia dúzia” de submúltiplos materializados em moedas de diferentes materiais metálicos, e “meia dúzia” de moedas e notas múltiplos do euro. Guardamos estes artefactos no bolso, na carteira, ou porta‑moedas e manuseamo‑los e contamo‑los quando fazemos pagamentos e recebimentos. E não há peças fiduciárias de valor inferior a um cêntimo (0,01 €), nem superior a quinhentos euros (500 €).

Todavia, quando, por exemplo, compramos cinquenta “unidades de participação” (50 UP) de um produto financeiro cujo custo unitário é 10,012 05 € (!), temos que desembolsar 500,602 50 € (!). Ora, poucas grandezas físicas (contínuas), e poucas vezes, são correntemente representadas com tantas casas decimais!, embora, evidentemente, o débito da subscrição (do produto financeiro) na conta do comprador seja feito com arredondamento ao centésimo do euro, ou, ao cêntimo.

 

*** Com a Mecânica Quântica, especialmente à escala atómica, tudo (mesmo tudo!) é discreto, quantizado, granularizado! Até o espaço­‑e‑o‑tempo têm os seus limiares.

Entre outras consequências, com a Mecânica Quântica deixa de ser necessário recorrer ao infinito (é obra!). (E, por consequência, não acabaria o irmão do infinito, o transcendente?!)

 

2020‑09‑03

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