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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

TANTAS MEDIÇÕES!

TANTAS MEDIÇÕES!

Que alternativas às medições?

 

– Porquê tantas medidas? – pergunta o “Miguelito”, a observar o “Filipe” que manuseia uma régua enquanto constrói um avião de papel.

– Porque quero que este avião me saia bom – responde o “Filipe” *.

Na fábrica de automóveis, “muitas medições” significa, em geral, medição de muitas grandezas**. No laboratório científico, “muitas medições” significa, geralmente, repetições das medições de uma mesma grandeza para diminuir a “incerteza de medição”.

Hoje, até a fruta é medida!

“Tudo pode ser medido”, dizia alguém, e concluía, avisando, “mas só algumas medições valem a pena”.

Impostos, portagens e taxas sobre carros dependem de características geométricas, físicas e químicas (medidas) dos mesmos carros e do seu funcionamento.

Também pagamos tanto mais de impostos quantos mais litros de combustível comprarmos: pagamos “impostos ao litro”.

Pagamos o dobro de IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) por dois quilogramas (2 kg) de arroz do que pagaríamos por um quilograma (1 kg, do mesmo arroz).

O custo da água é proporcional (quantos mais metros cúbicos, mais custa) e progressivo (o preço por metro cúbico aumenta de acordo com escalões) relativamente à quantidade consumida e ao respetivo reflexo nos impostos e taxas.

Bruxelas – a capital da União Europeia – parece ter uma propensão de tudo regular, regulamentar e medir, tendo até regulado e regulamentado os pepinos***, com base na sua curvatura****.

A muitos cidadãos parecem exageradas tais atitude e esforço da UE (União Europeia): valem a pena algumas destas medições?

Aparentemente, haverá uma má vontade generalizada contra a UE que tudo quer controlar e … medir, e parece que muitos acham isso um exagero; mas quais são as opções (alternativas)? (Em muitos países da UE quer‑se critérios políticos circunstanciais – funcionários superiores decidindo a sentimento – e não critérios técnicos – esses tecnocratas desumanos! – para as decisões.)

Os portugueses parecem ser dos que mais ridicularizam estes pruridos e esquisitices europeias; entre outros, os portugueses parecem ser muito avessos ao rigor, à legalidade e à objetividade. E também avessos à burocracia, que confundem com processos administrativos.

Na verdade, com medições deixa de ser possível ter tantas opiniões como muitos costumam gostar de emitir.

É que as medidas são mais difíceis de contornar do que as características de natureza adjetiva, adverbial e qualitativa, isto é, não quantificadas.

 

* Quino, numa tira da banda desenhada “Mafalda”.

 

** Um produto industrial é frequentemente um “LEGO” em que cada peça encaixa noutras e as suas dimensões não gozam de autonomia e independência (absolutas); as peças têm interligações necessárias e suficientes para constituírem (em/no conjunto) um sistema funcional.

 

*** Máximo de dez milímetros (10 mm=1 cm) de curvatura (flecha) para dez centímetros (10 cm) de comprimento.

 

**** Curvatura, c (m−1, “por metro”, unidade SI), é o inverso do raio de curvatura, r (m, metro, unidade de base SI): c=1/r.

 

2020‑06‑25

REGRAS COM MEDIDAS

REGRAS COM MEDIDAS

Guias, alertas, alarmes e mandamentos

 

Em alguns meios, áreas e círculos profissionais (mas não só) são correntes alguns princípios, bases e mnemónicas, frequentemente quantificados, ou constituídos por conjuntos de medidas que fornecem orientações ou referências úteis para, por exemplo, o início de (re)ações relevantes, inadiáveis, ou até críticas.

São regras, mandamentos, guias, e bases orientadoras para incontáveis e variados fenómenos, processos e situações. Sem contar com as numerosas normas técnicas, cheias de especificações – métricas –, geralmente compulsórias/obrigatórias, que existem para serem cumpridas em muitas atividades e domínios.

Entre outros, os profissionais relacionados com os fogos e os incêndios têm a orientação dos três trintas para os fatores favoráveis ao início de incêndios: temperatura acima de trinta graus Celsius* (30 °C); humidade abaixo de trinta por cento (30%); velocidade do vento superior a trinta quilómetros por hora (30 km/h).

Para a repartição das atividades diárias de cada um, recomenda-se correntemente, e de acordo com um mandamento popularizado há muitos anos por uma encíclica papal: oito horas (8 h) de trabalho, oito horas (8 h) de descanso e oito horas (8 h) de lazer.

E, entre outras, a regra 20‑20‑20 para a prevenção de problemas de visão durante a leitura, depois dos trinta e cinco anos de idade: parar a cada vinte minutos (20 min, não 20 m) durante vinte segundos (20 s, não 20 seg), e olhar para uma distância de vinte pés (20′, 20 ft, cerca de seis metros, ≈6 m) – pese embora a mistura de unidades de diferentes sistemas metrológicos. (Mesmo científica e tecnicamente não há ainda uniformização – total e global – dos sistemas de medição!)

Em outras áreas da saúde são também correntes as combinações de medidas para diagnosticar disfunções, doenças e anomalias. Por exemplo, os sinais vitais e os valores apropriados da temperatura corporal, da pressão (tensão) arterial e do ritmo cardíaco.

Há muitos outros mandamentos (regras, indicadores e guias) com medidas. Quase todos conhecem o exemplo da putativa correlação (?) da altura com o peso de cada pessoa: se um adulto comum tem de altura 1,ij m (um metro e ij centímetros; i e j são dígitos), seria desejável que tivesse, indicativamente, ij kg de peso. Por exemplo, se alguém tem de altura 1,72 m – ij igual a 72 (centímetros) – de altura, deveria ter, indicativa, conveniente e desejavelmente, um peso de 72 kg. Poderia alguém mais apressado perguntar: um centímetro de altura (acima de um metro) equivale** a um quilo de/no peso?!

E quando a altura da pessoa é expressa em pés e polegadas?!

 

* Lê‑se “trinta graus Celsius” (30 °C), ou, admitem alguns, trinta celsius.

 “30°” são “trinta graus” de arco, ou de ângulo; “30° C” ler-se-ia “trinta graus, Coulomb” (sem significado), já que, segundo o SI, “°” é o símbolo de “grau”, “C” (cê maiúsculo) é o símbolo de coulomb (unidade de carga

elétrica, designação que começa com cê minúsculo – c; “°C” é a expressão simbólica SI de “grau Celsius”, ou “celsius”.

 

** Do jornal: Com 1,58 metros de altura, a assistente de bordo deveria pesar (segundo os padrões da empresa) 59,9 kg (?). Com 60,3 kg, a funcionária acabou por não cumprir o estipulado nas regras. E foi despedida. (Sublinhado do autor desta crónica.)

 

2020-06-18

HIGRÓMETROS COM CABELO

HIGRÓMETROS COM CABELO

Transdutores improváveis

 

Os cabelos (de origem animal), como, por exemplo, o cabelo humano, geralmente perturbam as medições. Cabelos e quaisquer outros pelos, pó e sujidades em geral embaraçam os sistemas metrológicos e, por isso, em muitos laboratórios metrológicos os metrólogos, ou metrologistas, usam dispositivos protetores semelhantes aos que são usados por profissionais de outras áreas sensíveis e delicadas: saúde, alimentação e farmacêutica, por exemplo.

Todavia, higrómetro com cabelo é higrómetro de cabelo.

Não é cabelo no higrómetro, como cabelo na sopa, não!, é higrómetro feito com cabelo; o cabelo como sensor – elemento sensibilizável –, e como transdutor, um elemento que transforma um fenómeno, ou uma grandeza (variação da humidade atmosférica, neste caso) em um outro fenómeno, ou outra grandeza (variação do comprimento do cabelo).

Um higrómetro* serve para medir a humidade na atmosfera, isto é, para medir o valor relativo do vapor de água na atmosfera, e o cabelo, nomeadamente o cabelo humano, tem uma reação consistente, coerente e congruente com a variação da humidade.

Muitos higrómetros usam cabelo humano como elemento fundamental na sua cadeia de medição**, isto é, no conjunto dos elementos materiais por onde circula o sinal processado pelo instrumento.

A humidade (ou falta dela) deforma os cabelos que servem de transdutores*** em alguns higrómetros. Os cabelos dilatam-se ou contraem‑se com a variação da humidade, e este alongamento (dilatação) ou encolhimento (contração) podem ser transmitidos a um conjunto de órgãos e, amplificados, mostrados num visor.

Os transdutores são partes essenciais da cadeia metrológica de um instrumento que, recebendo um sinal de certo tipo, reagem gerando outro sinal de natureza diferente. Por exemplo, um sinal mecânico recebido pelo sensor de um instrumento pode ser transformado em um sinal elétrico pelo transdutor e processado da maneira mais conveniente pelas partes (subsequentes) a jusante da cadeia metrológica.

 

* Higrómetro: medidor da humidade atmosférica, isto é, no ar, ou da humidade em outros gases; é diferente do hidrómetro: medidor do consumo de, por exemplo, água, ou seja, contador (de água), como os das nossas casas.

Hidrante é a designação da conhecida boca-de-incêndio, muito frequente em muitas ruas de zonas habitadas.

Psicrómetro é a designação do higrómetro de evaporação: funciona com dois termómetros, um seco e outro molhado.

Outros higrómetros funcionam segundo outros fenómenos, ou princípios físicos, ou princípios metrológicos, por exemplo, sais metálicos cuja resistência elétrica depende (consistentemente) da humidade atmosférica.

 

** Cadeia de medição: Série de elementos dum sistema de medição que constitui um único caminho para o sinal, do sensor até o elemento de saída.

Exemplo: Cadeia de medição eletroacústica composta por um microfone, um atenuador, um filtro, um amplificador e um voltímetro. [VIM 2012]

 

*** Transdutor: dispositivo que transforma a natureza de um sinal, por exemplo, uma compressão (força de compressão) sobre um corpo (o transdutor) em uma carga elétrica, como sucede em alguns instrumentos de medição com células piezoelétricas.

 

2020‑06‑11

HOMEM: MEDIDO E MEDIDA

HOMEM: MEDIDO E MEDIDA

Por quê e para quê?

 

Medimo-nos; somos medidos e somos medida*.

Se não nos medissem (e medíssemos) não saberíamos que os portugueses são (em média) mais baixos do que os cidadãos de muitos outros países. E para que serve este dado, informação e conhecimento?

Medimos o que podemos; se pode ser medido, medimos; medimos quase tudo.

E mais mediríamos, se soubéssemos como e para quê!

Haverá modo mais objetivo, indiscutível e útil de conhecer do que medir?!

Se as medidas não têm aplicação imediata, poderão, contudo, um dia, vir a ser úteis.

A disponibilidade de recursos metrológicos aguça a necessidade de medir!

Medem‑nos a altura quando pedimos a emissão de “Cartão de Cidadão” e criam‑nos um contador (oficial) de idade registando a data (eventualmente errada) do nosso nascimento, retirando-nos parte da “liberdade de expressão”, para mentir sobre idade e altura.

Não nos pesam (para o Cartão de Cidadão) por que, num curto lapso de tempo, o nosso peso muda! (E a altura também, mas por valores irrelevantes, ou marginais, principalmente em períodos não muito longos: ao fim de cada dia mediríamos menos cerca de um centímetro – 1 cm – do que medimos no princípio do mesmo dia.)

Medimo-nos; medimo-nos há muito tempo, medimos quase tudo o que podemos e sabemos.

Medimo-nos por que … não somos todos iguais.

O conhecido “homem de Vitrúvio”, de Leonardo da Vinci [1452‑1519], e a respetiva ilustração – amplamente divulgada por muitas áreas e domínios, apoiada em dados de Vitrúvio [80 a.C.‑15 a.C.], um arquiteto romano –, é talvez a primeira iniciativa (a mais conhecida) de uma tentativa de usar a Metrologia, melhor, as medidas, na forma, dimensões e proporções humanas**.

(Diz‑se que Leonardo da Vinci media tudo o que pintava.)

Há muitas áreas científicas e técnicas cujas designações espelham a respetiva vertente metrológica: Antropometria; Biometria; Optometria, entre outras.

A (disciplina, ou área da) Engenharia Humana preocupa-se connosco enquanto recursos produtivos e objetos analisáveis, para efeitos de adequação dos humanos a tarefas produtivas e à eficiência dos processos com pendor económico, industrial, comercial e outros. E, nesta área, entre outros domínios, a Ergonomia, além de ter o ser humano como objeto, tem-no também como destinatário.

Medimo-nos para saber quanto diferimos uns dos outros; medimo-nos para escolher e decidir a compra de roupas e sapatos, por exemplo.

Medimo‑nos por fora e medimo‑nos por dentro.

Medimo-nos, ou medem-nos, por exemplo, para efeito das melhores práticas da Medicina: para prevenção de disfunções orgânicas e para diagnóstico clínico.

 

* Os gregos – pela pena de Protágoras, um relativista – já haviam avisado que “O homem é a medida de todas as coisas”. Isto é, o “homem” – cada homem, ou mulher – seria uma bitola, uma referência e um padrão.

 

** Por exemplo, parece haver uma proporção fixa, invariante, no corpo humano, entre outras, entre a altura total, h, de cada pessoa e a altura do respetivo umbigo, ou distância do umbigo ao chão, u, sendo, h/u≈1,618.

E esta proporção (razão) seria aproximadamente o número de ouro, ou número áureo: (1+5½)/2

 

2020‑06‑04

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