Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

TERMOS METROLÓGICOS INCOMUNS

TERMOS METROLÓGICOS INCOMUNS

Termos metrológicos comuns de significado incomum

 

A Metrologia está cheia de termos correntes e comuns, mas de significado próprio, específico, incomum. Também usa termos incomuns.

São instrumentos de nome estranho (esfigmomanómetro, por exemplo); princípios metrológicos ou fenómenos físicos pouco conhecidos (piezoeletricidade, entre outros); conceitos próprios incomuns (rastreabilidade metrológica, exempli gratia).

Mas há muitos mais.

Alguns termos, nomes ou substantivos, qualificativos ou adjetivos, são termos comuns, embora o significado metrológico não o seja. Por exemplo, repetibilidade, reprodutibilidade, verdadeiro, entre muitos outros termos.

Muitos destes termos, palavras ou vocábulos, estão discriminados e definidos no VIM (Vocabulário Internacional de Metrologia)*.

ainda expressões engraçadas: “pesos e medidas” – porquê “pesos e medidas” se os pesos são medidas?! Contudo, a expressão é histórica, é comum e verbalmente mais interessante do que “medidas”!

Mais expressões incomuns, ou de significado incomum:

 

Batímetro – (1) – medidor de profundidades em rios, lagos e mares, mas também (2) – da profundidade de furos em peças mecânicas, embora instrumentos distintos;

Cianómetro – medidor da intensidade do azul, especialmente do céu;

Ciclómetro – montado em bicicletas, mede várias grandezas, se se pedalar;

Cinemómetro – medidor de velocidades, geralmente usado pelas autoridades rodoviárias (radar);

Curvímetro – medidor de distâncias em mapas e outras representações;

Esfigmomanómetro – medidor da pressão (tensão) sanguínea;

Extensómetromedidor de deformações (locais);

Heliómetro – medidor do diâmetro do Sol;

Hipsómetro – medidor da altitude de um lugar, segundo a temperatura a que a água entra ali em ebulição;

Nilómetro – medidor do nível do rio Nilo;

Pedómetro – Contador de passos;

Piezoeletricidade – fenómeno físico e princípio metrológico baseado na relação entre força e carga elétrica gerada em certos materiais;

Pirómetro – medidor de temperatura (alta);

Planímetro – medidor de áreas em mapas e outras representações e figuras, frequentemente integrados com curvímetros;

Rastreabilidade metrológica – propriedade de uma medida e de um conjunto de padrões metrológicos;

Refratómetro – medidor de concentrações de solutos em soluções (líquidas);

Repetibilidademedida da proximidade das várias indicações (leituras) de uma mensuranda, usando um só conjunto de fatores (de medição);

Reprodutibilidademedida da proximidade das várias indicações de uma mensuranda, variando os fatores (de medição);

Verdadeiro – convencional ou de paradeiro desconhecido.

 

*O VIM – Vocabulário Internacional de Metrologia – como qualquer outro produto, vai evoluindo e quando surge uma nova versão, ou apresenta termos novos – eventualmente novos conceitos –, mantem, elimina, ou recicla os conceitos de alguns dos termos de edições anteriores.

 

2018‑12‑27

MEDIR A LUZ

MEDIR A LUZ

Disse Deus – Haja luz!

 

Haja luz!, disse Deus. E disse a quem? Era necessário dizê-lo para que houvesse luz?

E por vontade e palavras de Deus, houve luz. E uns, que escreveram isto, e outros, que isto leram, não teriam tido o mais pequeno indício de que a mesma luz seria palpável, analisável e mensurável.

A luz já precisou de um suporte, de um meio para se propagar – o éter – mas agora desloca‑se sozinha, sem ajudas ou suportes. A Ciência evolui, e o conhecimento comum também, embora mais devagar.

A luz tanto poderá ser/estar uma onda, como uma infinidade de partículas, consoante, literalmente, as experiências dos … experimentadores.

A luz já foi instantânea, imponderável, intocável. A luz, penetrante – mas não tanto como outras luzes que não se veem –, o que poderá ter que não possa ser medido?

Durante muito tempo pensou‑se que a luz seria instantânea, que teria velocidade infinita, apesar da intuição de alguns que a presumiam finita.

Aparentemente, o primeiro que fundamentadamente mediu a velocidade da luz, indiretamente, foi Rømer (1644–1710), estudando o satélite Io, uma lua de Júpiter.

Outros viriam a medi-la* diretamente e, finalmente, a mesma viria a ser fixada (exatamente) como referência, como uma constante física, por convenção, e como limite das velocidades (299 792 458 m/s).

A luz é um fenómeno físico.

Há uma grande quantidade de grandezas associadas à luz, ao fenómeno luz.

Newton (1643–1727), entre outros mesmo antes dele, analisou a luz e mostrou que há luzes, luzes de diferentes cores.

Herschel (1738–1822) mediu a temperatura das luzes de diferentes cores e até das luzes sem cor, como a radiação infravermelha, até aí (de existência) insuspeitada.

Pagamos regularmente a “luz” à empresa fornecedora (de energia elétrica), mas, com “luz” consumimos, por exemplo, calor, frio, imagem e movimento. Popularmente, “luz” é sinónimo de energia elétrica.

O lúmen (lm), o watt (W), o kelvin (K), o quilowatt‑hora, aliás, kilowatt‑hora (kWh), são unidades que aparecem associadas, por exemplo, a lâmpadas e discriminadas quantitativamente nas embalagens de acondicionamento das mesmas (lâmpadas).

 

*Uma técnica que serviu de base à medição da velocidade da luz consistia simplisticamente nisto: num monte instalava‑se uma fonte de luz e em outro monte, convenientemente afastado, colocava-se um espelho. Junto e em frente à fonte de luz instalava‑se uma roda dentada (denteada) de tamanho apropriado de modo que a luz pudesse passar pelo(s) entredente(s). Com a roda parada a luz passa pelo entredente, reflete-se no espelho distante que devolve o raio luminoso que pode ser observado a regressar pelo entredente por onde iniciou a sua marcha. Fazendo girar a roda e aumentando‑lhe progressivamente a velocidade, ocorrerá um momento em que o raio refletido já não encontra o entredente por onde saiu, mas encontra o dente seguinte, que oculta a luz (do olho do observador). O conhecimento da distância entre montanhas, das dimensões dos dentes e entredentes da roda, bem como da velocidade de rotação da mesma roda permite determinar a velocidade da luz.

 

2018-12-20

MEDIÇÃO DE VESTÍGIOS

MEDIÇÃO DE VESTÍGIOS

Traços, indícios, resíduos e vestígios

 

Num alimento embalado não há impurezas! Só vestígios, ou resíduos disto ou daquilo, consoante o tempo e o lugar.

Os resíduos e os vestígios referidos, por exemplo, nos rótulos de alimentos, são medidos?

E como são medidos os vestígios, os resíduos, os traços e os indícios?

Frequentemente, os rótulos das embalagens de alimentos que adquirimos revelam que há vestígios de uma ou mais substâncias no produto, principalmente daqueles constituintes mais ou menos malditos que andam nas bocas do mundo.

Não são medidos?! Ou, são medidos, mas por falta de exigência legal, de conveniência, ou outras razões, não são reveladas as medidas?

Vestígio é o que, de tão pequeno, não atingiu o limiar de referência (legal, por exemplo), ou, por alguma razão ou manipulação (mediática) que possa causar preocupação ao grande público não é indicado. (Imaginem, numa garrafa de vinho obtido por pisa a pé: “pode conter vestígios de suor, pele e pelos humanos”!)

Se houvesse interesse, até seriam descobertos vestígios de ouro, prata e platina nos alimentos.

Poderemos comprar “cerveja sem álcool”, todavia, ainda com “álc<0,5% vol”, segundo o rótulo!

Também poderia ser acerca de haver resíduos de leite em produtos “isentos de leite”, ou outros produtos ou substâncias diabolizados por alguns grupos mais militantes, mais ativos, mais avançados e autointitulados “bem informados”.

Quem pode garantir a pureza? Quando procuramos medi‑la confrontar‑nos‑emos sempre com, pelo menos, a incerteza de medição (a incerteza da medida) e o poder discriminador (ou resolução) do instrumento de medição (isto é, a não perceção de uma quantidade, ou variação da quantidade de uma grandeza pelo instrumento).

O rótulo deveria registar o que é vestígio, resíduo, indício, ou traço. Contudo, o número de diferentes vestígios e de diferentes substâncias (vestigiais) é em geral incontável. De todas as substâncias fatalmente presentes nos alimentos, com frequência, são os responsáveis pela formação, fermentação e formatação da “opinião pública” que decidem as que são boas, más, ou convenientes.

Das substâncias eventualmente relevantes, qual o valor limiar até ao qual pode ser considerado, por exemplo, vestígio? É a ciência (?) que ajuda a estabelecer!

Será necessário medir, ou tentar medir a substância vestigial? Ou basta garantir que não ultrapassa determinado limite, ou valor?!

Frequentemente, os rótulos dos produtos alimentares embalados e enlatados não revelam as quantidades, ou as percentagens de todos os ingredientes.

Em rótulos de garrafas de, por exemplo, vinho, lê-se “contém sulfitos”. Que quantidade? Mas não se lê, por exemplo, “contém vestígios de chumbo”*.

O que pensar, o que fazer, quando os média (mídia, em brasileiro e em português estrangeirado) informam que “97% dos alimentos testados na UE têm vestígios de pesticidas”?

 

*Poderá haver vestígios de chumbo nos vinhos velhos – os de qualidade, os mais caros –, aqueles que foram produzidos quando as gasolinas não tinham sido expurgadas deste metal que se depositava nas uvas (nas vinhas), passando ao vinho que com as mesmas (uvas) era produzido.

 

2018-12-13

MEDIR EM GRANDE

MEDIR EM GRANDE

Medir o grande e o pequeno

 

Medir a distância da Terra à Lua, medir a capacidade de um petroleiro, ou a velocidade de deslocamento dos continentes, ou das placas tectónicas, não são processos banais.

Como não são processos banais medir a idade da Terra, o tamanho do Universo e a velocidade da luz.

Também sabemos quantos somos, contamo‑nos a nós próprios, coisa que outros primatas – para os não primatas será ainda mais improvável – parece não saberem fazer.

Medir a capacidade de um petroleiro tem interesse reconhecido por todos. Mas, para que serve medir a distância da Terra à Lua? – para lá irmos?! E a velocidade de deslocamento dos continentes? Quem desejar viajar deverá fazê-lo já porque alguns continentes que se aproximam entre si demorarão demasiado tempo a ficar próximos.

Tendo-se libertado da grande quantidade de gelo que as cobriam, há cerca de dez mil (10 000) anos, algumas montanhas da Escandinávia ainda sobem um centímetro (1 cm) por ano.

Há mais de dois mil anos, Eratóstenes mediu o diâmetro da Terra, conquanto ela não seja uma esfera perfeita. E mediu-o (indiretamente) com uma exatidão (precisão) apreciável.

Méchain, no fim do século XVIII, mediu a distância de Dunquerque a Barcelona – ele e outros levaram cerca de dois anos a fazê-lo – para deduzir a medida do meridiano terrestre e daí o metro (unidade) que havia sido definido como o décimo milionésimo (0,000 000 1=10−7) do quarto do meridiano terrestre.

Méchain, um dos cientistas hipotecados ao processo, cometeu um erro e o metro ficou dois décimos do milímetro (0,2 mm) mais pequeno do que seria se não tivesse sido cometido tal erro!

Mede-se a temperatura de uma estrela, a distância a que está uma nebulosa e a data do óbito de um dinossauro.

Podemos medir a altura de uma torre sem lá ir; a largura de um rio sem o atravessar, ou a temperatura de um metal fundido, num forno, sem lá entrar.

Também medimos, indiretamente, calculando algumas grandezas através de outras que já conhecemos.

Para conhecer um triângulo não é necessário medir todos os seus lados: conhecendo um lado e os dois ângulos adjacentes podemos calcular os dois lados restantes: fazemos medições indiretas (dos lados restantes). Os triângulos* são provavelmente as figuras geométricas mais interessantes, mais úteis e mais frequentemente usadas em Metrologia.

Não precisamos de ir à fonte do relâmpago para saber a que distância está a origem do trovão. Pelo intervalo de tempo entre o relâmpago (sinal luminoso) e o trovão (sinal sonoro) e o conhecimento da velocidade do som**, calculamos a distância a que estamos da descarga elétrica – a fonte, ou origem do relâmpago.

 

*”Triangulação” é a técnica frequentemente usada para o “levantamento topográfico” – determinação e medição da geometria – de terrenos, territórios e outras superfícies.

 

**E considerando, para este propósito, a velocidade da luz infinita.

 

2018-12-06

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub