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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

180° OU 360°?

180° OU 360°?

Rodou, está rodado

 

O carro chegou à rotunda e deu uma volta completa à mesma fazendo praticamente 360° – uma circunferência inteira –, e saiu da mesma rotunda pela estrada pela qual entrou, mas em sentido contrário: fez um giro completo, uma rotação completa, que corresponde a um arco (percurso angular) de 360°.

Contudo, se quando o carro se aproximava da rotunda estava orientado no sentido norte-sul, quando saiu da mesma rotunda, após a volta completa, após a rotação completa, estava orientado no sentido sul‑norte, isto é, rodou 180°.

Acontece também com qualquer pessoa que fizer a mesma rotunda, a pé: entra na rotunda de cara virada a sul e, depois de uma volta completa, sai de cara virada a norte. Após uma volta completa, a rotação é 180° ou 360°?

Quem diz “entrar virado a sul”, diz, por exemplo, entrar “virado a noroeste” e sair “virado a sudeste”, após uma volta completa.

Afinal, a rotação é (de) 360° ou (de) 180°?

Qual é a rotação, qual é ela?

E o leitor, quando dá uma volta de carrossel (mais uma volta, mais uma corrida!), no carrossel da feira, a cavalo na girafa, no leão, ou no elefante, roda 180° ou 360°?

Qual é a distância angular – o ângulo – percorrida ao fim de uma volta de carrossel: 360°, ou 180°?

Afinal, a rotação é 360° ou 180°?

Qual é a mensuranda (mensurando, em brasileiro, uma norma do português), qual é ela?

Haverá mais do que uma grandeza e mais do que uma mensuranda em jogo, em palco, em cima da mesa, na rotunda e no carrossel?

Quando cozinheiros, chefs e especialistas de culinária, nos recomendam, para uma determinada receita, que ponhamos o forno a 180°, deveremos rodá‑lo – o forno – de modo a que fique de costas para nós e de porta para a parede? 180°?!

No sentido estritamente técnico, uma revolução é uma volta completa (360°), um movimento que, em princípio, deixaria (quase) tudo na mesma.

No sentido político e social, uma revolução (360°?), em princípio, põe as coisas do avesso, de pernas para o ar (180°?)!

Contudo, muitas pessoas, para informarem que as suas vidas sofreram uma reviravolta – viraram para o sentido contrário –, dizem que as suas vidas levaram uma volta de 360º!

Aliás, as rotações carregam geralmente mais ambiguidades do que as translações. Por exemplo, para os principiantes, é corrente alguma dificuldade com os sentidos horário e anti-horário, retrógrado e direto, negativo e positivo, nas rotações.

Se o leitor se imaginar entre o polo norte da Terra e a Estrela Polar verá a Terra a girar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio (analógico, clássico); se se imaginar entre o polo sul e o Céu verá a mesma Terra a girar no sentido dos ponteiros do relógio, no sentido contrário ao anterior.

Um relógio transparente, quando olhado por trás, mostra os ponteiros a rodar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio!

A definição e caraterização das mensurandas, por vezes, apresentam algumas dificuldades.

 

2017-06-29

CONFIAR NAS MEDIDAS

CONFIAR NAS MEDIDAS

Rastreabilidade metrológica

 

Vários documentos do BIPM (Bureau International des Poids et Mesures) definem grandezas mensuráveis e as respetivas unidades.

Tirando a fraude, a incompetência e o desrespeito por regras metrológicas, quem garante que 1 kg de farinha de milho, no “Supermercado do Povo”, é exatamente 1 kg, de acordo com a definição e o padrão do SI?

Exatamente, talvez não, mas ligado ao quilograma (kg), aliás, kilograma (VIM 2012) SI, isto é, ao padrão depositado em Sèvres.

Quem verifica, de acordo com os procedimentos SI, a balança do supermercado onde o leitor compra as maçãs? E como é feita a verificação? Que verificação? E se o sistema de medição, ou instrumento de medição do supermercado não estiver em conformidade com as normas?

Quem verificou e certificou a bomba de gasolina onde ontem comprei combustível?

Quem verifica a bomba de combustível de uma determinada localidade em Paris? E no Porto? Quem, neste processo metrológico, responde ou fala com quem?

“Quem” e “o que” é metrologicamente (con)fiável?

Vinte e cinco litros (25 L) de gasolina, no Porto, serão exatamente iguais a vinte e cinco litros (25 L) de gasolina em Madrid? (O litro não é uma unidade SI, mas é aceite no sistema*.)

Se o padrão de massa (1 kg) está em Sèvres**, em França, que garantia nos dão as indicações da balança do pomar onde comprei as peras, em Tabuaço ou em Peso da Régua?

E que garantia tem um alemão de Berlim de que os 2,567 kg de laranjas que acabou de comprar no supermercado do seu bairro, ou, em férias, em algum supermercado do Algarve, em Portugal, são confiáveis e aceitáveis e que dariam o mesmo resultado pesadas em Madrid?

Quem garante que um quilo de peras, em Faro, “é” o quilograma de Sèvres?

O VIM (Vocabulário Internacional de Metrologia) define “rastreabilidade metrológica”*** e dá a resposta.

É este conceito e são as ferramentas, os procedimentos e as entidades metrológicas para o operacionalizar, que respondem às perguntas supra e permitem confiar nas medidas obtidas em quase todo o mundo. Conquanto possa haver dúvidas relativamente à gestão dos sistemas metrológicos legais de um ou outro país e às práticas de alguns comerciantes.

A aceitação, gestão e universalização do SI (Sistema Internacional de Unidades) é um caso muito, muito especial de globalização.

 

*O SI tem unidades de base, unidades derivadas (e suplementares) e ainda unidades que, não pertencendo ao sistema, são nele aceites. Muitas unidades mais ou menos correntes não são SI e nem sequer são nele aceites.

 

**Em Sèvres, está o padrão primário de massa; cópias deste, protótipos nacionais, estão em laboratórios nacionais aderentes. O protótipo de que Portugal dispõe “corresponde à cópia nº 69 do protótipo internacional do quilograma”. Este é usado para calibrar outros padrões de massa do país.

 

***Rastreabilidade metrológica – Propriedade dum resultado de medição pela qual tal resultado pode ser relacionado a uma referência através duma cadeia ininterrupta e documentada de calibrações, cada uma contribuindo para a incerteza de medição. [VIM 2012]

 

2017-06-22

TECNOLOGIA METROLÓGICA

TECNOLOGIA METROLÓGICA

Tecnologias e negócios

 

“Tecnologias Metrológicas” será uma expressão melhor do que “Tecnologia Metrológica”. Por simplicidade e comodidade, usemos a expressão “Tecnologia Metrológica”.

A Tecnologia Metrológica tem estado desde sempre em crescimento – crescimento exponencial, diriam opinantes, analistas e comentaristas; agora, aparentemente, todos os crescimentos são exponenciais! E além dos crescimentos exponenciais, os profissionais da comunicação social, entre outros, já não falam, por exemplo, de centros: só epicentros! Nem de resistência: só resiliência! Nem de modelos: só paradigmas. Nem de procedimentos: só protocolos. E quase tudo é científico!

Todas as áreas tecnológicas são (quase) invariavelmente grandes áreas de negócio. A Tecnologia Metrológica também.

A Tecnologia Metrológica é, dentro dos ramos da Metrologia, o que apresenta maior crescimento e visibilidade; uma grande área de negócio, mas escrutinada só em certos casos, principalmente os que têm a atenção da Metrologia Legal.

Instrumentos metrológicos – bons, maus e assim-assim – nascem como cogumelos e são vendidos em todos os sítios. Quase em todos os sítios, e, às vezes, nos menos esperados. E porque não?

Por exemplo, porque não fabricar, promover e popularizar a venda de alcoolímetros (bafômetros, em brasileiro) para uso individual?

Podemos comprar vários tipos de balanças para nos pesarmos, em casa, mas as mesmas terão, certamente, o aviso de que não servem para fazer pesagens comerciais, como as (pesagens) que são feitas em lojas cujos instrumentos têm de ser regularmente calibrados (aferidos).

Os desenvolvimentos, por exemplo, da Eletrónica e da Informática, ajudam a potenciar os desenvolvimentos da Tecnologia Metrológica.

A Metrologia vai mais devagar e não se ocupa de muitos artefactos ditos instrumentos de medição.

Embora as medições sejam extremamente relevantes para a qualidade dos produtos industriais, as autoridades metrológicas nada têm a ver – tirando os processos relacionados com a certificação da (qualidade) das empresas – com os instrumentos e os modos de medir durante os processos de fabrico e produção, na indústria. Contudo, é do interesse dos responsáveis pela produção que os instrumentos usados na fábrica sejam de qualidade e estejam calibrados e que os colaboradores procedam, metrologicamente, como profissionais.

A Tecnologia Metrológica, como outras tecnologias, é para todos, e é uma oportunidade de negócio para muitos. A Metrologia, nem por isso.

A Tecnologia Metrológica está fortemente entrosada nos negócios; a Metrologia é menos ambiciosa.

Todos os dias são postos à venda novos instrumentos de medição, mas, por exemplo, não se vende novas definições nem correções de conceitos metrológicos.

A Tecnologia Metrológica está cheia de dispositivos imprestáveis e não confiáveis. Na Metrologia há mais escrutínio, menos lucro e menos empreendedorismo.

Os serviços de metrologia – seguramente, os que têm a responsabilidade do sistema metrológico nacional – são, frequentemente, serviços públicos, ou acreditados por entidades públicas; as tecnologias metrológicas são de produção e iniciativa privadas.

 

2017-06-15

TRÊS, OU QUATRO PÉS?

TRÊS, OU QUATRO PÉS?

Princípio de Kelvin

 

As mesas de quatro pés, ou pernas, frequentemente, têm um pé no ar. Deixadas por conta própria, estas mesas apoiam-se só em três pés.

Quando não estão por conta própria, também se apoiam em três pés, mas, não são sempre os mesmos três pés: ora um, ora outro, no ar.

Mesas e bancos de quatro pés, frequentemente, não se mostram estáveis: quando os usamos e quando vamos variando as forças sobre o tampo da mesa, com os cotovelos ou com a posição dos pratos e chávenas, ou, com a posição do corpo, sobre o assento do banco ou da cadeira onde nos sentamos, são irritantemente oscilantes, instáveis, e geralmente precisam de calços.

Quem é que já não pediu ao empregado, no restaurante, ou no café, que fizesse o favor de calçar a mesa, ou a calçasse, por sua iniciativa, para que a mesma não baloiçasse. Acontece até em bons restaurantes!

Os quatro pés de uma mesa ou de um banco permitem definir vários planos, diferentemente do tampo da mesa, ou assento do banco – um plano.

Cada grupo ou conjunto de três pés, do total de quatro, define um plano; combinando os quatro pés três a três, conseguimos definir quatro planos.

Se o piso, o chão, for (um) plano, teoricamente, poderíamos ter cada um dos quatro planos possíveis a coincidir com o do chão: ora um, ora outro, e ainda outros consoante as forças – cotovelos, pratos e chávenas – vão sendo mudadas de posição sobre o tampo da mesa. Contudo, frequentemente, são só duas as posições possíveis, mas bastam para a instabilidade dos mesmos – bancos e mesas –  e para o desconforto, a incomodidade e até a irritação dos utentes.

Mesas e bancos de três pés estão sempre em equilíbrio, não baloiçam. Três pés, ou três pontos, definem um plano e quatro pontos definem mais do que um plano. Com três pés não há opções: três pés, um só plano.

Muitos bancos rurais – os da classe das mobílias, não as instituições financeiras de vocação agrícola! – estão sempre em equilíbrio: têm três pés.

Três pés, melhor do que quatro? Sabedoria popular?!

Um dispositivo metrológico existente em todos os laboratórios de Metrologia Geométrica, ou Metrologia Dimensional, e em muitos laboratórios de empresas de manufatura, nomeadamente da metalomecânica – o plano metrológico – tem três apoios, três pés.

O tripé é um dispositivo muito conhecido de fotógrafos, cineastas e topógrafos, por exemplo.

Contudo, para caminhar, dois ou quatro pés são preferíveis a três pés, como acontece com os animais. Contudo, como diria o senhor de La Palisse/Palice, andar não é estar parado!

Embora esta questão – não tanto a do número de pés de um banco ou mesa, mas a questão idêntica das “bases” de apoio, localização e fixação de uma peça em curso de fabrico – pareça risível, ela é muito relevante em muitas áreas da Tecnologia e da Engenharia. Tão importante que mereceu a atenção e a contribuição de William Thomson, Lord Kelvin*, para a resolução do problema, com o princípio do ponto‑reta‑plano.

 

*Lord Kelvin, homenageado com a designação da unidade de temperatura (absoluta) do SI, o kelvin (com /capa/ minúsculo – k –, e não grau Kelvin), símbolo K (letra maiúscula), que fez estudos que permitiram o estabelecimento de princípios, métodos e critérios em várias áreas do conhecimento.

 

2017-06-08

MEDEM-SE A PALMO?

MEDEM-SE A PALMO?

Não, medem-se a metro

 

Os homens não se medem aos palmos, ao palmo, ou a palmo – medem‑se ao metro, a metro, aos metros. E as mulheres também. Em Portugal e em muitos outros países.

Quem diz palmos, diz pés e polegadas.

Medir as pessoas aos pés, e às polegadas, só nos países em que vigora o sistema inglês, por vezes denominado sistema imperial.

O dito popular “os homens não se medem aos palmos”, ou a palmo, sugere, ou quer significar, que as pessoas não se hierarquizam por alturas, ou que o valor das pessoas não se mede por caraterísticas anatómicas, ou biométricas, nomeadamente a altura.

As pessoas não são avaliadas pela respetiva altura, exceto em algumas áreas profissionais onde a altura é critério determinante, eventualmente critério de exclusão: aviação e moda, por exemplo.

Embora a frase seja idiomática e não deva ser tomada à letra, ela pode ter, e tem também, significado metrológico literal.

O palmo, uma unidade usada em Portugal, há muito tempo, ainda vigora no sistema inglês (também designado por sistema imperial) e vale nove polegadas (9’’), entre outras equivalências (!), quase vinte e três centímetros (23 cm).

A rainha de Inglaterra, do Reino Unido e de outras terras, mede cinco pés e quatro polegadas (5’4’’), equivalente a cerca de um metro e sessenta e três centímetros (1,63 m); ou media, porque com a idade, as pessoas vão perdendo altura (e, neste caso, eventualmente de modo mais rápido e intenso, pelo peso das responsabilidades políticas, sociais e familiares, não?!).

Além disso, aparentemente, de manhã, medimos mais um centímetro do que ao fim do dia!

Entre nós, os homens e as mulheres são medidos a metro, apesar dos portugueses dizerem que os homens não se medem aos palmos (ou a metro).

O palmo ainda resiste (simbolicamente) em muitas expressões portuguesas*. Por cá, ainda é frequente a expressão “debaixo de sete (7) palmos de terra”, (six (6) feet under, em inglês, com o “pé” – seis pés – na expressão, e não o palmo – sete palmos), para falar de um enterramento ou inumação.

Contudo, americanos e muitos ingleses, entre outros, medem em polegadas, palmos e pés, os comprimentos, as distâncias e os deslocamentos; e estas unidades são tão boas como as unidades SI (Sistema Internacional de Unidades) que nós usamos.

O palmo, aquele a que por vezes recorremos usando as nossas mãos, pode ser uma unidade de medida, mas de validade caseira, sem consistência metrológica (legal ou científica).

Em casa, para assuntos caseiros, não é proibido usar o palmo, o passo, a vara, a caneca, o copo, entre outros artefactos, objetos e critérios como unidades de medida; bem como a “dose”, o “pratinho” e a “tigela”, nos restaurantes portugueses. Estas unidades, contudo, não têm validade (metrológica) legal. Em Portugal.

O palmo do sistema inglês é uma unidade metrológica legal em vários países (não em Inglaterra!).

 

*Pagar com língua de palmo; não ver um palmo à frente do nariz; progredir palmo a palmo; artistas de palmo e meio.

 

2017-06-01

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