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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

GRANDE ÁREA

GRANDE ÁREA

Cultura metrológica

 

A repórter dizia que o detido estava numa cela de três metros quadrados. Segundo a mesma repórter, o prisioneiro estava confinado a um espaço de chão quadrado de três metros de lado (era de facto um retângulo que tinha cerca de dois metros por três metros, 2 mx3 m).

Em outro cenário, o treinador terá dito, durante um treino, para exemplificar uma técnica futebolística: – Vocês os três, façam um quadrado!

A Metrologia, mormente a Metrologia Elementar, interessa a todos. A Geometria, ainda que só a Geometria Elementar, também.

São correntes as iliteracias metrológica e geométrica elementares, mesmo entre os profissionais que têm aparentemente como principais instrumentos de trabalho a língua (portuguesa) e a cultura geral.

Um quadrado de três metros (3 m) de lado tem uma área de nove metros quadrados (3 mx3 m=3xmx3xm=3x3xmxm=9 m2).

Um retângulo de 2 mx3 m tem seis metros quadrados de área: 2 mx3 m=6 m2.

Um jornal informava, a propósito de um “buraco” que, inopinadamente, aparecera algures: … uma gigantesca cratera com um tamanho equivalente [a] 6 campos de futebol: mais de 700 metros de comprimento, quase um quilómetro de área e 46 metros de largura. Tal e qual! O leitor percebeu? O autor desta crónica também não.

O hectare (ha, cem ares, 100 a, 100x10 mx10 m, 100x100 m2), uma unidade de área referida com frequência, é uma área igual à área de um quadrado com cem metros (100 m) de lado. Um quadrado com lados de cem metros (100 m) tem uma área de 100 mx100 m=100x100xmxm=10 000 m2.

Um campo de futebol tem uma área de cerca de 1 ha (100 a=100xa=100x100 m2=10 000 m2) e, como sabem os amantes de futebol, tem duas grandes áreas, entre outras áreas. Mas, a grande área é bastante menor do que a área do campo todo – no futebol.

A FIFA recomenda campos de futebol retangulares de cento e vinte metros (120 m) por noventa metros (90 m) – dimensões máximas –, logo, campos com área de dez mil e oitocentos metros quadrados: 120 mx90 m=10 800 m2, área ligeiramente maior do que um hectare, exatamente 1,08 hectare* (10 800 m2/10 000 (m2/ha)=1,08 ha).

1 ha pode escrever-se como sendo 1 hm2 (100 mx100 m=1 hmx1 hm=1 hm2)**, um hectómetro quadrado.

Frequentemente, a informação sobre áreas de regiões agrícolas, hidrográficas, ou outras, vem expressa, quer em hectares (ha), quer em quilómetros quadrados (km2). Um quilómetro quadrado (1 km2) equivale a 100 hectares (100 ha)***.

 

*O plural ”hectares” só deve ser usado a partir de duas unidades. Também com todas as outras unidades, naturalmente.

 

**Em boa Matemática, um hectómetro quadrado deveria escrever-se (1 hm)2=1 h2m2. Porém, por simplicidade e por convenção do SI, escreve-se 1 hm2. O mesmo para o cm2, mm2, km2, por exemplo.

 

***1 km2=1 kmx1 km=1000 mx1000 m=1 000 000 m2=100x10 000 m2=100 ha.

  

2016-04-28

MEIA DOSE

MEIA DOSE

“Dose” é unidade de medida?

 

Quatro pessoas sentaram-se à mesa do restaurante – Quatro doses de sopa de pedra, por favor. – Olhe que uma dose chega para todos e ainda sobra! – informou a empregada. E não é que acertou?!

O leitor sabe quanto pesa, ou quanto mede uma dose em ambiente de restauração? Em Portugal?

Não há quem não saiba o que é uma dose! Sabem todos!

Uma dose é coisa banal, ninguém se questiona sobre quanto vale, quanto mede uma dose. Aparentemente, para um português comum, isto não é um problema.

Toda a gente sabe que a dose é o que vem na travessa, no prato, ou no tacho, decidido pelo restaurador ou seus colaboradores, depois do nosso pedido de … uma dose! Qual é a dúvida?

Mas o autor não sabe quanto pesa, ou quanto mede uma dose.

Sendo uma refeição no restaurante uma transação comercial, em geral não clandestina, parece ao autor que os termos da mesma (transação) deveriam estar mais bem definidos. Quantitativamente bem definidos, pelo menos. Como saber se uma dose é suficiente, ou se vamos gerar desperdício?

Uma dose parece não ser a mesma coisa em diferentes sítios do mundo da restauração. Haverá indicações, recomendações ou orientações para eliminar esta incerteza, arbitrariedade e ambiguidade? Em Portugal?

O autor não sabe de nenhuma norma, e nunca deu por documento algum afixado nos estabelecimentos de restauração portugueses para elucidação dos clientes relativamente a esta questão: a dose. Parece nada haver sobre a dose: o máximo e o mínimo de peixe ou carne, e o acompanhamento, por exemplo.

Aparentemente, estamos à mercê do restaurador quando pedimos uma dose; e continuamos duplamente à sua mercê quando pedimos meia dose por que geralmente custa mais do que metade do preço de uma dose.

Fora de Portugal, regularmente, nos estabelecimentos de restauração e similares, estão afixados os significados quantitativos dos termos literais que constam das listas, ou ementas.

A (des)propósito: no bar, em Portugal, pedimos uma imperial (!); em Inglaterra, pede‑se half a pint, please – a pint é uma unidade de capacidade.

Uma dose será uma unidade de medida? Uma unidade de medida da restauração?!

Se uma dose custa vinte euros, porque é que meia dose custa doze euros?

No restaurante, a dose que me serviram não é igual à dose da mesma especialidade na mesa ao lado. Será um caso de cada dose uma surpresa? Ou, generalizando o dito dois pesos e duas medidas, um caso de “n” pesos e “n” medidas?

O comensal comum, em geral, não sabe qual é o peso ou o volume de uma dose, nem qual é a proporção carne/batata, por exemplo, que lhe vai ser servida.

Além da dose há ainda o pratinho, o pires e a tigela, por exemplo, como unidades de medida dos restaurantes e afins.

Nas cadeias de fast food, por exemplo, o peso de um hamburger não diferirá muito do peso de outro hamburger do mesmo tipo e preço. Nem um hamburger é muito diferente de outro hamburger do mesmo tipo, comprado em outro dia, ou em outra loja do mesmo grupo.

A consistência quantitativa e qualitativa parece ser muito maior na restauração industrial do que na restauração tradicional.

 

2016-04-21

DEZ MICRÓMETROS

DEZ MICRÓMETROS

Também medimos o que não vemos

 

Estamos familiarizados com o metro, com o centímetro* e com o milímetro*. E o micrómetro*?

O micrómetro (µm) – um submúltiplo do metro, um milionésimo do metro (10−6 m), um milésimo do milímetro (10−3 mm) – foi recentemente (2015) popularizado em Portugal, a par da divulgação das espessuras dos sacos de plástico que os híper- e supermercados costumavam oferecer aos clientes.

A espessura de referência, na nova legislação relativa aos sacos de plástico de determinado tipo, é 0,05 mm (50x10−3 mm=50x10−3x10−3 m=50x10−6 m=50 µm), isto é, cinquenta milionésimos do metro, ou cinquenta micrómetros.

Cada traço, ou risco da graduação de uma régua tem, indicativamente, uma espessura, ou largura, de um décimo de milímetro (0,1 mm), isto é, cem micrómetros (100 µm), ou cem milionésimos do metro.

Um traço com espessura/largura de um micrómetro (1 µm), ou até de dez micrómetros, ou seja, um centésimo do milímetro (10 µm=0,01 mm), não se vê, isto é, não pode ser visto por nós sem ajudas óticas, ou eletrónicas.

Um cabelo mede, indicativamente, cem micrómetros (100 µm=0,1 mm) de diâmetro, ou espessura, um décimo de milímetro, tanto como a espessura/largura do risco ou traço na graduação de uma régua.

Com os meios de que geralmente dispomos em nossas casas, ou no escritório, não será fácil dividir um milímetro (1 mm) em mil partes (1 mm/1000=10−3 m/1000=10−6 m=1 µm), para conseguir o comprimento de um micrómetro (1 µm – µ é uma letra do alfabeto grego e lê-se miú).

A letra grega µ é usada como prefixo SI e vale 10−6, um milionésimo. Um micrograma (1 µg) é um milionésimo do grama; um microampere (1 µA) é um milionésimo do ampere; um microssegundo (1 µs) é um milionésimo do segundo.

Nas fábricas e em laboratórios onde é corrente o milésimo de milímetro, ou micrómetro, frequentemente chamam-lhe mícron, uma palavra derivada da palavra de origem grega mikrós/mikrón, que significa pequeno e que é usada como prefixo em palavras portuguesas tais como, microscópio, microfone, microbiologia, micrótomo, micrométrico e microcrédito, por exemplo. Micrómetro é porém o termo correto para o milionésimo do metro, não mícron.

 

Nota: A palavra micrómetro também é usada, em Tecnologia Metrológica, para designar instrumentos de parafuso capazes de detetar, com rigor, diferenças de comprimento de, indicativamente, um micrómetro. A resolução destes instrumentos varia de instrumento para instrumento, mas, frequentemente, esta resolução está entre dez micrómetros (10 µm) e um décimo de micrómetro (0,1 µm).

 

*milimetro, centimetro, micrometro, segundo o VIM 2012

100 µm=100x10−6 m=100x10−3x10−3 m=10−1x10-3 m=10−1 mm=0,1 mm

10 µm=10x10−6 m=10x10−3x10−3 m=10x10−3 mm=10−2 mm=0,01 mm

 

 

2016-04-14

MEDIR SEM TOCAR

MEDIR SEM TOCAR

Medir as estrelas sem lá ir

 

Aponta-se o ecobatímetro ao fundo do mar e mede-se-lhe a profundidade; orienta‑se o radar (cinemómetro) para o carro em movimento e mede‑se‑lhe a velocidade; dirige‑se o pirómetro na direção do metal fundido que repousa no forno e tira‑se‑lhe a temperatura.

Podemos medir algumas caraterísticas geométricas das bolas de sabão observando, sem tocar, os “arco(s)-íris” lá instalados.

São correntes as medições sem toque, sem contacto material. Usamos agentes intermediários não materiais – poderão ser radiações eletromagnéticas – para fazer medições.

Em Metrologia, as radiações eletromagnéticas não são só veículo de informação, mas também são usadas como princípio metrológico, ou fenómeno que serve como base para uma medição.

De modo idêntico ao das radiações eletromagnéticas, os ultrassons poderão ser usados como princípio metrológico.

A medição indireta, medição através de cálculo, é, naturalmente, também sem toque.

Todavia, a experiência, a sabedoria e a sensibilidade populares associam a medição ao contacto com o objeto sob medição: o contacto do termómetro com o corpo humano, das batatas com o prato da balança e da fita métrica com as paredes da sala.

Contudo, pode medir-se a temperatura do corpo humano, sem contacto; pesa-se as estrelas; e os trabalhadores da construção civil usam, por exemplo, prumos de radiação, entre outros dispositivos de medição, que dispensam o contacto material.

O cúmulo da medição sem toque é a que é feita com os relógios. Os relógios medem o tempo sem termos de os fazer tocar seja o que for e sem os apontar seja a que for. Os relógios medem o tempo sem sabermos onde ele está, de onde vem, ou se é uma invenção, ou criação útil. Não é necessário aproximar ou apontar um relógio a ponto algum, ou coisa alguma. Vivemos, em vários países, em geral, com diferentes tempos (horários). Em princípio, os órgãos de soberania de um estado poderão decidir –  processo de natureza política! – a hora que vigora nesse mesmo estado. Isto é, um político poderá mandar no tempo, no tempo oficial do país onde exerce o poder.

Muitas medições dispensam, ou podem ser feitas sem o contacto material: a distância entre as margens de um rio; a distância da Terra à Lua; a temperatura de uma estrela. Contudo, frequentemente, é necessário o contacto visual, ou o contacto de radiações de outras bandas de frequência, além das das radiações visíveis.

Medimos (indiretamente) a distância entre margens de um rio a partir de uma das margens: não é necessário atravessar um rio para medir a distância entre margens.

Com GPS estima-se, calcula-se, mede-se a distância entre dois pontos, sem lá irmos. A Terra está já coberta por um retículo geométrico que permite o cálculo da distância entre quaisquer dois pontos.

Segundo alguns autores, estamos numa idade de ouro da medição à distância.

Através de satélites, mede-se variações de 1 °C entre pontos terrestres que distam entre si somente alguns metros, sem lá estarmos, evidentemente.

Vemos cada estrela pela radiação que, partindo dela, chega até nós carreando informação e desvendando algumas das suas caraterísticas. E o que nos chega da estrela tem muito mais do que a capacidade de estimular as nossas retinas e sensores de luz! Algumas estrelas já não existem, mas medimo-las!

 

2016-04-07

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