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Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

Medidas e medições para todos

Crónicas de reflexão sobre medidas e medições. Histórias quase banais sobre temas metrológicos. Ignorância, erros e menosprezo metrológicos correntes.

MEDIÇÕES SIMPLES E MEDIÇÕES FÁCEIS

MEDIÇÕES SIMPLES E MEDIÇÕES FÁCEIS

Procedimentos e protocolos

 

Nem todas as medições são tão simples (elementares e compreensíveis) e fáceis (rápidas e imediatas) como é, por exemplo, a pesagem de batatas* no supermercado: colocamos as batatas na plataforma (prato, ou tabuleiro) de pesagem – hodiernamente, as balanças não têm dois pratos, como as clássicas balanças de Roberval – e sem mais, lemos o peso, imediatamente, no visor da balança. (Um erro, ou uma incerteza, de cinquenta gramas – um grande desvio! –, em um quilograma de batatas que custa 0,5 €, representa um valor de 0,025 €.)

Por exemplo, a medição da pressão (tensão) arterial, uma grandeza (e respetiva medição), com que muitos estão familiarizados, não é tão simples, imediata e banal como a pesagem de batatas, pese embora a facilidade operacional dos esfigmomanómetros eletrónicos e digitais (apesar do aparato e do manuseamento do dispositivo e da preparação do paciente).

A complexidade da medição da(s) pressão(ões) arterial(ais) começa pela designação do instrumento de medição, um pouco longa, incomum, estrambótica e não fácil de articular – esfigmomanómetro –, passa pela (auto)preparação do paciente e termina com o resultado, que afinal são dois: as pressões sistólica (máxima) e diastólica (mínima). E geralmente é necessário, ou é conveniente, fazer várias medições (repetições ou iterações) e, a cada repetição, poderão surgir diferenças ou variações de 10%, ou mais, principalmente entre a primeira e as medições seguintes.

Algumas medições são (conceptualmente) simples, sem serem (de práticas) fáceis**.

Toda a gente tem noção do que será o volume, por exemplo, de um petroleiro – o volume é uma grandeza simples; haverá alguém que não saiba o que é e como determinar, medir, o volume do seu quarto, geralmente um simples prisma? – todavia, os espaços de um navio não são tão (geometricamente) regulares como os prismas elementares que constituem quase todos os quartos; além disso, a capacidade do navio – pelas deformações e outros fatores – é variável com a quantidade ou valor da carga.

Medir a velocidade da luz é hoje muito mais simples e fácil (diferentes técnicas e métodos, com lasers e fenómenos de interferência) do que já foi. Contudo, não é processo que possa ser confiado a alguém que só está familiarizado com pesagens de batatas.

 

* As batatas, por serem comuns e banais, são a referência mais ou menos irónica para uma grande quantidade de temas, contextos e circunstâncias.

Todavia, por exemplo, a calibração, os ajustes e a horizontalidade da balança, entre outros fatores de relevo metrológico, devem ter procedimentos e controlos incontornáveis, mesmo nos supermercados. Aliás, as disposições e prescrições legais obrigam a calibração periódica (anual) destes instrumentos de medição. (Fora destes atos legais obrigatórios, os utilizadores, ou donos dos instrumentos, não estão desobrigados de adotarem os procedimentos, controlos e verificações metrologicamente devidos, incluindo calibrações frequentes e eventuais ajustes.)

 

** Por vezes, quando os procedimentos para as medições envolvem vários recursos (técnicos, humanos e materiais, por exemplo), e são menos comuns, poderão ser usadas designações um pouco menos correntes e de aparente sofisticação, como, por exemplo, “protocolos de medição”.

 

2022-07-28

MEDIDAS E MEDIÇÕES AD HOC

MEDIDAS E MEDIÇÕES AD HOC

Unidades fora da caixa

 

“Uma embalagem de molho de tomate contém doze pacotes de açúcar”, dizia o aviso de alerta relativamente ao açúcar escondido naquele molho (e coisa semelhante poderia ser dita relativamente a outros preparados). O “pacote de açúcar” é aqui usado como “unidade de conta”, como “unidade de conveniência”, como unidade ad hoc (de substância, como, por exemplo, parece ser a mole, também uma unidade ad hoc, a unidade dos químicos, apesar de unidade de base SI). Mas, “pacote de açúcar” de que época*?, e de que país?

É frequente o uso de “unidades atípicas” na linguagem do quotidiano, incluindo a dos apresentadores, comentadores e analistas dos média (mídia).

“É só um momento”, ou, “daqui a alguns momentos” são expressões correntes que fariam presumir ser o “momento” uma unidade de tempo.

Eis algumas “unidades” correntes, contudo, aparente e quantitativamente explícitas** que toda a gente parece conhecer e perceber:

 

O pacote de açúcar;

O preço de um café;

O tamanho de uma noz***;

A dose;

A geração (intervalo de tempo);

A legislatura (intervalo de tempo);

A pipa de vinho;

O jarro de vinho;

A caneca de cerveja;

O barril de petróleo;

A colher de xarope;

O acre (“área de terreno lavrada durante um dia”);

Os tamanhos S, M, L, XL, XXL (roupa)

 

Algumas destas “unidades” poderão estar definidas com “rigor”, como, por exemplo, “pipa” (mas não em “uma pipa de massa”); colher de xarope (por imperativo de rigor farmacológico) e acre**** (unidade de área grande, corrente em países anglo‑saxónicos).

Aliás, para se caracterizar a potência de um carro, adotou‑se, originalmente, a referência ao cavalo (a força motriz corrente e comum nas caleches e nas carroças, até então): o “horse power”.

 

* Em Portugal, os pacotes de açúcar têm vindo, por legislação consecutiva, a conter diferentes quantidades (pesos) de açúcar: já tiveram 10 g a 12 g; de seguida, 8 g a 10 g; depois, 6 g a 8 g e, futuramente, irão ter 4 g a 6 g.

 

** É corrente, sobretudo em Culinária, a quantidade de referência “qb”, ou “q.b.”, “quanto baste”, que corresponde a variadíssimas quantidades, conforme o cozinheiro, a dose e a receita.

 

*** “Tamanho” é termo ambíguo: pode referir‑se a volume; área; comprimento, entre outras grandezas: – Não sabia o tamanho do cão.

 

**** Um acre foi inicialmente definido como a área que seria lavrada em um dia com uma junta de bois. (Com que bois?; com um dia de que extensão? – de “sol a sol”?!) Contudo, hoje, é uma unidade de área definida com rigor: 43 560 pés quadrados (43 560 ft2), ou 4840 jardas quadradas (4840 yd2), aproximadamente 4047 metros quadrados (4047 m2), ou, 0,4047 hectare(s) (0,4047 ha).

 

2022-07-21

NEM O CÉU ESCAPA ÀS MÉTRICAS

NEM O CÉU ESCAPA ÀS MÉTRICAS

Métricas humanas para coisas celestes

 

A realidade “é” a “nossa” narrativa do que percebemos e cremos ser … a Realidade. (A realidade parece em mudança contínua; e a Realidade?)

(A ficção, a utopia e a ideologia são narrativas de produção de realidades frequentemente alternativas, eventualmente com diferentes graus de aderência à perceção comum, corrente, da … Realidade.)

A realidade é descrita principalmente por e com conceitos, por e com imagens, por e com métricas da Realidade que são interpretações humanas.

(A própria Ciência integra, através das várias ciências, diferentes perspetivas da mesma Realidade, e dentro de cada ramo ou perspetiva, integra versões que vão evoluindo com o tempo.)

E nem (a narrativa d’) o Céu escapa às métricas humanas*: “… a relação entre o Céu e a Terra começa a ser dominada por considerações quantitativas” **.

(Não só o Céu, mas também o Inferno***.)

Frequentemente, para a mesma Realidade, há sempre muitos conceitos, muitas imagens e ainda mais termos ou palavras.

Por exemplo, há jogos de futebol em que as equipas que perdem (métrica da eficácia) são consideradas, por comentadores encartados (ainda que, aparentemente, sem formação formal específica), terem jogado melhor (métrica da estética e do bem-jogar) do que as equipas oponentes, ou adversárias.

Como em outras áreas, no futebol há métricas consistentes (contagem de golos); métricas da estética (cenografia e jogadas empolgantes), e métricas da ética (em geral da responsabilidade dos árbitros).

As narrativas técnicas e científicas, em geral, não devem ter estética nem ética (nem populismo, demagogia, ou bairrismo); os medidores (com deontologia) devem eximir‑se ao rigor; e as descrições devem ser feitas através de entidades, de grandezas e de fatores objetivos, consistentes, universais.

Os resultados metrológicos também devem estar livres da ética e da estética embora os metrólogos não estejam dispensados da deontologia (nem da ética( nos seus procedimentos.

 

* É da Bíblia, dos cientistas e dos filósofos, que “Deus fez tudo com conta, peso e medida”; mas, aparentemente, por métricas humanas, não por métricas divinas. (Para pagãos e panteístas, os deuses e Deus estariam dentro da Realidade.)

E as métricas estão também presentes nas hierarquias celestes; métricas suportadas, por exemplo, pela maior ou menor proximidade de Deus.

Segundo S. Gregório Magno, a angelologia celeste comportaria as seguintes classes (de 1, a mais privilegiada, a 9, a menos influente), por ordem crescente de distância ao Criador e decrescente de importância: 1 ‑ Serafins, 2 ‑ Querubins, 3 ‑ Tronos, 4 ‑ Dominações, 5 ‑ Principados, 6 ‑ Potestades, 7 ‑ Virtudes, 8 ‑ Arcanjos, 9 ‑ Anjos. (Há outras classificações e métricas!)

 

** José Mattoso [1933 – ], historiador e professor português; ex-monge.

 

*** Em “A Divina Comédia” (um clássico da literatura europeia), Dante Alighieri [1265-1321], um escritor e político de Florença, escreveu um poema sobre o Céu, o Purgatório e o Inferno e fez neste (poema) uma narrativa, geralmente muito apreciada e comentada, estabelecendo ordem, hierarquia e a acomodação (naqueles espaços) dos vultos humanos mais sonantes da cultura clássica.

 

2022-07-14

MEDIDAS E EXPRESSÕES

MEDIDAS E EXPRESSÕES

Dos números naturais aos decimais

 

A idade, a idade de cada um de nós, a medida da nossa idade, a expressão numérica do período já decorrido desde o nosso nascimento, exprime-se por um número inteiro, melhor, um número natural*.

(“Deus criou os inteiros; tudo o resto é trabalho do homem”, escreveu Kronecker [1823-1891], matemático.)

Temos a liberdade de considerar que as grandezas a medir são contínuas (exprimíveis por números reais), mas as medidas diretas são representadas por quantidades discretas (números fracionários, números racionais), podendo ser números inteiros, ou até naturais**.

Apesar de usarmos (para a nossa idade) uma unidade de tempo grande, o ano, que não é unidade SI (embora o ano astronómico seja aceite neste sistema), persistimos em usar números naturais*** para uma grandeza – o tempo – que é contínua (por definição e convenção clássicas)****. Todavia, usar a medida real, a que leríamos em algum cronómetro comum integrado no nosso corpo, faria com que estivéssemos a mudar de idade continuamente, o que, sendo verdade, seria, na prática, inconveniente.

Usar submúltiplos do ano, como o mês (um submúltiplo duodecimal do ano), daria expressões retorcidas; por exemplo, trinta anos e onze meses (30 anos 11 meses) seriam 30 11/12 anos, ou 371 meses, ou ≈30,917 anos).

Há até medidas que nos fazem sorrir: ler que, num certo ano, a “taxa de natalidade” foi 9,2 faz interrogarmo-nos sobre o que será 0,2 de um bebé!, embora muitos leitores saibam que se trata de 92 bebés por cada dez mil habitantes (92 em 10 000, ou 9,2 em 1000  9,2‰, uma permilagem). Quem diz “taxa de natalidade”, diz “taxa de mortalidade”, entre muitas outras (taxas).

Há percentagens que são “medidas” e há medidas que são expressas através de percentagens (%), ou permilagens (‰).

 

* Exprimimos a nossa idade, por exemplo, com expressões tais como: “10 anos”, “21 anos”, “46 anos”; – “faço 47 no mês que vem”. (“Anos civis”!, que não são consistentes entre si, nem com o “ano astronómico”.)

Exprimir uma idade de modo diferente, por exemplo, “10 anos e 7 meses” seria um modo esquisito (pelos nossos hábitos) de expressar a idade, embora seja frequente com a idade das crianças: por exemplo, “6 meses”, ou, “um ano e um mês”. (Porém, expressamos “as horas”, em geral, com duas unidades diferentes: a hora e o minuto: são 12 h 14 min.)

Geralmente usamos os mesmos critérios (nas expressões metrológicas), por exemplo, para a idade de gatos, cães e cavalos, embora as esperanças de vida destes animais sejam (muito) inferiores à dos humanos.

 

** Usar a unidade “nanómetro”, para exprimir distâncias atómicas, poupa-nos aos decimais. De modo idêntico, um carro “não pesa 0,8 t”, mas poderá pesar 800 kg; já o camião poderá pesar 20 t. Os “inteiros” parecem ter a preferência do “grande público”.

 

*** Todavia, as medidas são geralmente expressas por números racionais; e os números racionais – ou fracionários – constituem um conjunto contável, um conjunto com o tamanho (a “potência”) do conjunto dos números inteiros!

 

**** As mensurandas (mensurandos, em brasileiro) são em geral grandezas contínuas; as medidas, avatares das mensurandas, são grandezas discretas, do conjunto dos fracionários, logo, contáveis.

 

2022-07-07

DANÇAS DE MÉTRICAS

DANÇAS DE MÉTRICAS

Métricas flutuantes

 

As métricas metrológicas são objetivas, verificáveis e praticamente inalteráveis; as métricas ad hoc, específicas, ou de circunstância, são provisórias, controversas e alteráveis (por vezes, quase) a gosto.

Na medição do pH, até ao valor 7 mede‑se a acidez; acima de 7 mede‑se … a alcalinidade.

O teste de inteligência – há vários –, o QI, servirá também de teste de estupidez? E abaixo de que valor?

(Um carro com 24 anos é um “carro velho”; com mais um ano, isto é, com 25 anos, ou mais, é “um [carro] clássico”. Em português, os termos “velho” e “clássico” dão diferentes perceções.)

A classificação normalizada da “eficiência energética” de alguns tipos de eletrodomésticos, na Europa, parece ter começado por ser: A, B, C, D, E, F, G. Decorrido algum tempo, passou a ser: A+++, A++, A+, A, B, C, D, E, F, G. Finalmente, com a alteração de alguns critérios e desta representação simbólica, parece estar a valer de novo a classificação inicial: A, B, C, D, E, F, G.

Entre outras, há também, relativamente à unidade “pacote de açúcar”, a variação da quantidade de açúcar nos pacotes do mesmo (açúcar) que as cafeterias fornecem aos bebedores de café*.

As doses, uma referência, uma bitola e um padrão na restauração (restaurantes e similares), não são todas iguais, incluindo num mesmo restaurante, onde observamos flutuações de cliente para cliente e de dia para dia.

Quando, consciente, ou inconscientemente, se deseja reduzir a desigualdade entre os classificados em alguns processos, os rankings têm poucos escalões**; no caso contrário – quando se quer marcar bem as diferenças – predominam as métricas com muitos escalões.

Nos ciclos do ensino básico, em Portugal, as classificações dos alunos têm cinco (5) escalões: 1, 2, 3, 4, e 5 (números inteiros). Nos ciclos mais elevados, as classificações dos alunos vão de zero a vinte, e com decimais: de 0,00 a 20,00. Segundo esta classificação, as notas têm uma resolução, discriminação, ou poder discriminador de 1/2000 e expressam‑se por valores tais como: 7,85; 10,72; 14,60; 18,25***. 

 

* Em Portugal, os pacotes de açúcar, por via de legislação consecutiva, progressiva e progressista, têm vindo a conter diferentes quantidades: já tiveram 10 g a 12 g; de seguida, 8 g a 10 g; depois, 6 g a 8 g e, futuramente irão ter 4 g a 6 g. (Aparentemente, com manutenção do intervalo de incerteza: 2 g)

 

** Na classificação de casas de restauração (por exemplo, relativamente a preços, serviço e qualidade), na internet, geralmente de uma a cinco estrelas (mas com decimalização das médias!), a Tasquinha do Zé Gordo pode estar classificada com 5 estrelas, mas … com um só votante! (Geralmente, as classificações de estabelecimentos de restauração, na internet, estão quase todas encostadas às “5 estrelas”!)

 

*** Com esta métrica, está implícito que se consegue discriminar entre, por exemplo, 19,99 e 20,00

Todavia, por exemplo, em universidades anglo-saxónias as classificações têm, mesmo nos escalões superiores, uma menor resolução, ou definição. (Menos discriminadoras: não marcam muito as diferenças. São mais progressistas?)

 

2022-06-30

MÉTRICAS EM TRÍADAS

MÉTRICAS EM TRÍADAS

Perceção de intensidades

 

“Um, dois, três, foi a conta que Deus fez”, é um provérbio popular português.

Aparentemente, o “pequeno”, o “médio” e o “grande” poderiam ser o primeiro nível da quantificação da intensidade, ou do “tamanho” de uma grandeza, ou, mais correntemente, de entidades e conceitos que ainda não são grandezas mensuráveis*, mas hierarquizáveis por tamanho, valor ou intensidade (ainda que aparentes). Contudo, são comuns as diferenças de opinião de diferentes estimadores, avaliando um uma entidade (grandeza) como “grande” e outro avaliando a mesma entidade como, por exemplo, “média”!

Quando se fala de felicidade, com frequência, são citados três escalões: “muito feliz”, “feliz” e “pouco feliz”! Ou variantes como, “felicíssimo”, “feliz”, “infeliz”, ou até desinfeliz, entre outras.

E a morte por doença é frequentemente classificada, por exemplo, nos obituários, segundo três tipos, ou categorias: “doença súbita”, “doença” e “doença prolongada”! (Todavia, hoje, morre‑se, nas notícias, de paragem cardiorrespiratória!) E até as queimaduras corporais são de grau 1 a 3.

As tríadas/tríades são correntes em outras perspetivas, contextos e situações; basta lembrar, por exemplo: os triunviratos, as troicas e as trindades.

O céu, o inferno e o purgatório – uma trilogia – presumem depósitos de almas de três qualidades, ou três tipos, cujo destino seria determinado por padrões (?) de comportamento dos corpos: os bons, os maus e os “indeterminados” (ou em “processo em curso”; hesitações de Deus?).

Quando se diz que “um homem menor não aguentaria 1/3 do que o político X aguentou” está subjacente uma métrica tripartida, presume‑se, de um determinado tipo de resiliência e de três tipos de homem: “o homem menor”; “o homem assim‑assim” e o “homem maior”, que aguentaria três vezes mais do que o “menor”.

E nos campos da ciência e da técnica, é de assinalar: o espaço 3D**, o tripé e o triângulo, todos com relevâncias conhecidas e reconhecidas.

Um júri com três elementos (ou outro número ímpar de elementos) não poderá empatar as decisões.

O rosário (contas enfiadas em formato de colar), usado, por exemplo, pelos fieis da igreja católica, constituído por um conjunto de três grupos de “contas”, é geralmente abreviado pelo “terço”, exatamente um terço das “contas” do rosário, quer como objeto, quer como “tamanho” da oração ou reza.

Mas, porque dizemos “não falo sobre a minha vida com terceiros!”, quando só queremos dizer “com outros” (“com segundos”)?!

 

* Este critério estende-se a outros domínios e circunstâncias: o curto, o médio e o longo prazos; o princípio, o meio e o fim; o primeiro terço, o segundo e o terceiro terços de um conjunto relativamente a propriedades do mesmo (conjunto). (Ainda há poucos anos, alguns povos ditos “primitivos” tinham bases de sistemas de numeração simples: “um, dois, três, muitos”.)

 

** Nas máquinas de comando (e controlo) numérico (CN – Comando Numérico – ou CNC – Comando Numérico Computadorizado), era frequente ouvir‑se referências a máquinas de dois eixos … e meio (2,5D), máquinas com programação automática em dois eixos (2D) – ou dois graus de liberdade – e programação manual no terceiro eixo.

Desde há bastante tempo são correntes e comuns as máquinas automáticas com mais do que três graus de liberdade (seis, sete e mais dimensões).

(Einstein, reinterpretando a Física, veio baralhar um pouco as coisas com o modelo do espaço físico 4D. Todavia, quanto a ferramentas úteis, qualquer dimensão é aceitável e lícita – o significado metafísico é outra estória.)

 

2022-06-23

MEDIR A ENERGIA

MEDIR A ENERGIA

Conhecer a potência

 

“Energia” é termo científico e técnico, mas também termo popular e até do paranormal que, frequentemente, vem embrulhado em alguma/muita ambiguidade e confusão*.

Medimos, contamos, a energia (elétrica) como contamos (medimos) os consumos de água e de gás: sobretudo, porque os pagamos.

Em Física, “energia” é o que resulta do “trabalho”, ou o que pode produzir “trabalho”. E “trabalho” define-se (em Física) de modo inambíguo e, simplificando, algebricamente (o que é vetorial): E=Fl, onde E é o trabalho (ou energia) produzido por uma força** (F) a atuar (sobre um corpo) ao longo de um percurso (l).

Todavia, “energia” é um termo muito usado fora das áreas técnica e científica, isto é, em áreas de, entre outras: crença, fé, paranormal, ideologia, astrologia, poder e até arte.

(“Energia” e “força” são termos usados nas mais variadas situações, geralmente com muita ambiguidade, e, frequentemente, por falantes de léxico reduzido mas assertividade amplificada.)

Medimos a energia elétrica que consumimos em casa e podemos conhecer as potências dos dispositivos elétricos que possuímos (lâmpadas, fornos e TV, por exemplo); contudo, em geral, sentimo-nos (os cidadãos comuns) mais confortáveis com as potências*** (geralmente indicadas em cada dispositivo) do que com os consumos em cada processo, como, por exemplo: a lâmpada acesa durante duas horas e meia, o forno à potência máxima durante quarenta minutos, a TV ligada durante três horas e meia.

(A água do mar está cheia de energia térmica, mas nem sequer um ovo lá conseguimos cozer.)

Medimos distâncias e velocidades, mas em geral estamos mais confortáveis com as primeiras – que sabemos como medir – do que com as segundas. Nos carros, podemos conhecer uma e outra instantaneamente consultando o painel de instrumentos: olhamos para o hodómetro para conhecer as distâncias, e para o velocímetro para conhecer as velocidades.

As velocidades, entre outras dificuldades, apresentam variantes: velocidade média, velocidade instantânea (no carro, a que é indicada pelo velocímetro) e velocidade máxima, por exemplo.

 

* “Energia”, um termo polissémico, parece ser uma palavra mágica, uma palavra para muitas circunstâncias; contudo, uma palavra simples que não aparenta suscitar dúvidas; uma palavra que todos entenderm. E muitas palavras simples tendem a ser mágicas e a resolver todos os mistérios, a esclarecer quaisquer dúvidas, a permitir a compreensão imediata, a gerar esperanças, e a ser usadas por ignorantes, crentes e impertinentes de várias naturezas, níveis e descaramentos.

Quase ninguém se atreve a falar de, por exemplo, piezoeletricidade, fenómeno simples; mas, de energia, toda a gente sabe quase tudo; por exemplo, de energias boas e más, energias positivas e negativas, entre outras. (E quando a expressão for popularizada, falar‑se‑á de “energia escura”, ou “energia negra”, uma expressão mesmo a calhar!)

 

** Ouvimos, às vezes, alguém dizer que “gastou as forças todas”, como se a força fosse uma substância armazenável.

 

*** Estranhos são os potenciómetros que, em geral, não servem para medir a potência!

 

2022-06-16

HOMEM‑PADRÃO

HOMEM‑PADRÃO

Um só padrão para todos?

 

Quem diz homem‑padrão, diz mulher‑padrão, ou pessoa‑padrão. (Todavia, não há padrão; haveria padrões.)

Muitos aspetos da vida social, ou comunitária, são padronizados e padronizadores, embora uns mais do que outros. Por exemplo, a moda é padronizadora.

(Mas não só: a prevenção da nossa saúde, da saúde individual de cada um, é feita com base em valores‑padrão de grandezas fisiológicas, biofísicas e bioquímicas.)

Quem é que não ouviu já, relativamente à escrita e à fala, referências ao português‑padrão?!

O socialmente correto e o politicamente correto parecem ter também características ainda mais padronizadoras do que a moda estrita.

As religiões também são padronizadoras, em particular a partir dos ensinamentos dos líderes, da sedimentação de postulados (dogmas) e das normas estabelecidas pelas hierarquias das respetivas organizações*: pelos valores, princípios, bitolas, padrões, atitudes e comportamentos.

Os prosélitos de cada grupo (mais ou menos organizado) são muito parecidos entre si: por exemplo, pelo sectarismo mais ou menos exacerbado/mitigado: do futebol ao partidarismo político; da ideologia (de todos os tipos) ao ativismo; da política à religião.

Em outra perspetiva, alguns gregos já haviam avisado – por Protágoras, um grego – que “O homem é a medida de todas as coisas”. Isto é, o “homem” é a bitola, a referência, o padrão para tudo. Todavia, não se trataria de (um) homem-padrão – um modelo – que serviria de bitola a todos: seria cada um a sua própria referência, a sua própria bitola, o seu padrão**. (Ora isto não é propriamente a “quinta‑essência” da Metrologia!)

Contudo, por exemplo, na saúde, parece existir um homem‑padrão, e uma mulher‑padrão, que são a referência, entre outros, para os valores de grandezas fisiológicas. E todo o desvio detetado (ao modelo‑padrão) seria devido a putativas disfunções orgânicas, anomalias e avarias e, por isso, elegíveis para prevenções, correções e curas***.

As leis (políticas, administrativas e comunitárias) também são iguais para todos, como se fôssemos todos iguais, ainda que se diga que alguns são mais iguais do que outros. Todavia, parece um bom critério inicial para a gestão ou governação do conjunto de cidadãos de uma comunidade.

 

* Por exemplo, em geral, cada seita tem os tipos comuns de respostas padronizadas a perguntas feitas por terceiros. E quem (especialmente dentro do grupo) questionar, opinar diferentemente, ou apontar incoerências na doutrina, será um herege, um apóstata, um ímpio, um blasfemo, naturalmente a ser excluído, expulso, afastado, marginalizado.

E os castigos não sobrevirão (só) depois da morte, no futuro: ocorrerão mesmo durante a vida, no presente.

 

** Com frequência, as pessoas avaliam as outras pelo que (elas próprias) são, tomando-se, em geral, inconscientemente(?), por padrão. Na verdade, nós próprios somos o padrão e a referência mais próxima e mais imediata para o que (à nossa volta) observamos, avaliamos e opinamos.

 

*** Na saúde, como em outras áreas, há as sacrossantas referências‑padrão, e qualquer vivente não‑conforme é tratado de tal modo que venha a ajustar-se ao “padrão”, à “normalidade”. Simplificando, e com humor: aos muito altos prescreve-se tratamentos e cirurgias que os tragam à altura‑padrão, incluindo, por exemplo, cortes nas pernas – literalmente! Ou a diminuição do ângulo dos “olhos em bico”, entre outros desvios ao padrão (do momento).

 

2022-06-09

QUESTIONAR MEDIDAS E MEDIÇÕES

QUESTIONAR MEDIDAS E MEDIÇÕES

As medidas não são eternas

 

As medidas não são eternas, nem inquestionáveis; e as (escolhas das)

mensurandas (mensurandos, em brasileiro) também não.

São frequentes as medições mal feitas e as medidas com erros significativos. Contudo, não é frequente questionarmos medidas, origem das medidas, medições, medidores, interpretações das medidas, entre outros fatores, perspetivas e procedimentos nos processos metrológicos. E não o fazemos por várias razões, mas principalmente por: 1 – desconhecermos poder haver motivo para questionar; 2 – não valer a pena; 3 – desconhecermos os fatores envolvidos nas medições, ou, por não sabermos como, porquê e o que questionar*.

Menos frequente ainda parece ser o ato de reclamar a pretexto de medidas e de medições.

Por exemplo, nos supermercados, alguns produtos embalados (com preços proporcionais ao peso) perdem peso com o tempo, apresentando medidas reais mais baixas do que as que figuram nas etiquetas apostas aquando do embalamento; contudo, em geral, os consumidores nem sequer se dão conta do facto.

Algumas medidas variam rapidamente (medidas da velocidade do vento, por exemplo), por isso é necessário indicar hora, lugar e medidor a cada medição realizada. A velocidade do vento é geralmente apresentada, quer sob a forma de um intervalo, por exemplo, 30 km/h – 50 km/h, quer sob a forma de velocidade média.

Algumas grandezas fisiológicas (dos humanos) também têm variações relevantes, ou, não fosse a saúde um fenómeno complexo!

Mercê, por exemplo, de legislação, vão mudando as referências das grandezas cujas medidas constam de rótulos de embalagens de alimentos.

Frequentemente, o número de algarismos significativos das expressões metrológicas não são o que parecem. A expressão “2 kg” (um algarismo significativo) não tem o mesmo valor metrológico que “2000 g” (quatro algarismos significativos, e, metrologicamente, o mesmo que 2,000 kg); só matematicamente, só em abstração quantitativa, 2 kg e 2,000 kg são equivalentes. A expressão “2 kg” pressupõe uma incerteza muito maior do que a incerteza de “2,000 kg”. (Quem diz “2 kg” não se compromete (metrologicamente) tanto como quem diz “2000 g” (ou, 2,000 kg), embora pareça ser o mesmo peso.

Há muitos instrumentos que, por exemplo, devido a histerese, e outros fenómenos, necessitam de ser ajustados (resetting) com frequência; não proceder frequentemente a estes ajustes aumenta a incerteza (diminui a precisão) e a exatidão das medições.

 

* Nem todas as medições são tão simples como as pesagens no supermercado. Por exemplo, medir o limite elástico de um determinado material implica operações/processos e fatores, como, por exemplo, fabrico e medição de provetes, fixação dos provetes na máquina de ensaios, calibração da máquina e modo de aplicação da força, que, cada um, e todos juntos, condicionam o resultado final.

Em relatos de trabalhos científicos que incluam medições, geralmente são referidos: as técnicas, os métodos, os sistemas de medição e os procedimentos.

Por outro lado, em muitas medições, em ciência, são feitos milhares de repetições da mesma medição.

 

2022-06-02

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